12.09.2000
A Fórmula 1 já assistiu a esse filme antes. Ele ficou em cartaz de 1994
a 1999, período que a Justiça italiana precisou para apurar as causas da morte de Ayrton
Senna e inocentar os seis acusados de homícidio culposo pelo acidente que matou o
brasileiro. Agora, os fiscais Salvatore Bellomo e Antonio Tanga, designados também pelo
Magistério Público da Itália, investigam, desde domingo, o acidente que resultou na
morte do comissário de pista Paolo Ghislimberti. No GP da Itália, em Monza, ele recebeu
o impacto da roda de um carro na cabeça. A organização da corrida, diretores do
circuito e até os pilotos envolvidos no acidente da largada podem ser indiciados.
Logo depois que o Hospital de Monza anunciou a morte do comissário, a
Justiça italiana abriu inquérito para apurá-la. Rubens Barrichello, da Ferrari,
Heinz-Harald Frentzen e Jarno Trulli, da Jordan, e um representante da McLaren,
substituindo David Coulthard, que já havia deixado o circuito, foram ouvidos ainda na
pista.
O espanhol Pedro de la Rosa, também envolvido no múltiplo acidente, foi
poupado por estar em estado de choque. Rubinho foi duro com Frentzen, acusando-o de causar
toda a confusão. "Ele deveria ter uma punição de dez anos", afirmou o piloto
da Ferrari, meio descontrolado. "Eles me perguntaram o que tinha acontecido e quem
bateu na traseira do meu carro; falei como testemunha."
O diretor da pista de Monza, Giorgio Beghella Bartoli, defendeu-se ontem
das acusações de que o socorro ao comissário foi lento. "A ambulância que
providenciamos foi mais rápida que o helicóptero", disse, procurando responder aos
jornalistas que questionavam a ausência do serviço aéreo.
"Fizemos o que estava ao nosso alcance", afirmou Bartoli. Se o
exemplo do que se passou no GP de San Marino de 1994 valer, Bartoli também será
indiciado, como aconteceu com os diretores do circuito Enzo e Dino Ferrari, em Ímola.
De acordo com as primeiras investigações, teria sido uma roda da Jordan
de Frentzen que, no choque, desprendeu-se e voou sobre a grade de proteção, atingindo o
comissário. Bellomo e Tanga começaram a reconstituir o acidente a partir de imagens
geradas pela TV italiana. Agora eles solicitaram às equipes os dados das caixas pretas
dos carros envolvidos: uma Ferrari, uma McLaren, duas Jordan e uma Arrows. Todos eles
estão seqüestrados pela Justiça italiana, como ficou a Williams de Senna em 1994.
A Jordan cancelou o treino que faria a partir de hoje, em Mugello, com a
maioria dos outros times, por estar com os dois carros presos e corre para aprontar dois
outros modelos para embarcá-los sábado para Indianápolis, onde no dia 24 será
disputado o GP dos Estados Unidos, 15ª etapa da temporada.
"Não posso adiantar nada à imprensa", declarou ontem Bellomo.
"Quando chegar a alguma conclusão, comunicarei à Justiça", concluiu. A partir
do que a investigação apurar, o juiz Cesare di Nunzio, de Monza, poderá ou não
indiciar eventuais culpados.
A história de acidentes semelhantes na Itália mostra que a Justiça
tentará culpar alguém, como aconteceu no GP da Itália de 1970, lá mesmo em Monza. O
piloto austríaco Jochen Rindt, da Lotus, morreu na curva Parabólica e depois de um longo
processo o dono da sua equipe, Colin Chapman, foi considerado culpado. Por um tempo ele
não pôde entrar na Itália. Em 1994, depois da morte de Senna, outro longo e desgastante
processo se desencadeou. Agora não deverá ser diferente. (Livio
Oricchio, AE)
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