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Para João Paulo 2º, sentença que manda tirar
crucifixos de escolas é antidemocrática e pode prejudicar a paz social
PHILIP PULLELLA
DA REUTERS, NO VATICANO
O papa João Paulo
2º disse ontem que é antidemocrático e perigoso tentar eliminar os
símbolos religiosos do país. A declaração foi dada em meio a uma
controvérsia, na Itália, sobre uma decisão judicial contra a exposição
de crucifixos em escolas públicas.
"Reconhecer a
herança religiosa [de uma nação] significa reconhecer os símbolos que as
destacam das demais", disse o papa aos ministros do Interior da União
Européia reunidos em Roma.
A decisão
judicial que está no centro da polêmica foi tomada na semana passada,
depois de uma queixa de Adel Smith, um ativista muçulmano, que não
queria que seus filhos vissem crucifixos na escola pública de L'Aquila,
região central da Itália.
O veredicto
provocou indignação de cardeais e ministros do país, que nominalmente
conta com uma maioria esmagadora de católicos, embora apenas 25% dos
italianos frequentem igrejas regularmente, de acordo com as pesquisas.
O papa solicitou
"o devido reconhecimento, se necessário através da lei, das tradições
religiosas distintivas".
Duas leis ainda
determinam que as escolas devem expor crucifixos, ambas da década de 20.
Mas, desde 1984, quando o catolicismo deixou de ser a religião do
Estado, as leis não têm sido mais aplicadas com rigor.
Em Roma, o
Ministério da Educação apelou da decisão. Mais ou menos no mesmo momento
em que o papa discursava aos ministros, um juiz regional suspendeu a
sentença da instância inferior e marcou uma audiência sobre a questão
para o dia 19.
O papa disse que
a população não pode ser forçada a renunciar aos seus símbolos
religiosos em nome do que ele classificou como "interpretação incorreta"
do princípio de igualdade social.
"A coexistência e
a paz social não podem ser obtidas apagando as diferenças religiosas de
cada povo", disse, acrescentando que tentativas como essa seriam "não
apenas fúteis, mas até mesmo antidemocráticas" e poderiam levar a
instabilidade e conflitos.
A maioria dos
líderes da comunidade muçulmana italiana, de cerca de 1 milhão de fiéis,
se distanciou do radical Smith, que já defendeu Osama bin Laden na TV do
país.
Os sociólogos
expressaram preocupação quanto à possibilidade de que o debate sobre o
crucifixo inflame as relações entre os católicos italianos e a crescente
comunidade islâmica, formada principalmente de imigrantes.
Alguns
comentaristas dizem que o processo de Smith pode ter efeito oposto ao
pretendido, alimentando a intolerância que afirma combater.
(© Folha de S. Paulo)
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