Por Svetlana Kovalyova e Nelson Graves
MILÃO (Reuters) - A empresa alimentícia italiana Parmalat pediu
concordata, enquanto uma nova direção e o governo
tentavam conter uma das maiores crises empresariais já vistas na Europa.
Os promotores que investigam uma possível fraude na empresa
descobriram que o fundador da Parmalat deixou a Itália, o que prejudica
os esforços para descobrir o que aconteceu com 8,7 bilhões de dólares
que desapareceram da contabilidade do oitavo maior grupo empresarial
italiano.
O escândalo também respinga em alguns parceiros da Parmalat, como
bancos e auditores.
A empresa pediu proteção dos seus credores graças a um decreto
aprovado às pressas pelo governo menos de 24 horas antes. "Apresentamos
o pedido (de concordata) de acordo com o decreto", disse Dario Picone,
advogado da empresa.
Promotores de Parma, onde fica a sede da empresa, queriam interrogar
o fundador e ex-presidente Calisto Tanzi, que está entre os cerca de 20
suspeitos de fraude, falsa contabilidade e práticas comerciais abusivas.
Mas Tanzi deixou a Itália com destino não-revelado, segundo uma fonte
judicial que acrescentou que ele está apenas descansando de todo o
escândalo, não fugindo da lei.
"Se for verdade, é certamente um mau sinal", disse o ministro da
Agricultura, Giovanni Alemanno, à agência Ansa.
Segundo a fonte judicial, a polícia financeira italiana vasculhou a
casa de Tanzi, perto de Parma, na quarta-feira.
Tanzi abriu o seu primeiro laticínio em 1961 e o transformou em uma
das mais conhecidas multinacionais italianas, com 35 mil funcionários em
30 países. Agora, a Parmalat já está sendo comparada à norte-americana
Enron, que faliu em 2001 deixando milhares de acionistas no prejuízo.
AJUDA DO GOVERNO
O governo admite que agiu para salvar a Parmalat, uma medida que pode
ter custos elevados e violar as regras da União Européia.
O decreto sobre concordatas permite que o novo executivo-chefe da
Parmalat, Enrico Bondi, assuma amplos poderes para re-estruturar a
companhia, sem o risco de ações judiciais por parte de acionistas, que
estão vendo seu capital se desvalorizar rapidamente em meio às últimas
notícias.
Na semana passada, a Parmalat disse que o Bank of America identificou
como falso um balanço em que a empresa dizia possuir quase 4 bilhões de
euros em uma filial das ilhas Cayman.
Uma fonte judicial disse que o rombo contábil da Parmalat agora já
chega a 7 bilhões de euros, dos quais 2,9 bilhões são de promissórias
que, ao contrário do que dizia o balanço, não foram pagas.
Investigadores dizem que o total da fraude pode chegar aos 10 bilhões de
dólares.
Não se sabe se o dinheiro existiu alguma vez e, neste caso, para onde
foi. Por isso, está difícil fazer uma avaliação do valor da empresa, o
que seria importante para os acionistas.
Bondi, conhecido por recuperar empresas, ainda depende de aprovação
do Ministério da Indústria para assumir a autoridade de vender bens com
o objetivo de salvar as operações essenciais, segundo uma cópia do
decreto publicada pelo jornal Il Sole 24 Ore. O decreto dá 180 dias para
que Bondi apresente um plano de recuperação financeira ao ministério.
Representantes dos credores da Parmalat reagiram com cautela à
indicação de Bondi. "Os credores esperam continuar trabalhando com o sr.
Bondi e sua equipe em busca de uma rápida reorganização", disse Evan
Flaschen, da consultoria norte-americana Bingham McCutchen.
"O decreto foi feito com o espírito positivo de ajudar a empresa,
salvar empregos, pagar fornecedores, ajudar a economia local, mas não
mudou a situação para os acionistas que perderam uma fortuna", disse
Umberto Mosetti, do grupo de defesa de pequenos acionistas Deminor
International.
PREJUÍZO DESDE 1990
Títulos da Parmalat tiveram uma ligeira queda na abertura dos
mercados, na quarta-feira, e estão sendo vendidos a 19 por cento do seu
valor de face.
Antes do começo da crise, a Parmalat tinha um valor de mercado de 1,8
bilhão de euros, mas suas ações agora estão quase sem valor. A Bolsa de
Milão não operou na quarta-feira.
Os promotores dizem que estão fazendo rápidos avanços na
investigação, que vai tentar entender como uma empresa que declarava no
seu balanço uma liquidez de 4,2 bilhões de euros acabou devendo 120
milhões de euros a produtores de leite da Itália.
Os investigadores dizem que pessoas interrogadas na terça-feira
apresentaram detalhes sobre uma rede de fraudes financeiras que já
durava mais de uma década e havia sido aprovada pela direção da empresa.
O ex-diretor-financeiro da Parmalat Fausto Tonna, que já foi o
braço-direito de Tanzi, foi ouvido durante mais de nove horas.
Os investigadores disseram à Reuters que desde 1990 a companhia tinha
prejuízos nas suas transações no exterior. Tonna voltou a ser ouvido na
quarta-feira, por promotores de Parma.
O escândalo da Parmalat provocou um acirrado debate sobre a estrutura
reguladora italiana. Alguns acusam o Banco Central de não perceber a
tempo os problemas da empresa. Para outros, o problema é o funcionamento
do Consob, entidade que regula o mercado, como o Cade brasileiro.
(© UOL Últimas
Notícias)
Um espectro ronda a Europa: o fantasma do colapso
da Parmalat

Steve Thompson e Dave Shellock
Os mercados de ações europeus apresentaram tendência de baixa
nesta
segunda-feira (22/12), devido ao susto dos investidores com o tamanho da
crise financeira da Parmalat, a empresa de laticínios italiana, e seu
impacto potencial sobre o setor bancário do país.
Os relatórios desta segunda apontaram que o buraco nas contas da
Parmalat bem maior do que aquele que era admitido. A empresa disse na
sexta (19) que cerca de 4 bilhões de euros desapareceram de uma conta no
Bank of America, mas agora acredita-se na falta de mais 7 bilhões de
euros. Um promotor de Milão disse haver evidência óbvia de contabilidade
falsa após o início de uma investigaão.
Após uma única venda no final do pregão, as ações da Parmalat passaram a
valer 0,11 euro, uma desvalorizaão de 66%. Elas valiam 2,24 euros há 10
dias.
Mas o impacto do escândalo não se limitou à Parmalat. Os bancos
italianos a certa altura contavam com cinco das dez piores performances
no índice FTSE Eurotop 300, e foram afetados ainda mais pelas notícias
de que a Goldman Sachs reduziu as previsões de ganhos em 2003 em três
dos bancos que considera mais expostos ao colapso da Parmalat:
Capitalia,
Banca Nazionale del Lavoro e Banca Monte dei Pascha di Siena.
"Nós reduzimos nossa previsão para estes bancos para levar em
consideração a exposição estimada não segura da Parmalat, após o anúncio
do Bank of America negando a existncia das ações, depósitos ou liquidez
alegados pela Parmalat", disse a Goldman. "Nós acreditamos que a esta
altura cresceu substancialmente a probabilidade de um pedido de
concordata pela Parmalat e portanto nós revisamos as previsões para o
quarto trimestre", concluiu a corretora.
Mas a Goldman acrescentou que, "mesmo se o sentimento a curto prazo em
relação aos bancos italianos continuar negativo, segundo nossa opinião o
mercado está reagindo exageradamente".
As aões do Capitalia caíram 6,1%, para 2,330 euros, as do Banca
Nazionale del Lavoro 5,5%, para 1,8840 euros e as do BMPS 5,2, para
2,5270 euros.
Outros bancos italianos tambm foram atingidos. O Banca Intesa perdeu
3,4%, fechando em 3,07 euros, o Banche Popolare Unite caiu o mesmo
percentual e fechou a 14,47 euros, e o Banca Antonveneta caiu 2.8%,
fechando a 14,73 euros. As ações do San Paolo IMI perderam 3,5% e
fecharam a 10,22 euros.
A Mediolanum, uma seguradora e administradora de capitais, foi outra que
apresentou performance ruim, com suas ações caindo 3,2% e fechando a
6,24 euros, mesmo depois do grupo revelar um aumento acentuado nos
lucros líquidos em nove meses.
As ações do Commerzbank da Alemanha caíram 1,8%, para 15,21 euros, após
as notícias de uma declaraão do executivo-chefe do banco dizendo que há
um grande risco de aquisição dos bancos alemães por baixo valor e que a
ameaça poderá ser crítica para seu banco em 2004.
Em uma nota positiva, as aões do grupo químico francs Rhodia
apresentaram alta de 6,5%, fechando a 3,11 euros, após o anúncio de ter
fechado um acordo com seus bancos para reestruturação de sua dívida. As
aões da empresa atingiram a maior baixa de sua história na sexta, em
meio a dúvidas crescentes de que seria capaz de obter um empréstimo
bancário de 700 milhões de euros para substituir sua instalação atual de
1,4 bilhão de euros.
A Rhodia se recusou a comentar se a questão dos direitos esteve
envolvida nas suas negociações com os bancos, apesar de o
executivo-chefe da empresa ter indicado ser contra a questão dos
direitos ou conversão da dívida por ações.
O Beiersdorf foi outro dos vencedores do dia, após o grupo alemão de
produtos para cuidados da pele ter anunciado a recompra de 8,4 milhões
de suas ações a um preço estimado entre 113 e 114 euros. A medida faz
parte de um acordo acertado em outubro, que dá o controle do Beiersdorf
para a Tchibo, o grupo de varejo. As ações subiram 2,1%, fechando a
97,15 euros.
Tradução: George El Khouri
Andolfato
(© Financial Times)