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Marxista, acusado de chefiar as Brigadas Vermelhas,
preso, exilado e retornado voluntariamente ao cárcere, o
intelectual italiano Toni Negri reflete sobre a globalização como
uma nova realidade a exigir respostas novas |
Luciano Trigo
Num momento
da História em que o marxismo parece definitivamente enterrado e o triunfo
do neoliberalismo e da globalização parecem deixar tão pouco espaço para
uma contestação profunda e conseqüente, um intelectual se apresenta como
exceção: é o italiano Toni Negri, que aos 70 anos conserva a mesma
disposição para o combate dos conturbados anos 60 e 70. Em sua primeira
viagem longa, depois de 25 anos de prisão, exílio e clandestinidade, Negri
esteve no Brasil a convite da Universidade Nômade, para fazer conferências
no Rio e em São Paulo. Na pauta, a reflexão sobre a possibilidade de
resistência ao “Império” – não o império americano, mas as diversas formas
de poder dominante que reproduzem a exploração e a desigualdade, no novo
contexto da sociedade globalizada. Negri, aliás, reage com veemência ao
antiamericanismo que costuma contaminar o pensamento de esquerda.
– É preciso
construir a oposição ao liberalismo, em nível mundial, e desenvolver a
alternativa possível a ele, dentro do quadro da globalização – afirma. –
Este é um momento fundamental na construção de um contra-Império, mas se
quisermos erguer uma organização mundial de trabalhadores, devemos ter a
consciência muito precisa de que não existe mais divisão entre Norte e
Sul, porque não existe mais diferença geográfica entre os Estados-nações.
Ser antiamericano é uma idiotice total. O governo americano é o mais
importante poder a ser contestado, mas fazer dele o único inimigo é uma
visão falsa. Ele não existiria se as outras classes dirigentes do
capitalismo mundial não lhe dessem apoio incondicional. Outra ilusão
perniciosa que permanece é a do terceiro-mundismo, que não combate o
capitalismo porque não leva em conta a sua nova unidade em nível mundial.
O problema hoje é identificar o mesmo adversário no mundo inteiro: aqueles
que exploram trabalhadores por meio de hierarquias e trocas desiguais.
Filho de um
comunista morto pelos fascistas em 1936, Negri é autor de livros como
Império (com Michael Hardt), A Anomalia Selvagem, O Poder Constituinte e
Exílio. No final dos anos 50, integrou a redação de duas revistas que
renovaram o marxismo na Itália, Quaderni Rossi e Classe Operaia.
Escrito no exílio, Império se tornou um fenômeno editorial e um manifesto
político para os movimentos de ação global, como os de Seattle e Gênova,
passando pelo Fórum de Porto Alegre, abrindo um novo horizonte de luta e
de constituição da democracia dentro da globalização.
Conciliando
Maquiavel, Espinosa e Marx em sua pesquisa teórica e histórica, Negri
reflete sobre os novos sentidos do trabalho nessa inédita configuração
imaterial das redes mundiais, recorrendo a conceitos como os de
“biopolítica” e “sociedade de controle”, derivados do pensamento de Michel
Foucault e Gilles Deleuze. Negri se exalta quando expõe algumas de suas
opiniões:
– Hoje vivemos uma nova paisagem, as velhas relações no terreno da
produção não são as mesmas. Somos pós-fordistas, pós-industriais, o que
significa dizer que não existe mais uma oposição simples entre o capital e
o trabalho das massas e, sim, redes em que se organiza um trabalho
intelectual altamente produtivo. Passamos de uma sociedade industrial a
uma sociedade imaterial, de redes, e o capital quer, justamente, se
apoderar destas redes, controlando seus acessos e manipulando sua
circulação. Um dos instrumentos desse controle são as guerras preventivas
que, depois de 11 de setembro de 2001, passaram a ser um elemento de
legitimação do Império, num contexto de crise dos Estados-nação.
Estes já não
conseguem mais controlar os movimentos do capital e as lutas em seu
próprio espaço. Durante três ou quatro séculos, o Estado-nação foi ótimo
para o desenvolvimento do capital e a regulamentação geral da sociedade.
Mas essa situação histórica está ultrapassada, e hoje nem mesmo os
americanos conseguem conservar a forma do Estado-nação. O Império, então,
é a forma política do mercado mundial. Daí a necessidade de fortalecer o
FMI e o Banco Mundial. Toda uma série de poderes foi transferida do Estado
para essas instâncias supranacionais, que são profundamente
irresponsáveis, porque não existe uma democracia internacional.
Negri conclui
de forma categórica:
– Nossa
responsabilidade como cidadãos é criticar o mundo em que vivemos, desertar
da guerra, da política, desertar desta sociedade para criar uma nova.
Trata-se de afirmar que não queremos viver num mundo como este e que
pretendemos evitar a aplicação de um poder que quer gerir até mesmo as
nossas vidas, os nossos afetos, os nossos desejos. Hoje em dia os
explorados já não são apenas os trabalhadores manuais e os operários, mas
as multidões sociais: os estudantes, os trabalhadores informais, os
desempregados, os imigrantes, as mulheres, os trabalhadores em regime
temporário. É importante poder organizar as necessidades e os desejos
dessas multidões, tendo a consciência clara de que estamos diante de um
novo sujeito político. Uma nova esquerda só pode emergir do movimento
antiliberal.
(© Continente
Munticultural)
Novo golpe nas BrigadasMais membros do grupo extremista são presos
ROMA - A polícia italiana deteve
supostos ativistas das Brigadas Vermelhas, entre os quais uma mulher,
titular de uma apartamento alugado em Roma, onde no fim de semana a
polícia encontrou um esconderijo, com armas e explosivos, deste grupo de
extrema esquerda.
A mulher, Diana Blefari Melazzi, foi presa num
chalé no litoral. Segundo a polícia, ela estava sozinha, portava uma
grande soma de dinheiro e documentos falsos e não ofereceu resistência
no momento da prisão.
A localização do sótão em Roma, onde foram
encontrados 100 quilos de explosivos, numerosas armas, 200 detonadores
e documentos, foi possível depois da detenção, em outubro, de seis
militantes das Brigadas, entre eles um dos supostos dirigentes, Marco
Mezzasalma.
Entre os papéis encontrados, estavam os
relacionados aos assassinatos dos assessores ministeriais Massimo
D'Antona e Marco Biagi, ocorridos em 1999 e 2002, e reivindicado pelas
BV.
Com esta nova operação, a polícia considera
praticamente desarticuladas as ''novas'' Brigadas Vermelhas,
descendentes das Brigadas Vermelhas e do Partido Comunista Combatente.
Em 1978, as BV originais mataram o ministro italiano e líder da
Democracia Cristã, Aldo Moro.
No domingo à noite, dois artefatos de fabricação
caseira e pouca potência foram detonadas em latas de lixo que estavam
perto da casa do presidente da Comissão Européia, Romano Prodi, em
pleno centro histórico de Bolonha.
Segundo a polícia, as explosões, que não causaram
vítimas, aconteceram com um intervalo de 20 minutos e várias ruas do
centro da cidade foram fechadas ao tráfego para facilitar o trabalho
dos bombeiros e da polícia.
O chefe de polícia de Bolonha, Marcello Fulvi,
disse que a ação, registrada na esquina da rua Strada com a Via
Gerusalemne, foi atribuída a grupos ligados a círculos anarquistas. O
alvo seria o guarda-costas de Prodi e não o político.
O presidente do Executivo europeu passou o domingo
em Bolonha, mas no momento das explosões não estava em casa,
acrescentou a polícia.
Os artefatos foram feitos com pequenas bombas a gás
e um relógio.
(© JB Online)
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