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13/11/04
Responsável pelos principais avanços da mastologia nas últimas
décadas, italiano diz que doença poderá ser tratada em um dia
CLÁUDIA COLLUCCI
DA REPORTAGEM LOCAL
O câncer da mama, o tipo que
mais mata a mulher brasileira, deixará de causar mortes. A doença,
diagnosticada precocemente, será tratada em um único dia de internação
hospitalar, e a paciente vai poder voltar para casa com suas mamas
preservadas e livres dos efeitos da radioterapia.
O cenário descrito pelo
italiano Umberto Veronesi, 75, o mastologista mais renomado do mundo, em
entrevista exclusiva à Folha, pode parecer ficção no Brasil, mas já
começa a se tornar realidade nos principais centros oncológicos
europeus, em que 60% dos casos são diagnosticados em estágio inicial. No
Brasil, apenas 30% são detectados nessa fase.
"Nos anos 50, tínhamos 30% de
chances de cura. Hoje, temos 90%. Em breve, chegaremos a 99%", diz ele,
que dirige o Instituto Europeu de Oncologia de Milão, um dos centros de
tratamento mais prestigiados do mundo.
Grande parte do avanço no
tratamento do câncer mamário está diretamente ligado à figura de
Veronesi. Graças aos seus estudos, 300 mil mulheres no mundo deixaram de
ser mutiladas por ano -número de casos de câncer da mama em estágio
inicial.
Até a década de 80, essas
mulheres perdiam seu seio porque se pensava que a retirada total da mama
(mastectomia radical) fosse a única forma segura de controlar a doença.
Veronesi foi o responsável pelo desenvolvimento da cirurgia conservadora
da mama, que retira apenas o tumor, mas com a mesma segurança.
Nos últimos cinco anos, ele e
sua equipe estão empenhados em demonstrar, por meio de estudos
controlados, que todo o tratamento radioterápico pode ser feito já no
ato da cirurgia, por meio de uma técnica chamada radioterapia
intra-operatória, indicada para mulheres com tumores de até três
centímetros.
No Brasil, a técnica está
sendo utilizada experimentalmente nos hospitais Albert Einstein e Sírio
Libanês (SP) e no hospital da PUC do Rio Grande do Sul. "Ninguém
esperava que bastasse uma única aplicação para resolver o problema da
radioterapia depois de uma cirurgia conservadora", afirma.
Anteontem, ele falou dos
avanços no tratamento do câncer da mama em simpósio realizado pelo grupo
de mama do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. A seguir,
trechos da entrevista concedida após o evento.
Folha - O que há hoje de novo no tratamento do câncer da mama?
Umberto Veronesi - Hoje temos instrumentos muito bons de
diagnóstico e tratamento, como a mamografia digital, o ultra-som de
última geração e a ressonância magnética. Mas tudo isso não tem
significado se a mulher não vem buscar tratamento. O principal problema
hoje é de comunicação.
Os médicos precisam convencer as mulheres que, para combater essa
doença, devem fazer um pequeno sacrifício. Dos 30 aos 40 anos, uma vez
ao ano, ela deve procurar o médico, fazer exame clínico, com uma
ecografia ou uma ultra-sonografia. A partir dos 40, uma mamografia.
Trinta anos atrás, eu inventei a cirurgia conservadora e conseguimos
eliminar o risco da mastectomia. Há oito ou nove anos, investimos na
biopsia do linfonodo sentinela para decidir se é justo ou não retirar
todos os nódulos linfáticos [veja quadro]. Há cinco anos estamos
tentando um novo caminho para evitar as dolorosas seis ou sete semanas
de radioterapia. Trata-se da radioterapia intra-operatória, feita
durante a cirurgia. Isso é revolucionário. Ninguém esperava que bastasse
uma única aplicação para resolver o problema da radioterapia depois de
uma cirurgia conservadora. Até então, pensava-se que radioterapia só
fosse eficaz em pequenas doses, todos os dias, por pelo menos um mês e
meio. Essa invenção é uma mudança total de postura.
Folha - E em relação à quimioterapia? Vamos conseguir chegar
nesse mesmo estágio?
Veronesi - Hoje a questão da radioterapia está sendo resolvida,
amanhã será a vez da quimioterapia. Em muitos casos, ela é dada mais
como forma de prevenção às mulheres já operadas porque teme-se que haja
células cancerosas pelo corpo. Nós sabemos que, na maior parte dos
casos, não há nenhuma célula cancerosa. Estamos tentando identificar em
cada tumor duas coisas: o DNA do tumor e ver se ele anda bem ou anda
mal, de modo que faremos a quimioterapia só no grupo em que há risco [de
metástase]. Conhecendo o perfil genético do tumor, poderemos construir
um medicamento que vai somente contra essa célula tumoral, sem
prejudicar outras células do corpo, como uma chave que entra na
fechadura da porta. Assim, a mulher não irá perder cabelo, glóbulos
brancos ou apresentar distúrbios intestinais. Esse é o futuro que
esperamos para os próximos dez anos. Tudo isso objetiva o aumento de
cura com qualidade de vida. Nos anos 50, tínhamos 30% de chances de
cura. Hoje, temos 90%. Em breve, chegaremos a 99%.
Folha - O sr. quer dizer que o câncer da mama, o que mais mata
a mulher brasileira hoje, deixará de causar mortes?
Veronesi - Sim, deixará de matar, exceto em pouquíssimas
exceções. Vai acontecer como ocorre hoje com o câncer uterino. Nos anos
50, o câncer mais mortal era o câncer do colo de útero. Com o [exame]
papanicolaou, esse câncer pode ser curado em 100% dos casos.
Naturalmente, isso só vai acontecer se a mulher fizer o exame
preventivo. Se a mulher não faz o papanicolaou, não há o que fazer. Se a
mulher não faz mamografia, não há o que fazer.
Folha - A situação da saúde pública no Brasil é parecida com a
italiana 30 anos atrás. Não temos aparelhos de mamografia nem centros de
tratamento suficientes para tratar essas mulheres. O que fazer nessa
situação?
Veronesi - Se a mulher se convence da necessidade do exame e
busca atendimento, reivindica na porta dos serviços públicos ou privado,
a mamografia aparece. Se a comunidade onde vive essa mulher reivindica
esse direito, a medicina privada ou o governo terá de atender. Mas se a
mulher fica fechada em casa, sente o nódulo e não procura atendimento,
fica difícil.
Folha - O sr. diz que, com os recursos disponíveis hoje, já é
possível tratar o câncer da mama em um único dia. Isso é factível?
Veronesi - Sim. Em duas horas de cirurgia, colhe-se o tumor, o
linfonodo sentinela, faz a radioterapia intra-operatória e, se tudo
estiver bem, no dia seguinte a mulher já está em casa. Na Itália, em que
60% das mulheres têm o câncer da mama diagnosticado precocemente, muitas
já estão sendo tratadas assim. Mas ainda existe a limitação de centros
que fazem a radioterapia intra-operatória.
Folha - Estudos recentes mostraram que o auto-exame, sozinho,
não previne o câncer da mama. Ainda são válidas campanhas de prevenção
nessa linha?
Veronesi - É muito importante que a mulher supere o pavor de
apalpar a mama. Na Europa, de 50% a 60% dos tumores são descobertos
pelas mulheres. É claro que, para tumores muito pequenos, a detecção só
será possível com o uso da mamografia.
Folha - Hoje se discute a validade da quimioprevenção para
mulheres com risco de desenvolver câncer da mama. O caminho é esse?
Veronesi - Pensamos que será possível com uma pequena dose de
hormônios, que não causam distúrbios ao organismo, impedir o
desenvolvimento das células tumorais sem destruir as células normais.
Essa é a esperança.
Folha - E a mastectomia profilática? As mulheres com alto risco
para o câncer da mama devem extirpar o seio profilaticamente?
Veronesi - É para pouquíssima indicação. Temos hoje métodos de
diagnóstico altamente eficazes. É muito menos agressivo descobrir um
tumor pequeno, com uma chance de cura altíssima, do que tirar as duas
mamas.
Folha - Muito se fala que as mulheres sem filhos ou que não
amamentam têm mais riscos de desenvolver câncer da mama. É verdade?
Veronesi - Sim. A mama foi criada pela natureza para amamentar.
Se não realiza as suas funções, ela, teoricamente, fica doente porque a
função dela não é cumprida.
(©
Folha de S. Paulo)
FRASE
Nos anos 50, tínhamos 30% de chances de cura. Hoje, temos 90%. Em
breve, chegaremos a 99%
Se a mulher se convence da necessidade do exame e busca atendimento,
reivindica na porta dos serviços públicos ou privado, a mamografia
aparece
É muito importante que a mulher supere o pavor de apalpar a mama. Na
Europa, de 50% a 60% dos tumores são descobertos pelas mulheres
(©
Folha de S. Paulo)
Oncologista é referência internacional
DA REPORTAGEM LOCAL
Oncologista de renome
internacional, o italiano Umberto Veronesi é autor de mais de 600
publicações científicas e de 12 tratados na área da oncologia. Criou em
Milão um dos mais importantes centros de estudos e terapia do câncer.
Em 1982, ele fundou a Escola
Européia de Oncologia, que desde então tem treinado médicos de diversos
países, inclusive o Brasil. Desde essa data, Veronesi é presidente da
União Internacional contra o Câncer. Também já presidiu as maiores
sociedades oncológicas da Europa e é membro de outras quatro nos EUA.
Médico premiado com título
"honoris causa" em países da Europa, América do Norte e América do Sul,
ele é uma figura polêmica.
Enquanto ministro da Saúde na
Itália, entre 2000 e 2001, defendeu publicamente idéias contrárias ao
Vaticano e aos partidos conservadores, como a liberalização das chamadas
"drogas leves", como a maconha e o haxixe. Tornou-se o homem de governo
mais criticado pelo clero italiano.
Para Veronesi, as estatísticas
epidemiológicas mostram que a mortalidade por drogas leves é equivalente
a zero, que elas não criam dependência e que não são a ponte de passagem
às drogas pesadas. (CC)
(©
Folha de S. Paulo)
Os triunfos sobre o câncer de
mama
Anna Paula
Buchalla
Com
reportagem de Paula Neiva
|
Roberto Setton
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Receber o diagnóstico de câncer
de mama é sempre um choque. A notícia soa como uma inapelável sentença
de morte e mutilação. Mas esse inimigo não é mais tão implacável. O
número de baixas ainda é grande (cerca de 9 500 em 2003, no Brasil), mas
as conquistas obtidas pelos médicos vêm permitindo que um número cada
vez maior de mulheres sobreviva. Nos últimos vinte anos, a taxa de
mortalidade por câncer de mama foi reduzida à metade. "Ter um câncer de
mama não significa uma morte anunciada", disse a VEJA o médico italiano
Umberto Veronesi, do Instituto de Oncologia de Milão, uma das maiores
autoridades mundiais na doença. "Dispomos de conhecimento suficiente
para salvar mais de 90% das pacientes. Tudo depende do diagnóstico
precoce, a chave para a cura do tumor."
Até o fim deste ano, cerca de
40.000 brasileiras devem receber o diagnóstico de câncer de mama.
Comparadas às taxas de incidência nos anos 70, as de agora chegam a ser
dez vezes maiores. Mas há uma diferença crucial entre os diagnósticos
feitos no passado e os de hoje. De cada dez mulheres que recebem a
notícia de que são portadoras do câncer, sete estão na fase inicial da
doença. Há duas décadas, a situação era cruelmente inversa: 70% chegavam
aos médicos tarde demais, quando as possibilidades de cura eram mínimas
e a retirada total da mama se apresentava como a única opção de
tratamento.
O caminho para esse aumento
começou a ser trilhado com a intensificação das campanhas de prevenção
contra o câncer de mama, que alertam principalmente para a importância
do auto-exame mensal, e a difusão maciça da mamografia. A elas se
seguiram o desenvolvimento de métodos de diagnóstico mais precisos, o
aperfeiçoamento de medicamentos mais potentes e menos tóxicos e o
refinamento das técnicas cirúrgicas. Os progressos não se medem apenas
pela frieza das estatísticas. Para as pacientes há uma conquista de
ordem pessoal. Uma mulher que hoje tenha um câncer de mama detectado em
estágio inicial é capaz de sobreviver ao tumor com traumas menos
extensos – tanto físicos quanto psicológicos.
Há vinte anos, não importava o
tamanho do tumor, a cirurgia para a sua retirada implicava a extirpação
total da mama. Além dela, como forma de prevenção à reincidência da
doença, fazia-se a remoção de todos os gânglios linfáticos e dos
músculos peitorais. Era uma cirurgia drástica, de resultados
desfigurantes. Hoje, tumores de até 3 centímetros de diâmetro são
eliminados numa operação chamada quadrantectomia, na qual se extrai
apenas um quarto da mama. A experiência é, sem dúvida, bem menos
traumática. Mesmo nos casos em que é necessária mastectomia radical, os
resultados estéticos estão infinitamente melhores. As modernas técnicas
de cirurgia plástica permitem, em boa parte dos casos, a reconstrução
imediata da mama operada. Já é possível até mesmo preservar os mamilos e
a camada mais superficial da pele da mama, que é preenchida com uma
prótese de silicone.
Quando o tumor cresce em direção
a outros órgãos, ele tende a invadir primeiro os gânglios localizados na
região das axilas. Se no passado era preciso retirar todos os gânglios
linfáticos para evitar o alastramento da doença, hoje os cirurgiões
dispõem de uma técnica que evita a remoção desnecessária dessas
estruturas. O método foi batizado de linfonodo sentinela. Os médicos
injetam na mama uma substância corante que identifica o primeiro
gânglio, o qual é retirado para análise. Se ele não estiver contaminado,
isso significa que os demais também não estão, e são preservados. Isso
livra a mulher das seqüelas típicas do esvaziamento total das axilas: um
buraco feio no local, inchaço nos braços, perda da sensibilidade e
aumento da propensão a doenças infecciosas.
Outro avanço notável é a
radioterapia intra-operatória, desenvolvida pelo italiano Umberto
Veronesi. Por esse método, ainda na mesa de operação, logo depois de o
tumor ser extirpado, aplica-se uma única dose de radiação no local em
que surgiu o câncer, para evitar o seu reaparecimento ali. O método
tradicional prevê que, após uma cirurgia, a paciente se submeta a
sessões de radiação que duram em média seis semanas. A radioterapia
intra-operatória livra a paciente dessa rotina desgastante de ir ao
hospital para fazer o tratamento radiológico – o que é um ganho e tanto
do ponto de vista emocional –, e tem uma segunda vantagem: não causa
queimaduras na pele delicada das mamas, um dos efeitos colaterais mais
devastadores da radioterapia comum.
Neste momento, milhões de mulheres em todo o mundo podem se
considerar sobreviventes do câncer de mama. São pacientes que saíram
vitoriosas de um tratamento químico pesado, que causa fortes enjôos,
queda de cabelo, fraqueza e indisposição. Muitas têm ainda de conviver
com dificuldades de ordem sexual. Mas sobreviver a um câncer de mama é
também contar com a possibilidade de sua recorrência. "É comum as
mulheres, mesmo depois de curadas, sofrerem com o medo da recidiva", diz
o mastologista Silvio Bromberg, do Hospital Albert Einstein, de São
Paulo. O medo é fundado. Um dos lados mais perversos do câncer de mama é
que ele é um dos tumores com as mais altas taxas de recidiva. Metade das
pacientes tratadas volta a desenvolver novos nódulos. Por isso, um dos
principais focos dos médicos é o combate à recidiva. Considera-se que
uma paciente está curada se o tumor não volta a se manifestar num prazo
de cinco anos a partir do diagnóstico inicial. Para evitar o
reaparecimento do tumor imediatamente depois da cirurgia, o
tratamento-padrão é a quimioterapia. Nos últimos dois anos, surgiram
novas estratégias para ministrar as doses de quimioterápicos. Uma delas
utiliza os mesmos medicamentos nas mesmas doses convencionais, mas as
sessões estão mais espaçadas. Os intervalos foram reduzidos de três para
duas semanas. Isso diminui o tempo total de tratamento de cerca de 24
semanas para dezesseis, em média, com os mesmos resultados e sem aumento
de efeitos colaterais. Passados os cinco anos de praxe, período depois
do qual a paciente pode receber alta, alguns médicos aconselham a
ingestão de um comprimido por dia do medicamento Femara. Trata-se de uma
das novidades mais promissoras no sentido de eliminar a possibilidade de
uma recidiva tardia. O Femara, segundo estudos divulgados recentemente,
pode cortar em até 45% os riscos de reincidência da doença depois de
cinco anos do diagnóstico inicial (veja quadro).
Cerca de 85% de todos os cânceres
de mama começam nos ductos mamários, pequenos canais responsáveis por
fazer circular o leite materno. Uma progressão de células defeituosas
acaba bloqueando os ductos. Se elas permanecerem no mesmo lugar de onde
se originaram, formam um tipo de câncer não invasivo. Caso elas
extrapolem o canal, o tumor cresce em demasia e se torna mais difícil de
ser tratado. Um dos métodos de diagnóstico mais recentes – mas ainda
experimental – é a lavagem ductal. A técnica utiliza uma agulha
finíssima para injetar soro fisiológico nos ductos mamários. Ao ser
retirado, o líquido traz consigo células da região para análise. Assim,
é possível identificar lesões em fase bastante inicial. É uma espécie de
papanicolau da mama. Aliás, foi o próprio George Papanicolau, o inventor
do método que detecta a presença de células cancerosas no colo do útero,
quem deu o pontapé inicial do procedimento. Ele teve a seguinte idéia:
se quase todos os cânceres de mama começam nos ductos mamários, por que
não extraí-los por meio de sucção? Durante toda a década de 50, ele
chegou a utilizar um fluido especial para retirar células da mama, mas
não conseguiu medir a malignidade do material recolhido, por falta de
tecnologia. Foi a médica americana Susan Love, especialista em câncer de
mama, quem ressuscitou o método, em 2000. Como agora existem formas de
analisar o material dos ductos com mais acurácia, há esperança de que,
em breve, seja possível flagrar o câncer quando ele ainda é uma única
célula doente.
A grande mudança nas diretrizes
da prevenção ocorreu no início deste ano, quando o Instituto Nacional do
Câncer dos Estados Unidos determinou que mulheres cuja mãe ou irmã foram
vítimas da doença devem iniciar a rotina de exames dez anos antes da
idade em que a parente a manifestou. Ou seja, se o câncer da parente
apareceu quando ela tinha 38 anos, a idade certa para começar os exames
preventivos é 28. Recentemente, os diagnósticos precoces ganharam também
o reforço da ressonância magnética, que permite flagrar um tumor quando
ele ainda tem o tamanho de um grão de areia.
A principal promessa no campo do
tratamento vem da Holanda. É um mapeamento genético dos quatro
principais tipos de câncer de mama. Com ele, será possível determinar a
probabilidade de um tumor vir a se espalhar e suas reais chances de
responder a uma terapia. Isso ajudará os médicos a determinar quais
pacientes se beneficiarão de um tratamento e quais poderão, por exemplo,
ser dispensados da quimioterapia (veja quadro).
"Estamos no meio de uma revolução", afirma Umberto Veronesi. O otimismo
tem sua razão de ser não apenas pelos triunfos já obtidos como pelo
empenho dos médicos em abrir novas frentes de pesquisa. Por ser o
terceiro tipo de câncer mais freqüente no mundo, depois do de pulmão e
do de estômago, e por ser a principal causa de morte pela doença entre
as mulheres (a incidência aumenta conforme o avançar dos anos, como
mostra o quadro abaixo), o tumor de mama é um dos cânceres mais
estudados nos principais centros de oncologia. De cada 100 artigos
médicos publicados sobre cânceres em geral, quarenta referem-se a esse
tipo de tumor. É encorajante também que o câncer de mama seja um dos
mais sensíveis aos tratamentos, o que favorece os avanços nessa área. As
conquistas só não são maiores porque o tumor de mama é traiçoeiro. Além
de ter vários tipos, ele pode ser muito rápido na sua expansão pelo
corpo. Há casos em que bastam dois dias para que células cancerosas
recém-formadas saiam dos ductos mamários. Quando gera metástase, o
câncer de mama atinge preferencialmente ossos, pulmão ou fígado. Nessa
hipótese, falar em cura é praticamente impossível. Mas, mesmo diante
desse prognóstico de pesadelo, os tratamentos podem garantir uma boa
sobrevida à paciente.
As companhias farmacêuticas
investem por ano dezenas de bilhões de dólares no desenvolvimento de
terapias que impeçam o surgimento do câncer de mama. É o que chamam de
quimioprevenção. Atualmente, o medicamento-padrão é o tamoxifeno, que
impede a ação do hormônio estrógeno, o principal alimento de um dos
tipos mais comuns de câncer de mama. O tamoxifeno é receitado para
mulheres com alto risco de sofrer da doença, principalmente por
histórico familiar. No campo da quimioprevenção, está em estudo o uso de
aspirina, estatinas e antiinflamatórios. O mecanismo pelo qual esses
remédios impediriam a formação de tumor ainda não foi desvendado, mas
eles mostram ter eficácia nesse sentido.
O crescimento descontrolado das
células, causa dos tumores malignos, é fruto de um erro genético,
programado pelo próprio organismo ou decorrente de fatores externos. No
que se refere ao câncer de mama, acredita-se que 10% deles estejam
ligados a mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, fruto de herança genética. É
por isso que muitas mulheres se submetem a um mapeamento para saber se
carregam esses genes mutantes. Algumas delas, diante de um resultado
positivo, escolhem fazer uma mastectomia profilática, a fim de evitar o
aparecimento da doença. Apesar de todo o conhecimento acumulado a
respeito do tumor de mama, uma crença ainda sobrevive – a de que ele
pode ser resultado da personalidade da mulher. Há até livros que falam
de uma "personalidade de câncer de mama", marcada por baixa auto-estima
e sentimentos reprimidos. Embora não exista nenhuma evidência para
suportar essa idéia estapafúrdia, ela é bastante disseminada. Por isso,
um grupo de pesquisadores australianos se dedicou ao assunto. Eles
acompanharam 2.200 mulheres na casa dos 40 anos, que faziam mamografia
rotineiramente. Elas responderam a questões sobre raiva, mágoa, tristeza
e stress e sobre como expressavam suas emoções. Metade delas viria a ter
câncer. Ao examinar os questionários preenchidos por essas pacientes, os
pesquisadores depararam com mulheres que, na maioria dos casos, eram
alegres, comunicativas, de bem com a vida. O câncer de mama é uma doença
como qualquer outra – não escolhe suas vítimas porque elas são mais ou
menos tristes ou bem-sucedidas. É ameaçador, mas não invencível. Resume
o médico Antonio Luiz Frasson, do Hospital Albert Einstein e professor
da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul: "Para quem não
se descuida dos exames preventivos e tem acesso aos métodos mais
avançados de diagnóstico e de tratamento, o câncer de mama não é um
problema".
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Avanços decisivos na
prevenção, no diagnóstico e no
tratamento de câncer de mama
PREVENÇÃO
Histórico familiar
As novas diretrizes do Instituto Nacional do Câncer dos
Estados Unidos determinam que as mulheres cuja mãe ou irmã foram
vítimas da doença devem dar início à rotina de prevenção dez
anos antes da idade em que a parente manifestou os sintomas da
doença. Se a mãe descobriu um tumor aos 42 anos, a filha deve
começar a se precaver contra o câncer aos 32 anos, com exames
clínicos e de imagem anualmente
Antiinflamatórios
Estudos mostram que mulheres que tomam dois ou mais
comprimidos semanais de ibuprofeno, num período de cinco a nove
anos, têm 21% menos probabilidade de desenvolver a doença
Estatinas
Entre as mulheres que usam esses medicamentos contra colesterol
alto há mais de cinco anos, o risco de o tumor aparecer é 30%
menor
Aspirina
Pesquisas mostram que o consumo de sete comprimidos de
Aspirina por semana reduz em cerca de 30% a propensão ao câncer
de mama
DIAGNÓSTICO
Lavagem dos ductos mamários
Ainda em fase experimental, essa nova técnica de biópsia
consiste em injetar, por meio de uma agulha finíssima
introduzida no centro do bico da mama, soro fisiológico nos
ductos mamários. Ao ser aspirado de volta, o líquido traz junto
células da região para ser examinadas. Recomendado para mulheres
expostas a alto risco
Ressonância magnética
Esse exame é muito mais sensível do que a mamografia e a
ultra-sonografia. Por isso mesmo apresenta um grande número de
resultados falsos positivos. O exame só é indicado para mulheres
de alto risco
Mamotomia estereotáxica
Uma agulha do calibre de uma caneta esferográfica, com uma
espécie de bisturi em seu interior, retira amostras do tecido
mamário para análise. É feita com anestesia local e dura menos
de uma hora. Reduz em até 70% a necessidade de procedimentos
cirúrgicos para biópsia
CIRURGIAS
Linfonodo sentinela
Até
pouco tempo atrás, durante a operação para extirpar o tumor, era
comum a retirada de todos os gânglios linfáticos, como forma de
prevenção. Agora, os médicos injetam uma substância corante na
mama que identifica o primeiro gânglio. Se ele não estiver
contaminado, os demais também não estão e são preservados. Com
isso, diminuem muito os riscos de inchaços, infecções locais e
de perda de sensibilidade dos braços
Liane Neves
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Radioterapia
intra-operatória
Ainda na mesa de cirurgia, a paciente recebe uma dose única
de radiação, durante cerca de vinte minutos. Assim, é possível
dispensar as seis semanas de sessões diárias de radioterapia
depois da operação
Cirurgia radioguiada
Antes da cirurgia, injeta-se uma substância radioativa para
localizar com exatidão o tumor. Possibilita a extração de
nódulos minúsculos, invisíveis a olho nu
REMÉDIO
Femara
Acaba de
ser aprovado nos Estados Unidos e na Europa o uso do letrozol,
vendido sob o nome de Femara, para dar continuidade à prevenção
iniciada com o tamoxifeno, que depois de cinco anos deixa de
surtir efeito
Fontes: Artur Katz e Sergio Simon,
oncologistas
do
Hospital Albert Einstein, de São Paulo |
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DUAS VEZES
VITORIOSA
Roberto Setton
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"Tinha 40 anos quando, durante um auto-exame, notei um caroço em
meu seio direito. A mamografia indicou um nódulo suspeito. Bateu
um medo terrível. Era inevitável pensar que meu marido poderia
ter de cuidar sozinho de nossos três filhos, então adolescentes.
Queria continuar viva, ver meus filhos crescerem, casarem e
terem filhos. Na época, vinte anos atrás, aquela biópsia exigia
cirurgia. Se o resultado fosse positivo, faziam mastectomia na
mesma hora. Pedi ao médico para que, se eu estivesse com câncer,
deixasse a mastectomia para depois. Não estava preparada para
acordar sem meu seio. Naquele tempo, o câncer de mama não tinha
bom prognóstico. As pessoas evitavam falar sobre a doença e até
as mulheres que haviam passado pelo problema faziam segredo.
Tirei a mama e fiquei em acompanhamento por cinco anos. Quando
recebi alta, chorei muito – um choro de felicidade. Por opção,
não reconstruí a mama. Eu estava saudável e minha vaidade não
justificava uma outra cirurgia de grande porte. Tinha, óbvio,
momentos de tristeza, mas eles passavam. Três anos atrás,
apareceu um caroço na mama esquerda. Por que eu tinha de viver
tudo aquilo de novo? Dessa vez, só precisei retirar um quarto do
seio. Continuo o acompanhamento e o prognóstico é dos melhores.
Não sinto raiva nem revolta. Ao contrário. Agradeço a sorte
grande de ter descoberto os tumores no início e de continuar
viva para ver o casamento dos meus netos."
VITORIA RACA,
61 anos, dona-de-casa, de São Paulo |
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A OPÇÃO PELA
MASTECTOMIA RADICAL
Cláudio Rossi
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De todos os esforços para
tentar prevenir o aparecimento de um tumor de mama, a
mastectomia profilática é o mais radical. Nela, a paciente
extirpa as mamas antes mesmo de apresentar um nódulo suspeito. A
versão mais recente dessa cirurgia esvazia os seios, mas
preserva a camada mais superficial da pele e os mamilos. Cerca
de 20% das pacientes operadas, porém, precisam voltar à mesa de
cirurgia para trocar as próteses ou por causa de necroses na
pele. A cirurgia reduz em cerca de 90% os riscos de câncer de
mama. Mas essa é uma operação a ser considerada apenas por
pacientes de altíssimo risco, com predisposição genética à
doença e histórico familiar muito evidente, como é o caso da
terapeuta de família Deborah Tambelini, de 36 anos:
"O câncer marcou
profundamente minha família. Quando tinha 9 anos, perdi minha
mãe para a doença. Lembro-me claramente do sofrimento dela e de
toda a família. A operação, os efeitos da rádio e da
quimioterapia... Cinco anos depois, minha tia, irmã de minha
mãe, recebeu o mesmo diagnóstico. Anos antes, minha avó materna
também havia morrido vítima de câncer. Cresci jurando para mim
mesma que eu não passaria por todo aquele terror. Em 1985, foi a
vez de uma de minhas irmãs. Ela fez uma mastectomia radical.
Curou-se do câncer de mama, mas, em setembro do ano passado,
morreu por causa de um câncer de ovário. Outras duas irmãs
minhas também tiveram câncer. Uma de mama, outra de ovário. Elas
estavam com os exames preventivos em dia, mas os tumores eram
muito agressivos e, por isso, tiveram de se submeter a
tratamentos igualmente agressivos. O que sempre me assustou no
câncer é que ele se desenvolve silenciosamente, sem dar nenhum
sinal. É aterrador.
Desde os 25 anos, faço exames
anualmente. Soube pelo meu ginecologista que havia um teste para
identificar mutações genéticas ligadas ao câncer de mama. Fiz o
exame e o resultado foi positivo. Ou seja, eu tinha 80% de
probabilidade de vir a ter a mesma doença de minha avó, tia, mãe
e irmãs. O médico me falou sobre a mastectomia preventiva. A
princípio, achei a idéia absurda, uma mutilação – imagine
extirpar as duas mamas se eu era sadia... No final, depois de
pesar os prós e os contras, optei pela operação. Eu não queria
ter de lutar contra um câncer. Eu não enfrentaria jamais um
câncer.
Fiz vários exames
pré-operatórios. E qual não foi minha surpresa quando um deles,
na véspera da operação, indicou um nódulo suspeito no seio
direito. Era câncer. Minúsculo, mas era. Recebi a notícia com
tranqüilidade e dei continuidade ao plano inicial da mastectomia
radical. A diferença é que depois tive de fazer quimioterapia.
Voltei para o quarto já com o implante de silicone. Meus seios
hoje são até mais bonitos do que antes. Ninguém percebe que
tirei as duas mamas. Tenho convicção de que, mesmo se o câncer
não tivesse aparecido, não teria me arrependido da operação. A
certeza de que queria ver meu filho, de 4 anos, crescer era
muito mais forte". |
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O FUTURO ESTA PRÓXIMO
A genética promete ser o campo de batalha em
que o câncer de mama encontrará sua derrota completa. Os médicos
avançam a passos largos nesse sentido. Em 2000, foi desenvolvido
na Holanda um mapeamento genético dos tumores chamado
MammaPrint, baseado no exame das características dos cânceres de
15 000 pacientes européias e americanas. O MamaPrint ajuda a
determinar com bastante precisão o grau de agressividade de um
câncer, o risco de ele se alastrar por outros órgãos e como
responderá aos tratamentos disponíveis. Se os estudos finais,
ainda em andamento, confirmarem o sucesso verificado até o
momento, esse mapeamento deverá entrar para o cardápio da
prevenção e do tratamento da doença. Isso representará a
concretização de um sonho: o de individualizar o combate contra
o câncer de mama, abrindo caminho para o surgimento de remédios
que ataquem diretamente os genes de um tumor.
Para chegar ao MammaPrint, os
médicos isolaram os setenta genes comuns aos quatro principais
tipos de câncer de mama. Criou-se, então, um banco de dados com
informações sobre o comportamento desses genes no
desenvolvimento de cada forma de tumor. Comparando as células
extraídas numa biópsia com as informações contidas no
MammaPrint, é possível saber, por exemplo, se a probabilidade de
um tumor se transformar em metástase é de 10% ou de 50%. Isso
pode livrar muitas mulheres da quimioterapia preventiva. Hoje,
com base no estudo da anatomia e da fisiologia de um tumor, os
médicos são capazes de montar um prognóstico, mas nunca com a
exatidão de um exame genético. "É o começo do futuro da
oncologia", diz o médico Antonio Carlos Buzaid, diretor
executivo do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, em
São Paulo.
É bom que se estabeleça a
diferença entre a genética de um tumor e a genética de uma
paciente. Os genes encontrados no DNA de uma célula cancerosa
determinam como ela se comporta. A genética de uma mulher indica
a probabilidade de ela desenvolver a doença. Mulheres que
carregam mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2 têm até 80% de
probabilidade de desenvolver um tumor. Durante muito tempo,
apostou-se exclusivamente numa maneira de reverter essas
mutações genéticas e evitar, assim, o aparecimento de lesões
malignas. Os investimentos nesse campo, porém, mostraram-se
frustrantes. |
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Revista VEJA)
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