Damião fez parte de uma história que revoltou
os dirigentes brasileiros no início da década de 90. Foi um dos vários jogadores que,
ainda garotos, foram contratados para jogar no basquete italiano. Na época, o então
presidente da Confederação Brasileira de Basquete, Renato Brito Cunha, classificou o
fato como "tráfico" e pediu até a interferência da Federação Internacional
de Basquete. Todos eles tinham mais de dois metros de altura e iam com a promessa de se
naturalizar italianos. "Não conheço esses casos. Minha transferência não teve
problema nenhum", desconversa Damião.
De Campinas para Bologna Damião jogava no Clube Campineiro de Regatas e tinha
apenas 16 anos. Foi para a Itália com outros três jogadores do time e outro do
Palmeiras. Todos direto para o Fortitudo Bologna. Fez um período de testes em julho de
1991 e voltou em definitivo em dezembro. "Foi ótimo para mim. Aqui pude me
desenvolver como atleta e estudar muito", diz ele, sem demonstrar nenhum
arrependimento pela escolha. Já no Bologna, ele tinha a obrigação de ir bem nos estudos
para continuar podendo jogar no time. Hoje, é formado em Propaganda e Marketing,
especialista em Gráfica Publicitária, além de ter diplomas de espanhol e italiano.
Marcelo pôde se naturalizar italiano porque seu avô nasceu lá. Na época, tinha a
opção de continuar brasileiro e tentar futuras convocações para jogar pelo Brasil em
competições internacionais. "O problema é que ninguém da Confederação
Brasileira mostrou interesse em me oferecer um programa de treinamento para poder jogar
pela Seleção futuramente. Na Itália, isso foi programado", diz ele, sem negar que
continua com mágoa da CBB pela falta de interesse na época da sua transferência.
Na Seleção Já em 1993, Damião chegou à Seleção Italiana. Foi convocado
para a disputa do Campeonato Europeu Infanto-Juvenil e iniciou carreira na equipe. Em
1998, disputou o Mundial da Grécia, quando a Itália terminou em sexto lugar. Era um dos
reservas mais participativos do time, com média de 16 minutos por jogo em quadra. Também
jogou na equipe que conquistou o título europeu no ano passado, na França. Para Sydney,
acha que ninguém terá condições de bater o "Dream Team" norte-americano e
acha que os italianos podem até chegar ao pódio. "De certa forma, estarei
representando o basquete brasileiro lá. Ainda me sinto brasileiro", diz.
A Confederação Brasileira de Basquete diz que não pode evitar transferências de
jogadores jovens para a Europa. Por meio da assessoria de imprensa, o presidente da CBB,
Gerasime Bosikis, citou o caso de Tiago Spliter, de 15 anos, recém-transferido para o
basquete espanhol. A CBB exigiu apenas um documento da Federação Espanhola garantindo
que o atleta teria uma estrutura boa no clube em que fosse jogar e que seria liberado para
todos os compromissos da Seleção Brasileira.
O técnico Hélio Rubens, que está na Venezuela com o Vasco, disse por telefone que
só viu Marcelo em quadra uma vez, em um torneio sub-23. Falou que não se deve chorar
sobre casos individuais e sim tentar fazer com que os atletas brasileiros prefiram ficar
no Brasil a ir para a Europa. (
André
Amaral e Luís Augusto Simon, AE) 