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Ler e reler, avançar, pular,
retroceder. O escritor Italo Calvino propõe uma relação sedutora de
prazer, de descoberta pela leitura, e nos conduz em textos que se cruzam
MARCELO PEREIRA
Um dos
livros mais interessantes, intrigantes e gostosos de ler que já me caiu
às mãos escritos pelo italiano Ítalo Calvino é Se um Viajante numa
Noite de Inverno, que foi relançado por ocasião da passagem dos seus
80 anos, completados em 15 de outubro, pela Companhia das Letras, que
está reeditando toda a sua obra, ao longo dos últimos anos. É um livro
que pode causar uma reação estranha, enigmática, assim como é a aventura
lúdica e lúcida que Calvino engendrou, na qual o leitor é o personagem
principal. Tal como em Se um Viajante numa Noite de Inverno, a
leitura do próprio livro pode ser feita de uma só sentada ou
interceptada várias vezes, por motivos bem mais triviais, mas pondo no
meio do caminho outras histórias que não chegaram ao fim, outras levadas
a cabo.
Se um Viajante numa Noite
de Inverno é livro para ler de um só fôlego. Tem todos os
ingredientes para isso: personagens enigmáticos, intrigas, suspense,
roubo de originais de livros, numa trama policial desconcertante,
cubista. Mas me confesso fracassado e incapaz para tal. Preferi a
ludicidade permissiva de ler e reler, avançar, pular, retroceder, tal
como Calvino propõe: uma relação sedutora de prazer, de descoberta pela
leitura.
Lançado pela primeira vez em
1979, e traduzido para o português em 1982, em edição do Círculo do
Livro, Se um Viajante numa Noite de Inverno é uma aventura pela
relação entre o leitor e a leitura e o que se lê, a obra em si, o que se
busca nela ou o que ela pode revelar. Ao tratar quem lê com o nome
próprio Leitor, ele confunde, cria metalinguagem. Para alguns leitores,
o livro pode não passar de uma brincadeira erudita sem graça de um
escritor qualquer. Tolice.
O poeta e professor da PUC-SP
Rinaldo Gama considera que Se um Viajante numa Noite de Inverno
“talvez o mais bem-sucedido esforço de valorização do leitor em uma obra
literária”, ao torná-lo protagonista da história. Desde a primeira
linha, Calvino cativa o leitor para se aventurar por seus (talvez)
pequenos contos que formam os capítulos de histórias sem fim, que se
entrelaçam e se perdem, tal como As Mil e Uma Noite ou Os Mil
e um Dias da literatura árabe.
Calvino é um mestre da
literatura fantástica, fabulatória mesmo - vide Visconde Partido ao
Meio, O Castelo dos Destinos Cruzados, As Cidades
Invisíveis. Desta vez, antes mesmo do PC e da Internet virar bem de
consumo em massa, o escritor italiano já construía seu hiper-romance
para criar não só lugares que não estão no mapa, como línguas e
culturas. Ele conspira o tempo todo. Cada capítulo torna-se um
microconto como se fosse uma overture de uma obra possível
abortada, intercalada por capítulos que, tal como o novelo mitológico de
Ariadne, vai nos conduzindo até o fim do labirinto.
No caso de Se um Viajante
numa Noite de Inverno, o labirinto é construído como um engenhoso
artifício narrativo. Após acomodar-se em qualquer posição para a
leitura, o Leitor inicia a viagem numa estação de trem, onde ocorre uma
troca misteriosa de malas. Para seu espanto, o autor informa que a
história que ele está lendo não é mais aquela. E que o livro teve um
problema na encadernação, o que o obriga a voltar à livraria, onde
conhece uma misteriosa e sedutora leitora, Ludmila. O “tal livro” é
trocado e o Leitor retoma a sua leitura e nota, pasmo, que se trata de
uma outra história, e não mais aquela das primeiras páginas. A leitura
segue com novos mistérios, histórias de espionagem, morte de um autor, e
novos “originais” que nada têm a ver com o que se narrou no capítulo
anterior, embora um fio de Ariadne conduza o leitor até a saída do
labirinto, entre episódios cômicos e absurdos, engenhosamente urdidos.
Rinaldo Gama ressalta ainda
que “Calvino escreve que, no passado, o sentido último de todos os
relatos tinha duas faces: a continuidade da vida e a inevitabilidade da
morte. Sem pejo de se apresentar como uma realidade romanesca, Se um
Viajante numa Noite de Inverno realiza-se no mundo real,
transformando, como se disse antes, os leitores – o concreto e o
fictício – num mesmo indivíduo. Isso acaba permitindo que a continuidade
da vida se imponha à inevitabilidade da morte”.
SERVIÇO
Se um Viajante numa Noite de Inverno, Companhia das Letras. 280 página.
Preço médio: R$ 33.
(©
Jornal do Commercio-PE)
A conciliação entre realidade e utopia é característica do autor
ítalo-cubano
Nos anos 50, a
Itália ainda se recuperava do trauma fascista, com a resistência e o
neo-realismo influenciando seus escritores, Cesare Pavese e Elio
Vittorini à frente. Naquela década, porém, os sonhos desaparecem pois a
realidade e a história impõem a própria força, com a burguesia torna-se
mais poderosa do que fora anteriormente. O rompimento do encanto
influencia decisivamente a obra de Italo Calvino (1923-1985) que, da
fábula e do sonho, condiciona seus textos à razão. Foi nessa época em
que ele começou a escrever O Dia de um Escrutinador (96 páginas,
R$ 21), que a Companhia das Letras, editora disposta a oferecer sua obra
completa, lançou recentemente.
Calvino, italiano nascido em
Santiago de las Vegas, Cuba, começou a escrever o livro em 1953, mas só
conseguiu terminá-lo e publicá-lo dez anos depois. Foi o tempo que ele
julgou necessário para analisar criticamente tanto a situação de seu
país como as experiências semelhantes às vividas por seu personagem,
colocando a arte da narrativa para discutir especialmente a importância
do comunismo.
É o que explica a construção
do enredo, que se concentra no tamanho de um conto alongado: Amerigo
Ormea, militante do Partido Comunista, é mesário e supervisiona o
processo de votação no Cottolengo, um hospício de Turim. Em meio a
eleitores tão incomuns quanto anões, coxos, cegos e deficientes mentais,
ele se pergunta o que faz dele um cidadão responsável e um eleitor
consciente - e não um louco.
A leve ironia com que conduz a
história faz com que Calvino supere os limites do realismo e do humano
para, na voz de Ormea, contestar uma série de questões existenciais,
fragilizando verdades apontadas como indestrutíveis. Afinal, até que
ponto é válida a obrigação de todos votarem? Como determinar a
normalidade de um cidadão? As questões surgem no pensamento de Ormea,
durante um dia que prometia ser corriqueiro. E surgem diante da visão
terrível da situação dos pacientes: como a de uma mulher sem pernas que
se arrasta em um banquinho ou a de uma freira deitada numa maca, com a
expressão de quem se afoga no fundo de um poço.
O momento crucial acontece
quando um pai alimenta com uma amêndoa o filho deficiente - Calvino, por
meio de Ormea, discute assim as diversas formas de amor.
A obra do escritor italiano
tomou novo curso depois dessa fase, em que a razão pura aos poucos
recorre também à fantasia e à alegoria para compreender a complexidade
daquele momento da história. Leitor voraz de Voltaire naquela época,
Calvino busca impregnar o reformismo iluminista aliado ao fantástico em
sua escrita.
É dessa fase o início da
trilogia Os Nossos Antepassados, com O Visconde Partido ao
Meio (1952), seguido de O Barão nas Árvores (57) e O
Cavaleiro Inexistente (59). Em um mundo que dificulta a realização
dos sonhos, acreditava Calvino, não resta outro caminho à razão e à
fantasia que contemplá-lo do alto. Assim, ao conciliar literatura e sua
vida, Italo Calvino fazia o mesmo com a utopia e a realidade.
SERVIÇO
O Dia de um Escrutinador, de Italo Calvino.
Companhia das Letras, 96 págs. Preço médio: R$ 21.
(©
Jornal do Commercio-PE)
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