ItaliaOggi

                     Publicidade

 

Parmalat dá novo calote no Rio

Enrico Bondi, o novo dirigente do grupo Parmalat, indicado pelo governo italiano

  
Luciana Casemiro

   A Parmalat não pagou ontem os R$ 2,3 milhões devidos a 11 cooperativas de leite do Estado do Rio — que representam cerca de dez mil produtores fluminenses — referentes ao fornecimento de novembro. A dívida vencia no dia 15 de dezembro e seu pagamento fora adiado para ontem. No próximo dia 5 vence nova parcela da dívida, no mesmo valor, relativa à parte do leite entregue em dezembro. O presidente da Federação da Agricultura do Estado do Rio de Janeiro (Faerj), Rodolfo Tavares, no entanto, não tem expectativa de que o pagamento seja feito.

   — Mais de 80% dos associados das cooperativas são de pequenos agricultores. As cooperativas adiantaram o dinheiro de novembro para os produtores, mas não têm mais recursos — diz Tavares, lembrando que o problema pode prejudicar cerca de 30 mil trabalhadores.

   Ele explicou que, por se tratar de uma época de safra, os produtores não têm como redirecionar a produção de 300 mil litros de leite por dia destinada à Parmalat, cuja fábrica no Rio fica em Itaperuna.

Em debate: assumir o controle da fábrica

   Produtores, políticos e o secretário estadual de Agricultura reúnem-se esta semana para debater medidas judiciais e políticas a serem tomadas para enfrentar a crise. Uma das idéias a serem discutidas é propor ao BNDES que interceda no processo para que as cooperativas assumam o controle da unidade da Parmalat em Itaperuna.

   Em setembro, o banco emprestou R$ 25,5 milhões à Parmalat para a modernização de diversas fábricas. O empréstimo, no entanto, segundo o BNDES, tem garantias em fiança bancária feita por um banco brasileiro e sua primeira parcela vence no início de 2004. Ou seja: do ponto de vista legal, a Parmalat não está inadimplente com o banco. A empresa investiu R$ 111 milhões em várias unidades no Brasil.

   — Estamos elaborando um projeto dentro de casa para depois discutir com o BNDES. Nosso receio é que a empresa fique imobilizada no Brasil, enquanto o novo gestor italiano não divulgar a sua estratégia após a concordata. Nesse caso, o que poderíamos dizer aos produtores daqui? Que não recebemos mais leite nas cooperativas? Isso seria o caos — afirma Tavares.

   Ontem, a Parmalat do Brasil afirmou em um comunicado que a concordata na Itália não afeta suas operações no Brasil. Em um texto confuso, não menciona o calote no Brasil:

   “No Brasil, o obstáculo a ser superado é reconhecido pela gestão local, que busca preparar-se para eventuais impactos decorrentes dele. A partir de meados deste mês, foram tomadas ações para proteger as operações aqui no país. A Parmalat Brasil melhorou sua performance a partir da reestruturação por que passou nos últimos três anos, o que foi importante frente a esta nova situação e deverá seguir o caminho estratégico definido”.

   Nos EUA, a SEC (a comissão mobiliária americana) anunciou ontem que vai processar a Parmalat por prejudicar investidores do país.

(© O Globo Online)


De magnata brilhante a fraudador

   MILÃO. Preso no sábado em uma rua de Milão sob acusação de fraude na Parmalat, Calisto Tanzi admitiu ontem ter desviado 500 milhões de euros da empresa, segundo um de seus advogados.

   — Ele admitiu ter desviado fundos — afirmou Fabio Belloni à agência Reuters.

   Outra fonte que acompanha o processo disse que Tanzi assumiu também ter falsificado registros contábeis da empresa.

   Fundador e ex-presidente da gigante italiana do setor de alimentação, Tanzi, de 65 anos, já foi considerado um empresário brilhante. Em 1961, começou sua história com uma fábrica de leite. O empresário conseguiu transformar a Parmalat em um grupo global, com presença em 30 países. No dia 15 de dezembro, ele renunciou à direção da Parmalat e, uma semana depois, as autoridades incluíram seu nome na investigação sobre fraude.

   Calisto Tanzi deu a grande arrancada para seu império depois que o monopólio de venda de leite foi rompido na Itália, em 1973. A Parmalat rapidamente tornou-se a líder da indústria italiana, diversificando e se espalhando. Enquanto seu império crescia, Tanzi cultivava laços próximos com banqueiros, políticos e a Igreja e ajudava setores culturais e esportivos.

(© O Globo Online)


Coisa nossa

FRAUDES BILIONÁRIAS como a que afeta o grupo Parmalat são abalos sísmicos de alta intensidade: seus estragos vão muito além do choque inicial e não respeitam fronteiras.

PELO ESPAÇO que ocupa no mercado brasileiro, a Parmalat é quase tão nossa quanto italiana. Sua quebra certamente terá efeitos no setor de laticínios, que já é altamente concentrado e agora corre o risco de coagular-se.

O CLIMA de descontração das festas de fim de ano explica mas não justifica a passividade do governo brasileiro diante do escândalo que sacode a Itália.

(© O Globo Online)

Dono da Parmalat é acusado de liderar fraude
 

Calisto Tanzi, de magnata brilhante a fraudador

Promotores dizem que falsificação permitiu à empresa italiana emitir títulos em meio à crise financeira

DA REDAÇÃO

   Promotores italianos acusaram o fundador da Parmalat, Calisto Tanzi, de apropriação indébita no valor de 800 milhões de euros (US$ 1 bilhão) em fundos de seu conglomerado alimentício, na década passada, de acordo com documentos relacionados à investigação judicial.

   Eles também acusaram Tanzi de trabalhar com seis executivos da Parmalat, atuais e passados, e com dois auditores externos para cometer diversos delitos entre os quais fraude e falsificação de contabilidade -para ocultar os problemas financeiros da empresa enquanto ela continuava a colocar papéis no mercado.

   Um dos juízes da investigação acusou Tanzi de ter agido com perfeito conhecimento do caráter fraudulento de seus atos.

   As acusações estão contidas em uma ordem judicial, cópia da qual foi obtida pela Reuters na segunda-feira, emitida pelos dois magistrados que estão conduzindo a investigação. A ordem abriu caminho para que a polícia detivesse o ex-chefe da Parmalat.

   Tanzi foi levado para a prisão de San Vittore, em Milão, enquanto os promotores públicos investigam as fraudes no oitavo maior grupo industrial italiano.

   Na segunda-feira, as autoridades aumentaram a pressão sobre Tanzi, 65, que fez da Parmalat um dos líderes mundiais no setor de alimentos e uma das jóias na coroa industrial italiana.

   Ele foi forçado a renunciar aos seus postos de presidente do conselho e de executivo-chefe do grupo duas semanas atrás, quando a empresa se viu envolvida em uma das maiores crises corporativas da Europa.

   A polícia na segunda-feira realizou buscas nos escritórios da Parmalat em Milão, e também visitou a sede da La Coloniale, a holding da família Tanzi, controladora de pouco mais de 50% da Parmalat.

   Os promotores pediram que um juiz de Milão emita um segundo mandado de prisão contra Tanzi, por suspeita de falência fraudulenta -crime que acarreta uma sentença de prisão de até 10 anos- e de formação de quadrilha.

   Um mandado de prisão anterior, emitido no domingo, envolvia acusações de manipulação de mercado e falsificação.

   Os promotores dizem que sua investigação, iniciada 10 dias atrás, descobriu uma rede de companhias no exterior que serviam como fachadas para encobrir os prejuízos da Parmalat, que até a semana passada era uma das ações mais procuradas na Bolsa de Milão. Hoje, as ações perderam quase todo o seu valor.

   Não foram apresentadas acusações formais contra Tanzi ou qualquer outro envolvido na crise da Parmalat.

   Depois de sua detenção, no entanto, as autoridades podem manter Tanzi na cadeia por até seis meses, enquanto prosseguem as investigações.

   O mandado emitido no sábado pelos dois magistrados alega que ele "desviou em seu favor e para empresas que não eram parte do grupo (Parmalat) a soma de cerca de 800 milhões de euros".

   Os magistrados disseram que Tanzi havia ordenado a destruição de documentos que descreviam a criação de bilhões de euros em falsos ativos para inflar as contas da Parmalat.

   O mandado afirmava também que existia um risco de que Tanzi, que saiu da Itália na semana passada depois do início da investigação, fugisse, caso não fosse detido. O advogado de Tanzi negou que o fundador da Parmalat e outros tivessem conspirado para cometer delitos. "Não creio que haja qualquer conspiração, especialmente para cometer crimes", disse Michele Ributti a jornalistas na segunda-feira.

Ativos inexistentes

   No domingo, Ributti disse que havia itens de crédito "inexistentes" nas contas da Parmalat, que segundo os promotores mostram um rombo que pode superar os 10 bilhões de euros. Mas o advogado disse que nenhum dinheiro havia desaparecido.

   "Não sumiu dinheiro nenhum, apenas ativos inexistentes", disse Ributti depois que Tanzi foi interrogado por mais de seis horas por promotores de Milão e Parma.

   Magistrados também decretaram a prisão de dois antigos vice-presidentes financeiros da Parmalat, um dos quais é Fausto Tonna, interrogado por mais de nove horas em Milão na semana passada, bem como de dois executivos da subsidiária italiana do grupo norte-americano de auditoria Grant Thornton.

   Os executivos da Grant Thornton SpA, Lorenzo Penca e Maurizio Bianchi, negaram quaisquer delitos, na segunda-feira, e disseram desejar apresentar sua versão da história aos promotores.
A insolvência da Parmalat permite que ela se mantenha em operação e continue a pagar seus trabalhadores, os pecuaristas e os fornecedores.

   A imponente prisão de San Vittore, onde Tanzi está detido, transformou-se num símbolo nacional italiano depois de servir de cárcere a políticos e empresários durante a operação "Mãos Limpas" de combate à corrupção, nos anos 90, que levou à queda de toda uma classe política. (Tradução de Paulo Migliacci) - Com agências internacionais e "Financial Times"

(© Folha de S. Paulo)


 

Para saber mais sobre este assunto (arquivo ItaliaOggi):

ital_rosasuper.gif (105 bytes)
Escolha o Canal (Cambia Canali):
 
 

Rádio ItaliaOggi

 

 

© ItaliaOggi.com.br 1999-2003

O copyright pertence aos órgãos de imprensa citados ao final da notícia