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Quando o excesso de controle leva à esterilidade

Em 'Bianca', o diretor Nanni Moretti estuda os efeitos do medo sobre a sociedade

LUIZ ZANIN ORICCHIO

   Nanni Moretti tinha menos de 30 anos quando fez Bianca, que estréia hoje na cidade. O filme é de 1983 e pertence à parte inicial da carreira deste diretor, hoje talvez o cineasta italiano mais conhecido fora do seu país - Moretti ganhou a Palma de Ouro em Cannes-2001 com seu comovente O Quarto do Filho. Depois de Bianca, Moretti entraria no circuito internacional com A Missa Acabou (1985) e Palombella Rossa (1989). Depois, tornou-se amplamente conhecido com obras de corte confessional como Caro Diário (1994) e Aprile (1998).

   Bianca ficou meio no limbo. O que é pena, mas compreensível. Não se trata de filme de fácil classificação: tudo nele é estranho, tão esquisito quanto seu personagem principal, Michele, vivido pelo próprio diretor que, como se sabe, costuma atuar em seus filmes. Michele é um professor de matemática que chega para lecionar numa certa escola chamada de Marilyn Monroe. Ele não é o único tipo exótico do ambiente, formado por gente excêntrica como o diretor e outros professores que às vezes parecem não bater muito bem da cabeça. A exceção seria a suave Bianca do título, interpretada por Laura Morante, e que, em má hora, resolve se apaixonar por Michele.

   A idéia de Moretti é bem interessante. Constrói um personagem que, bem de acordo com a disciplina que ensina na escola, não tolera acasos, desvios, desordem. Michele é um homem reto - tão reto que, num mundo imperfeito, ambíguo e tortuoso, pode se transformar em ameaça para os outros.

   De certa forma, o filme também é assim, como a demonstração de um teorema. A temática é policial, pois temos uma situação em que crimes começam a acontecer e a polícia - os "carabinieri" - entram em cena. Há uma investigação, que se poderia chamar de "clássica" por seu encaminhamento, e os assassinatos, como não poderia deixar de ser, acabam solucionados. Tudo previsível, mas o resto do filme é completamente imprevisível.

   De fato, nada prepara o espectador para um personagem tão rígido quanto Michele, alguém que parece se mover como um autômato, comandado por exigências interiores que de certa forma o ultrapassam. É um alienado de manual. Não age, é agido, e por suas próprias obsessões. Por isso, em algumas sinopses simplificadoras, Michele é tachado de esquizofrênico, como se Bianca fosse um filme sobre a doença mental.

   Não parece ser por aí. Ou pelo menos não se trata só disso. Michele é esquisito, talvez seja mesmo um caso clínico, mas sua função dramática parece exprimir algo mais, um mal-estar mais geral. Algo vindo da sociedade, mais do que de uma consciência doente. Ele seria também uma expressão, um representante ideológico, uma metáfora. E esta metáfora diria que uma sociedade que exige rigidez tão grande talvez crie, pelo mesmo motivo, seus desvios, seus atalhos, seus sintomas, como válvulas de escape. O filme é um comentário sobre essa rigidez e suas conseqüências. Talvez se aplique muito bem a um país que, naquele momento, se refazia de uma luta muito cerrada contra o terrorismo e poderia cair no extremo oposto - no cuidado obsessivo com a segurança e a ordem. Enfim, esta é uma hipótese de leitura de um filme que é mais interessante do que exatamente bom.

   Talvez ele tivesse ficado melhor se Moretti, no papel de Michele, fosse o seu único elemento destoante. Mas no fundo, ele não parece tão estranho assim em um ambiente pedagógico como o da Escola Marilyn Monroe, cujo corpo docente parece um time de trapalhões. Não é nem um corpo docente - é mais um corpo doente. Bianca é diferente de todos, talvez por isso dê nome ao filme.

   Ela é como um enclave de sanidade num universo fora dos eixos. Mas enfim, é sempre penoso, para o espectador, mexer-se nesse ambiente de falta de parâmetros seguros e onde a lógica aparente falha de modo contumaz.

   De qualquer forma, está aqui o Moretti que conhecemos, e de quem aprendemos a gostar. Como artista, ele se sente obrigado à posição de antena do seu tempo. Mais em particular: antena daquilo que não vai bem em seu tempo. Por isso seus filmes posteriores são enganosamente egocêntricos - falando de si mesmo, Nanni Moretti fala da Itália, e com toda a profundidade que o cinema comporta. Ele pode ser o personagem principal de Caro Diário, e ocupar boa parte do filme com um problema tão pessoal quanto um câncer de diagnóstico difícil. Pouco importa. Em suas andanças, relembra Pasolini, cujo assassinato teria sido uma espécie de crime coletivo, como afirma outro cineasta, Marco Tullio Giordana em seu Pasolini: Um Delito Italiano. Moretti fala também de Rossellini, da divisão da esquerda em face da ameaça da direita, o que não é fato novo na história do país, ou do nosso, etc. Quer dizer, a partir do registro pessoal de uma vida - a sua própria - refaz as angústias, a grandeza e a miséria de um povo. É uma maneira pessoal de captar esses impasses, de treinar uma sensibilidade artística de modo que ela reflita e refrate (quer dizer, distorça) o que se passa em seu ambiente.

   Aprile é de mesma natureza, flagrando o personagem Moretti naquilo que ele teria de mais íntimo - o momento em que vai tornar-se pai, pela primeira vez e já na maturidade.

   Com O Quarto do Filho, o diretor Moretti se distancia do personagem Moretti.

   E se ele atua neste filme impressionante de tão triste, é como se o fizesse pela primeira vez. Cria um tipo que não é ele mesmo, e explora, ao limite, essa possibilidade atroz: o que acontece com a cabeça de um homem quando ele perde seu filho? Em especial, o que acontece quando esse homem é um psicanalista, alguém incumbido, por profissão, de zelar pela cabeça dos outros?

   Esse Moretti "fora dele mesmo" revelou-se brilhante. Produziu um filme de alto rigor dramático que, apesar do tema difícil, jamais procura chantagear o espectador. É um filme da dor, não do desespero. Indica que a vida deve continuar, apesar de tudo, e que, se certos acontecimentos são literalmente inesquecíveis e inassimiláveis, eles também abrem outras possibilidades que não os amenizam mas os humanizam.

    Em Bianca temos um Moretti muito mais frio, por assim dizer. Certo, ele usa seu corpo, seu personagem, para abrigar uma outra possibilidade extrema, a de que uma sociedade se perca pelo excesso de controle. Como se o medo criasse essa reação extrema que é o desejo de segurança. E esse desejo levasse à aridez e à esterilidade. Não por acaso, o personagem, perto do fim da história, diz que a coisa mais triste do mundo é morrer sem ter deixado filhos. É a esterilidade absoluta de Michele, o homem que a tudo quis controlar, mas não controla a si mesmo. Metáfora do seu tempo, quem sabe também do nosso.

(© O Estado de S. Paulo)
 

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