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Papa critica decisão judicial contra cruz

O papa acena para os fiéis na Praça de São Pedro: voz forte  Massimo Sambucetti/AP  (01.11.2003)

Para João Paulo 2º, sentença que manda tirar crucifixos de escolas é antidemocrática e pode prejudicar a paz social

PHILIP PULLELLA
DA REUTERS, NO VATICANO

   O papa João Paulo 2º disse ontem que é antidemocrático e perigoso tentar eliminar os símbolos religiosos do país. A declaração foi dada em meio a uma controvérsia, na Itália, sobre uma decisão judicial contra a exposição de crucifixos em escolas públicas.

   "Reconhecer a herança religiosa [de uma nação] significa reconhecer os símbolos que as destacam das demais", disse o papa aos ministros do Interior da União Européia reunidos em Roma.

   A decisão judicial que está no centro da polêmica foi tomada na semana passada, depois de uma queixa de Adel Smith, um ativista muçulmano, que não queria que seus filhos vissem crucifixos na escola pública de L'Aquila, região central da Itália.

   O veredicto provocou indignação de cardeais e ministros do país, que nominalmente conta com uma maioria esmagadora de católicos, embora apenas 25% dos italianos frequentem igrejas regularmente, de acordo com as pesquisas.

   O papa solicitou "o devido reconhecimento, se necessário através da lei, das tradições religiosas distintivas".

   Duas leis ainda determinam que as escolas devem expor crucifixos, ambas da década de 20. Mas, desde 1984, quando o catolicismo deixou de ser a religião do Estado, as leis não têm sido mais aplicadas com rigor.

   Em Roma, o Ministério da Educação apelou da decisão. Mais ou menos no mesmo momento em que o papa discursava aos ministros, um juiz regional suspendeu a sentença da instância inferior e marcou uma audiência sobre a questão para o dia 19.

   O papa disse que a população não pode ser forçada a renunciar aos seus símbolos religiosos em nome do que ele classificou como "interpretação incorreta" do princípio de igualdade social.

   "A coexistência e a paz social não podem ser obtidas apagando as diferenças religiosas de cada povo", disse, acrescentando que tentativas como essa seriam "não apenas fúteis, mas até mesmo antidemocráticas" e poderiam levar a instabilidade e conflitos.

   A maioria dos líderes da comunidade muçulmana italiana, de cerca de 1 milhão de fiéis, se distanciou do radical Smith, que já defendeu Osama bin Laden na TV do país.

   Os sociólogos expressaram preocupação quanto à possibilidade de que o debate sobre o crucifixo inflame as relações entre os católicos italianos e a crescente comunidade islâmica, formada principalmente de imigrantes.

   Alguns comentaristas dizem que o processo de Smith pode ter efeito oposto ao pretendido, alimentando a intolerância que afirma combater.

(© Folha de S. Paulo)

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