FRAUDES DO
CAPITAL
Crise financeira se agrava, e grupo italiano
fica perto da concordata; preço das ações desaba 66%
DA REDAÇÃO
A Parmalat,
um dos maiores grupos alimentícios do mundo, dificilmente escapará
de um pedido de concordata, após a revelação de uma possível fraude
de 3,95 bilhões (US$ 4,9 bilhões ou cerca de R$ 15 bilhões) em seu
balanço. A empresa italiana não tem caixa para honrar suas dívidas,
e o preço de suas ações virou pó.
O Bank of
America disse que é falso um documento em que a Bonlat, uma
subsidiária da Parmalat nas Ilhas Cayman, afirma ter 3,95 bilhões em
investimentos. O banco informou que não tem nenhuma conta em nome da
Bonlat no paraíso fiscal. A empresa admitiu que os recursos não
existem e não tinha, até ontem, uma explicação para a suposta fraude
contábil.
O
endividamento total da empresa estaria entre 9 bilhões e 10 bilhões.
"É difícil imaginar como a Parmalat poderá seguir adiante depois
dessa clara indicação de uma extensiva irregularidade financeira",
disse Claire McGuckin, analista de crédito do banco ABN Amro.
Os
analistas do mercado já apelidaram a Parmalat de "Enron italiana",
numa referência à fraudulenta empresa de energia norte-americana,
cujo colapso, em 2001, expôs uma cultura de maquiagem contábil
envolvendo algumas das principais empresas dos EUA. Na Enron, o
rombo foi estimado em pelo menos US$ 14 bilhões.
Em seu
último balanço, a Parmalat informou que dispunha de 4,2 bilhões em
liquidez. Mas, na semana passada, só conseguiu pagar 150 milhões em
títulos com quatro dias de atraso e, mesmo assim, com a ajuda de
bancos credores e do governo italiano.
Nesta
semana, a empresa precisou fazer ginástica para adiar o pagamento de
um compromisso envolvendo negócios com a subsidiária brasileira.
O Bank of
American e outros investidores minoritários têm direito de vender,
por US$ 400 milhões, 18,8% das ações da filial brasileira à
Parmalat. A opção, firmada em contrato há quatro anos, poderia ser
exercida agora, mas a italiana não dispõe dos recursos para honrar o
pagamento.
Ação despenca
Assim que rombo contábil veio à tona, as ações do grupo, que já
estavam em valores baixos, caíram 90% na Bolsa de Milão, para cerca
de 0,10. Mas os negócios foram paralisados. Mais tarde, as
negociações foram retomadas, e, no final do dia, os papéis valiam
0,30, com desvalorização de 66%. Na sexta-feira passada, a ação
valia 2,24.
A Bolsa
informou que os papéis do grupo deixaram de fazer parte do índice
das 30 principais ações.
Enrico
Bondi, novo presidente da Parmalat, convocou uma reunião de
emergência para a noite de ontem, com o objetivo de discutir
alternativas para a empresa. Bondi, considerado um especialista em
reestruturação, assumiu o cargo nesta semana com a missão de evitar
o colapso financeiro.
Ainda
ontem, a agência de classificação de crédito Standard & Poor's
rebaixou a nota ("rating") da Parmalat para o mais baixo nível, ou
seja, "D" (que caracteriza "default" ou inadimplência dos
compromissos financeiros).
A derrocada
teve início na semana passada, quando a empresa teve dificuldade
para pagar os títulos. Em outro episódio envolvendo as Ilhas Cayman,
o grupo disse que não estava conseguindo resgatar 496,5 milhões que
teria em investimentos no fundo Epicurum, situado no paraíso fiscal.
(Com agências internacionais)
(© Folha de S.
Paulo)
FRAUDES DO CAPITAL
Parmalat recebeu crédito do BNDES
Banco liberou R$ 25,9 mi para a companhia em
outubro
SANDRA BALBI
DA REPORTAGEM LOCAL
Às vésperas
da eclosão da crise do grupo italiano Parmalat, o BNDES liberou, em
outubro, R$ 25,9 milhões para a subsidiária brasileira. O
financiamento ainda está dentro do prazo de carência de 12 meses e,
segundo o banco, está garantido por carta de fiança de bancos de
primeira linha.
Na semana
passada, a Parmalat suspendeu o pagamento a fornecedores de leite,
levantando no mercado preocupações quanto à saúde financeira das
operações brasileiras e à sua capacidade de honrar os compromissos
com outros credores.
Ontem, no
final do dia, a empresa comunicou às 11 cooperativas do Estado do
Rio de Janeiro, principais credores, que quitará no dia 29 os R$ 2,3
milhões já vencidos. O restante, de igual valor, será pago no dia 5
de janeiro.
A empresa,
entretanto, continua envolvida na crise da matriz. Ontem, a S&P
(Standard & Poor's) rebaixou o rating do grupo italiano de "CC" (um
dos mais baixos), conferido no dia 10 deste mês, para "default". A
decisão, segundo comunicado da agência de "rating", deve-se ao
não-pagamento da opção de venda de 18,8% das ações da Parmalat
brasileira, em poder do Bank of America, que venceu na quarta-feira.
O grupo
italiano teria de desembolsar, na ocasião, US$ 400 milhões para
recomprar os papéis, segundo o contrato firmado em 1999. Esse foi o
valor conferido ao pacote de ações da subsidiária brasileira há
quatro anos.
Segundo
analistas ouvidos pela Folha, o negócio surpreendeu o mercado
na época, pois o valor atribuído a uma participação minoritária na
Parmalat brasileira foi considerado superestimado. Os analistas
costumam avaliar uma empresa em uma vez e meia o seu faturamento. Em
1999, a Parmalat brasileira faturou R$ 1,025 bilhão, o equivalente a
US$ 570 milhões (de acordo com o dólar médio de 1999). Por esse
raciocínio, a Parmalat brasileira valeria, então, US$ 860 milhões.
Esse foi um
dos muitos episódios que marcaram a agressiva gestão da Parmalat no
passado. "A empresa entrou no Brasil em 1972 e, no final dos anos
80, saiu comprando tudo o que via pela frente, sem estratégia
definida", diz Rodrigo Alvim, presidente da Comissão Nacional de
Pecuária Leiteira da CNA (Confederação Nacional da Agricultura).
A expansão
da empresa no Brasil deu-se à custa de financiamento externo. Apesar
de carregar dívidas em moeda estrangeira, a Parmalat brasileira era
conhecida no mercado por não fazer hedge (proteção cambial), dizem
analistas. Por isso, teve pesados prejuízos em 1999 e 2002, com a
desvalorização cambial.
Os
analistas também atribuem os 13 anos de prejuízos a um
desbalanceamento de suas receitas. A Parmalat obtém metade do seu
faturamento com o leite longa vida. O produto, que revolucionou o
mercado nos anos 80, virou commodity, com a multiplicação de
fabricantes. A margem operacional do setor é pequena, de 20% a 25%.
Nos demais produtos, de maior valor agregado, a companhia vem
perdendo participação.
Nos leites
com sabor (achocolatado), ela caiu de 13,5% em outubro/novembro de
2002 para 11,4% em igual período deste ano, segundo pesquisa da
Nielsen. No leite condensado, recuou de 25% para 16,4%, e, no creme
de leite, de 33,9% para 29,8% no período.
(© Folha de S.
Paulo) |