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Segundo o banco, crédito de R$ 25,9 mi tem garantia sólida
SANDRA BALBI
DA REPORTAGEM LOCAL
O BNDES (Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social) informou ontem que o empréstimo de R$
25,9 milhões liberado em outubro para a Parmalat está garantido por fiança
bancária. Ou seja, se a empresa, cuja matriz pediu concordata nesta
semana, não pagar, o banco -de primeira linha, segundo o BNDES- pagará.
Os recursos foram solicitados no
ano passado pela empresa, como parte de um investimento de R$ 111,3
milhões. Segundo o pedido feito na época, os recursos seriam usados em
nove projetos: na relocalização industrial, aumento da capacidade
produtiva, introdução de novos produtos no mercado, logística e tratamento
de efluentes.
O BNDES financiou apenas 23% do
total do projeto. Segundo o banco, esse foi o primeiro financiamento
direto solicitado pela Parmalat à instituição. Enquanto durou a análise do
pedido, os investimentos foram realizados pela empresa em unidades de
Araçatuba (SP), Carazinho (RS) e em São Paulo (SP).
Antes da liberação dos recursos, o
banco procurou certificar-se de que os projetos haviam sido efetivamente
realizados segundo o memorial descritivo da solicitação do financiamento.
Segundo o BNDES, o processo de
análise do pedido demorou e só foi liberado para ser assinado pela
diretoria do banco em março deste ano. Na época, o BNDES baseou-se no
"rating" (nota que avalia o risco de crédito de uma empresa) internacional
da Parmalat, conferido pela agência Standard & Poor's.
O contrato foi assinado em
setembro, e o dinheiro, liberado em outubro. Um mês depois, eclodiu a
crise do grupo italiano Parmalat. O financiamento ainda está dentro do
prazo de carência de 12 meses e, segundo o banco, não há risco de calote
devido à fiança bancária. Na época, as agências de análise de risco
avaliavam a Parmalat como tendo baixo risco de inadimplência.
Ontem, Evaristo Machado Neto,
presidente da Ocesp (Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo),
lamentou que o BNDES conceda empréstimo a multinacionais -que depois vão à
concordata-, enquanto mantém grande rigidez nos empréstimos às
cooperativas de laticínios. "As cooperativas, por terem vários donos, são
consideradas de maior risco pelo banco", diz ele.
Segundo Machado, enquanto "há
cooperativas trabalhando durante 50 anos, gerando emprego e
desenvolvimento regional, uma multinacional como a Parmalat, que só visa
obter ganhos para si própria, obtém recursos de um banco de
desenvolvimento". "Isso preocupa", disse.
Machado lembrou que a Parmalat
entrou no país comprando pequenos laticínios - que depois fechava e ia
para outra região- desarticulando o processo produtivo de leite. Antes da
entrada da empresa no mercado, a produção era dividida em bacias leiteiras
regionais, com os produtores abastecendo os centros consumidores mais
próximos.
Segundo Rodrigo Alvim, presidente
da Comissão Nacional de Pecuária Leiteira da CNA (Confederação Nacional da
Agricultura), uma inovação trazida pela Parmalat, o leite longa vida,
acabou desorganizando as bacias leiteiras. "Com o longa vida ela começou a
trazer leite do Rio Grande do Sul para abastecer o Rio de Janeiro, de
Goiás para o mercado paulista. Isso desmontou as bacias leiteiras", disse
Alvim.
Além disso, segundo ele, "a atuação
da Parmalat levou a uma queda de preços pagos ao produtor, e à
transferência de renda do setor primário para outros elos da cadeia
produtiva". Alvim afirma que apenas nos dois primeiros anos do leite longa
vida R$ 250 milhões foram transferidos do setor primário para o
industrial.
(©
Folha de S. Paulo)
Parmalat teria iniciado fraudes há 15 anos
Investigação apura uso de documentos falsos desde os
anos 80
NOVA YORK e ROMA - Em
concordata desde quarta-feira, a gigante do setor alimentício Parmalat
fraudava seus balanços há pelo menos 15 anos, informou ontem o jornal
americano The Wall Street Jounal. Segundo o diário, fontes
ligadas às investigações descobriram que a empresa utilizava documentos
falsos para comprovar negócios realizados ao redor do mundo já no fim
dos anos 80.
A contestação
pelo Bank of America, na sexta-feira da semana passada, da validade de
papéis apresentados pela Parmalat agravou a crise na empresa. Os
documentos falsos visavam comprovar investimentos de 3,95 bilhões de
euros (cerca de US$ 4,9 bilhões), em uma conta no banco, de uma
subsidiária do grupo nas Ilhas Cayman, a Bonlat, registrados no balanço
de 2002.
A revelação do
uso de documentos falsos por período tão prolongado levantou suspeitas
sobre a atuação da empresa de auditoria Grant Thornton, que até 1999
cuidava dos balanços da Parmalat. Em nota divulgada no fim da tarde de
ontem, a unidade italiana da auditora também se declarou ''vítima'' da
fraude, não sendo ''nem criadora nem cúmplice'' do esquema usado para
ocultar prejuízos do grupo.
Enquanto isso,
uma das principais associações de produtores de leite da Itália
solicitou a seus membros que não suspendam o fornecimento à Parmalat
para evitar que se agrave a crise na empresa. O presidente da Unalat
(União Nacional de Produtores Lácteos), Ernesto Folli, declarou ontem
que seria ''um grave erro'' interromper o fornecimento porque isso
significaria paralisar a produção em um dos principais segmentos de
negócios do grupo.
Em defesa da
Parmalat, Folli ressaltou que até agora a empresa continuou pagando os
seus fornecedores, ainda que com atraso. Esta semana, um grupo de
produtores decidiu suspender a entrega de leite à Parmalat. Outra
associação revelou que a empresa não pagava alguns agricultores desde
agosto, acumulando dívidas de 120 milhões de euros (cerca de US$ 150
milhões).
Folli, no
entanto, insistiu que os associados podem confiar na solvência da
Parmalat depois da intervenção do governo italiano, que na quarta-feira
colocou a empresa sob administração controlada, mas admitiu que ela
''atravessa por um momento difícil''.
-
Continuaremos apoiando a Parmalat - disse, acrescentando que com a crise
na Parmalat está em jogo o futuro de ''milhares de famílias''.
(Com agências Bloomberg e EFE)
(©
JB Online)
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