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Ainda há muito a explorar no universo felliniano

Morto dez anos, o cineasta italiano criou realismo poético e não conheceu a decadência

LUIZ ZANIN ORICCHIO

   Há exatos dez anos, dia 31de outubro de 1993, o cinema perdia Federico Fellini. Talvez não
haja diretor mais consagrado nem mais amado do que ele.Emvida, Fellini ganhou todos os prêmios possíveis, o último deles um Oscar pela carreira, mas o fato é que seu último filme, A Voz
da Lua, não foi bem recebido pelo público ou pela crítica. Ainda exige uma revisão – a sério. E há outro fato que se procura esquecer neste momento de rememoração da carreira de um gênio: o consagrado Fellini tinha dificuldades em levantar dinheiro para suas produções.

   Quando morreu tentava em vão colocar de pé um novo projeto, mas os produtores não acreditavam nele. Não é só noBrasil que esse tipo de coisa acontece, constatação que não chega a ser consolo. É curioso que essas relações tensas entre o criador e o dono do dinheiro estejam no centro daquela que é talvez a obra-prima desse gênio, hoje incontestável: 8 1/2.

   O filme, em sua forma numérica, é hoje um mito. Encontra-se disponível em DVD (lançado em suntuosa edição pela Versátil), como boa parte da obra. Fellini, sem saber como nomear aquela coisa estranha que estava fazendo, somou o número de longas-metragens que havia dirigido até então, incluindo a parceria com Alberto Lattuada no primeiro deles; acrescentou mais dois episódios, e chegou a essa conta: estava fazendo seu oitavo longa, mais a metade.

   Bem, isso, naquele ano de 1963, era mesmo ummomento de balanço, e assinalava um ápice, sempre assustador, porque em geral depois do apogeu vem a queda. Naquele tempo, havia muito, Fellini já era Fellini. Tinha 43 anos, era famoso no mundo inteiro e dono de sucessos absolutos como A Estrada da Vida (1954), As Noites de Cabíria (1957) e A Doce Vida (1960).

   Tinha vindo do neo-realismo, no qual trabalhara com o papa do movimento, Roberto Rossellini. Mas, aos poucos Fellini foi encontrando perfil próprio, que não caberia emnenhum conceito, nenhuma definição, muito menos em um movimento estético compartimentado.

   Primeiro veio a parceria com Alberto Lattuada em Mulheres e Luzes (1950), o tal “meio filme” que ele contabilizaria mais adiante. Depois, a estréia solo em Abismo de um Sonho (1952), crítica à indústria cultural daquela época, simbolizada pelas fotonovelas. É o primeiro filme emque Fellini trabalha com sua atriz preferencial e companheira da vida toda, Giulietta Masina, ainda em papel secundário.

   No ano seguinte, com Os Boas-Vidas (1953), Fellini deu o pulo do gato. Descobriu que falando de sua terra natal,Rimini, e de si mesmo, falaria para o mundo e para cada espectador em particular. Uma velha lição da história da arte, que todo artista tem de descobrir por si mesmo: falar de sua aldeia para ser universal, etc. Em Os Boas-Vidas (I Vitelloni, os “bezerrões”, no original), Fellini fala da vida provinciana, da aspiração de todo jovem, que é deixar o lugar de origem, viajar, fazer sucesso, conhecer a metrópole. Evoca o seu próprio percurso, de Rimini a Roma, os empregos como cartunista e jornalista, até chegar a Cinecittà e ao cinema.

   Nesse processo de conhecimento do mundo e de si mesmo, Fellini ia se liberando da estrita obediência aos ditames do real. Convencia-se cada vez mais, embora talvez ainda não de modo consciente, de que a vida de fantasia tinha valor de realidade tão grande quanto o mundo exterior. No entanto, seus filmes posteriores, A Estrada da Vida, A Trapaça e Noites de Cabíria ainda mantêm-se em terreno que se poderia chamar de realismo poético. No primeiro, tem-se a presença forte de La Masina, pela primeira vez protagonista, junto com Anthony Quinn; no segundo, o astro é um americano, Broderick Crowford; no terceiro, Giulietta é absoluta no papel da prostituta de bom coração que entraria para sempre no imaginário ocidental. São – em especial asduas estreladas por Giulietta – obras de um lirismo extraordinário, secas, no entanto, na descrição de um entorno social hostil, e nunca, nunca sentimentalóides.

   Atingem uma emoção muito rara no mundo do cinema. Com A Doce Vida e 8 1/2 o patamar muda, porque aí estamos no terreno das obras-primas. O artista radicaliza a pesquisa de si próprio e dispõe de controle total dos meios de sua arte. Tanto que não precisa mais pensar tecnicamente, porque a técnica já está incorporada.

   Faz parte dele e portanto ele só precisa criar, deixar a imaginação solta e seguir atrás dela. Com A Doce Vida encena o jornalista dividido entre o desejo de criar uma obra e a dispersão da vida boêmia. É ele, Fellini, falando, pela voz de seu alter ego, Marcello Mastroianni, no papel de Marcello Rubini. Com 8 1/2 é o artista em crise, mas que dessa mesma crise tira a força para produzir sua obra máxima. Guido Anselmi, mais uma vez vivido por Mastroianni, é ele mesmo, Fellini. 8 1/2 é um momento tão forte que deve ter aterrorizado seu criador. ]

   Depois dele, o que fazer? Optar pelo silêncio e pelo recolhimento?

   No entanto, Fellini se empenhou, nos anos seguintes,em afastar qualquer menção à decadência com obras tão vitais quanto Giulietta dosEspíritos (1965), Satyricon (1969), I Clown (1970), Roma (1972). Filmes extraordinários, que desconcertaram os críticos. Diziam que Fellini se repetia, quando ele nada mais fazia do que trabalhar de modo intensivo sobre seu universo pessoal, como fizeram Picasso ou Joyce, em artes diferentes.

   Diziam que ele não se comunicavamais com seu público, e então veio uma dinamite chamada Amarcord (1973), talvez o filme mais amado de Fellini. E, no entanto, para quem o acusava de narcisismo, este era o mais pessoal, o mais memorialístico dos filmes desse diretor tão singular e tão ligado à memória.

   Depois de Amarcord ninguém mais se animou a dizer que Fellini estava acabado.Mesmoporque depois vieram ainda obras como Casanova (1976),Ensaio de Orquestra (1979), Cidade das Mulheres (1980), E la Nave Va (1983), Ginger e Fred (1985), Entrevista (1987). O epílogo foi A Voz da Lua, leitura muito particular dos versos de Leopardi.

   Incompreendido, Fellini falava, no início da década, sobre o valor do silêncio e da imaginação num mundo sem um nem outra. Não se pode dizer que tenha deixado uma obra – legou um universo inteiro, ainda por ser explorado.

(© O Estado de S. Paulo)


NAS LOCADORAS

Abismo de um Sonho (1952)
Os Boas Vidas (1953)
A Estrada da Vida (1954)
As Noites de Cabíria (1957)
A Doce Vida (1960)
8 1/2 (1963)
Giulietta dos Espíritos (1965)
Satyricon (1969)
Amarcord (1973)
Ensaio de Orquestra (1979)
Cidade das Mulheres (1980)
E La Nave Va (1983)
Ginger&Fred (1985)

(© O Estado de S. Paulo)

Visite o site da Fondazione Federico Fellini

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