30.08.2000
A demora na localização do banqueiro Salvatore Cacciola,
foragido do país há 38 dias, está deixando a Polícia Federal irritada com seus pares
italianos. Cacciola, que está sendo processado no Brasil por crime contra o sistema
financeiro, foi incluído há pouco mais de um mês na chamada "difusão
vermelha" da Interpol, mas até agora não foi localizado.
O fato de um foragido ser incluído na "difusão
vermelha" o coloca como prioridade nas buscas da entidade em todo o mundo. Assim como
Cacciola, o juiz Nicolau também está nessa categoria. O juiz está foragido há 125
dias.
Cacciola ficou preso em janeiro por 37 dias, acusado de
peculato e gestão fraudulenta, e fugiu do país quando teve sua prisão preventiva
cassada por uma liminar do Supremo Tribunal Federal. A decisão foi depois revogada, mas o
banqueiro já havia sumido. O tamanho do prejuízo à União -R$ 1,6 bilhão- foi um fator
importante para a sua inclusão na lista.
Há pouco mais de 20 dias, o diretor-geral da PF, Agílio
Monteiro Filho, foi à França conversar com a direção da Interpol munido de um dossiê
com informações sobre os crimes dos dois. Saiu dizendo que obteve a promessa de
"empenho máximo na localização" de Nicolau e Cacciola.
A PF elaborou, inclusive, um relatório de serviços prestados na busca e prisão de
italianos no Brasil, como parte do jogo de pressão para tentar agilizar o processo de
localização de Cacciola.
Segundo estimativas informais do Ministério da Justiça, a Itália é hoje o país que
mais se utiliza dos tratados de extradição com o Brasil. Entre todos os estrangeiros
extraditados do Brasil, o maior número é de italianos. Nos últimos dois anos, segundo a
assessoria de imprensa da PF, seis italianos foram presos e extraditados.
Apesar de a PF afirmar que não há pistas sobre o banqueiro,
o seu advogado afirma que ele está em Roma, procurando um apartamento para alugar e se
fixar na cidade. "Vamos fornecer à polícia o endereço definitivo dele, quando ele
o tiver. Só não fizemos isso ainda porque ele está num endereço provisório. Na
Itália nesta época tudo fecha e por isso ele não conseguiu ainda encontrar uma
imobiliária para alugar apartamento", justifica José Carlos Fragoso, advogado de
Cacciola no Rio de Janeiro.
A hipótese de o banqueiro estar na Itália sempre foi
considerada a mais provável tanto pela polícia como pelos procuradores que investigaram
o socorro financeiro do Banco Central aos bancos Marka e FonteCindam.
Isso porque o fato de Cacciola ser cidadão italiano
dificulta sua extradição para o Brasil. Há um tratado de extradição de presos com a
Itália. O acordo prevê que, em caso de o procurado ser cidadão italiano ou brasileiro,
a decisão de extraditar ou não cabe aos respectivos governos. Só que, na Itália, as
leis não permitem a extradição de cidadãos.
Para que o pedido de extradição fosse ao menos feito (o que
ainda não aconteceu), Cacciola precisaria ser encontrado e preso. O que se diz dentro da
PF é que os italianos mostram boa vontade e empenho, mas que poderiam cuidar da questão
com mais "carinho". (Malu Gaspar, AF) |