Por Phil Stewart
ROMA (Reuters) - O papa Pio XII ordenou à Igreja francesa que não
devolvesse crianças judias a seus pais caso tivessem sido batizadas na
fé católica para serem salvas dos nazistas, de acordo com uma carta de
1946, obtida por um historiador.
A
carta secreta do Vaticano tinha o objetivo de servir como um guia para
lidar com pedidos de reaver crianças confiadas à Igreja Católica durante
a Segunda Guerra Mundial.
Muitas crianças foram batizadas e educadas como católicas durante a
Guerra, o que muitas vezes ajudou a esconder sua identidade dos
nazistas. Mas após a guerra, o Vaticano aparentemente não quis que
católicos batizados retornassem a suas comunidades judaicas.
Grupos judaicos acusaram Pio XII, que foi papa entre 1939 e 1958, de
fazer muito pouco para impedir o Holocausto ou para ajudar os judeus a
escapar dos nazistas.
O
Vaticano negou as acusações, mas as cartas, descobertas pelo historiador
italiano Alberto Melloni, devem aumentar o debate sobre a atitude de Pio
XII em relação aos judeus.
"Se as crianças foram confiadas à Igreja pelos pais e se os pais agora
as pedem de volta, elas podem ser devolvidas com a condição de que não
tenham recebido o batismo", diz a carta, escrita pelo departamento
doutrinal do Vaticano.
A
mesma carta oferece instruções sobre como responder a pedidos de
informações. "Evite, tanto quanto possível, responder por escrito às
autoridades judaicas, mas faça-o oralmente", afirma.
O
pontificado de Pio XII tem sido um dos maiores problemas nas relações
entre católicos e judeus no pós-guerra.
A
carta de 1946, publicada pelo jornal italiano Corriere della Sera esta
semana, pode aumentar a controvérsia.
O
historiador Melloni afirmou que a carta levanta questões importantes
sobre as intenções da Igreja ao proteger crianças judias do Holocausto.
"O
que é difícil de entender é se este comportamento heróico foi adotado
porque estas pessoas estavam em perigo, ou porque estas pessoas eram
judias", disse à Reuters.