ROMA - Houve um tempo em que os líderes italianos se orgulhavam de
ter personalidade austera e serem discretos. Eles falavam "politichese",
jargão tecnocrático e denso, desenhado apenas para suas conversas. Os
governos eram formados e caíam com uma rapidez estonteante - 59 ao todo,
desde a 2.ª Guerra - e os políticos geralmente vinham todos em apenas um
modelo, afável. Não mais. Atualmente, o homem que lidera a Itália
escancara sua riqueza e suas mansões, faz pronunciamentos sobre assuntos
grandes, pequenos e íntimos - e ocasionalmente dá uma palinha como
cantor. "Nunca quis ser político", diz ele freqüentemente, como forma de
explicação.
Silvio Berlusconi é o homem mais rico da Itália, o maior magnata da
mídia e, desde maio de 2001, seu primeiro-ministro. Virtualmente todas
as leis aprovadas pelo Parlamento têm impacto direto em seus negócios,
seu poder e seu status legal. Seus defensores - dos quais, um número
substancial por acaso está em sua folha de pagamento - consideram-no um
salvador, uma combinação de Ronald Reagan e Margaret Thatcher do século
21. Seus detratores o definem como uma séria ameaça à democracia. Sua
chegada ao poder sugere que enquanto os países da nova Europa procuram
se unir, políticas idiossincráticas e líderes polarizadores sobrevivem.
Berlusconi não é mais meramente um fenômeno italiano. Depois do
britânico Tony Blair, ele emergiu como o mais fiel aliado europeu do
governo de George W. Bush, despachando tropas italianas para o
Afeganistão e o Iraque no pós-guerra apesar das críticas em seu país. E
o período de seis meses em que ocupou a presidência da União Européia
deu a ele visibilidade mundial e uma chance de demonstrar sua força de
estadista, ao mesmo tempo que procura conduzir uma grande parte da
Europa na direção de uma nova e fundamental Constituição.
Sua performance até agora não foi nada além de churchelliesca. Ele
inaugurou sua presidência dirigindo insultos a um membro alemão do
Parlamento Europeu dizendo que daria um bom oficial de campo de
concentração. Alguns meses mais tarde, ele defendeu o ditador fascista
Benito Mussolini em uma entrevista publicada uma semana antes de viajar
para Nova York, para receber o Prêmio de Estadista Destacado da Liga
Antidifamação de B'nai B'rith. Nessa mesma visita, pediu que Wall Street
investisse na Itália.
"Temos poucos comunistas", disse ele, e "belas secretárias". Embora
os italianos possam sentir-se constrangidos pelas gafes de Berlusconi,
ninguém parece terrivelmente surpreso com elas. É o que eles esperam de
um líder que se define como um antipolítico por natureza, que acredita
que tudo o que faz é em benefício da Itália, e insiste no fato de que
todos os seus opositores ou são comunistas ou, como disse ele
recentemente, são débeis mentais. Ainda assim, amigos e inimigos
concordam que seria um erro dispensar Berlusconi como o bufão em uma
ópera cômica. Sua chegada ao poder coincide com mudanças históricas na
política e na sociedade italiana, e sua agenda é abrangente.
"Ninguém na Itália teve tanto poder desde Mussolini", disse o
senador Tana de Zulueta, extremamente crítico em relação ao
primeiro-ministro. "Essa combinação de riqueza pessoal e forte controle
da mídia", continua Zulueta, "é uma mistura explosiva e sem precedentes
por causa de suas possíveis conseqüências". Besteira, afirma Marco
Ventura, porta-voz do primeiro-ministro. Os italianos elegeram
Berlusconi porque viram que "se ele era tão esperto fazendo seus
negócios também seria fazendo os nossos", diz Ventura. "E, segundo, eles
acharam que ele era tão rico que não precisaria roubar." Silvio
Berlusconi se definiu como "a perfeita personificação do sonho
italiano". Seu pai era bancário e sua mãe uma secretária na fábrica de
pneus Pirelli em Milão.
Berlusconi, de 67 anos, fez faculdade por sua conta, tocando e
cantando piano; um novo CD de canções românticas escritas por ele está
prestes a ser lançado antes do Natal. Ele começou como corretor de
imóveis nos subúrbios de Milão, onde pela primeira vez mostrou um
talento natural para o marketing, vendas e autopromoção. Mas seu grande
feito ocorreu em 1978 quando ele foi para a televisão à cabo.
Naquela época, a televisão italiana era um monopólio estatal,
dominado por três redes nacionais de emissoras. Berlusconi começou
oferecendo a dezenas de pequenas estações de televisão locais novelas
americanas recicladas, como Dallas e Dinastia, filmes baratos e shows de
variedades com mulheres em trajes sumários, em condições que as estações
concordavam em exibir os programas nos mesmos horários e nos mesmos
dias, criando assim uma espécie de rede nacional.
Quando as agências reguladoras ordenaram que a rede saísse do ar,
uma grande revolta dos espectadores as fez voltar atrás. Foi, como disse
Berlusconi, em seu típico estilo bombástico, uma explosão de
"pluralismo, democracia e liberdade". No fim das contas, ele fundou duas
redes nacionais e expandiu seu império para os livros, revistas,
jornais, cinema, bancos, seguros e um time de futebol - o Milan. Sua
fortuna está estimada em algo entre US$ 14 bilhões e US$ 20 bilhões -
tudo conquistado, segundo diz sua campanha, sem um centavo de ajuda do
Estado.
A realidade é um tanto diferente. Como muitos ricos empresários
italianos, Berlusconi logo se associou a um grupo de amistosos
políticos, no seu caso o Partido Socialista, de Bettino Craxi, um dos
instáveis primeiros-ministros italianos. O partido canalizou recursos do
Estado para seus projetos empresariais, e da mesma forma ele canalizou
contribuições para a campanha de Craxi e seus defensores. Craxi foi
padrinho do segundo filho de Berlusconi e do seu segundo casamento com
uma jovem atriz.
No início dos anos 90, uma onda de investigações anticorrupção
liderada por uma nova geração de promotores e juízes, a Operação Mãos
Limpas, levou à queda dos democratas cristãos da centro-direita e seus
rivais socialistas.
Craxi foi um dos que caiu, acusado, entre outras coisas, de aceitar
milhões de Berlusconi.
Mais do que procurar um padrinho político, Berlusconi decidiu
concorrer ele próprio. Criou seu próprio partido político, o Forza
Italia, e prometeu modernizar a economia dominada pelo Estado e
desmantelar sua burocracia. A Itália ainda é em grande parte uma nação
de pequenos empresários e ele apelou diretamente ao orgulho e à carteira
deles.
"Berlusconi pensou: 'Sou popular. Sou conhecido como o homem que
quebrou as regras. Posso fazer algo pela Itália e, ao mesmo tempo,
destruir aqueles que estão vindo à minha casa destruir meus negócios'",
disse Giuliano Ferrara, editor do jornal de centro-direita Il Foglio,
que tem participação acionária da família Berlusconi.
Para surpresa de muitos, a Forza Italia obteve cadeiras suficientes
na eleição de 1994 para levar Berlusconi ao gabinete de
primeiro-ministro. Mas seu governo durou apenas sete meses antes de ser
derrubado. Sete anos mais tarde ele preparou sua volta com uma vitória
impressionante.
Sua campanha e seu governo foram uma produção pessoal de Berlusconi.
Mity Simonetto, uma produtora de televisão que trabalhou com Berlusconi
durante duas décadas, diz que ele escreve os próprios discursos e indica
tudo, desde ângulos de câmera até figurino e maquiagem. Sua biografia, A
História Italiana, foi enviada para 12 milhões de casas. Contém 124
fotos do líder, uma análise de seu horóscopo e declarações pessoais de
celebridades, políticos e até de seu cozinheiro e mordomo, Sandro
Parodi, que é citado dizendo: "Não há ninguém igual a ele."