| Torben Grael e Marcelo Ferreira tentam bi com barco italiano |
01.09.2000
Torben Grael e Marcelo Ferreira
irão ao extremo mais uma vez. Como há quatro anos, em Atlanta, quando conquistaram a
medalha de ouro, competirão em Sydney usando um barco novo, que passou por só um teste
oficial e custa seis vezes mais que os dos concorrentes na Star.
O barco dos brasileiros é somente o segundo protótipo de um modelo em desenvolvimento
pelo estaleiro Lilia, da Itália. Não passam de três os fornecedores nessa classe
olímpica do iatismo: os demais são o Folli (também italiano) e o Mader (alemão).
Em Sydney, Grael e Ferreira serão os únicos entre os representantes de 17 nações a
largarem na raia de Rushcutters Bay com o Lilia.
Se, para terem o equipamento usual os competidores desembolsam US$ 26 mil, o cedido à
dupla nacional consumiu US$ 150 mil. Esse é o valor que, por ora, foi aplicado por três
empresários no projeto, incluindo os moldes e confecção dos protótipos.
A lógica é simples: bem-sucedido no maior evento do planeta, o estaleiro vencedor verá
as encomendas crescerem.
"O desenvolvimento desse barco não foi feito por mim. Tinha um projeto, mas seria
impossível desenvolvê-lo para Sydney. Um grupo de italianos nos apresentou este, que tem
várias coisas que havíamos pensado. Acabamos experimentando, gostamos e apostamos",
disse Torben Grael.
Para serem utilizados em competições oficiais, as embarcações e todos os acessórios
precisam se enquadrar em parâmetros técnicos (comprimento, peso, altura, materiais),
variáveis de acordo com a classe.
"Na Star, o desvio máximo nas medidas do barco (para dois tripulantes) são 6
milímetros", explicou Erik Schmidt, técnico da equipe brasileira. "É uma
margem ínfima, mas o projetista pode trabalhar. Os limites já foram maiores. Acontece
que, cada vez mais, a federação internacional vai apertando."
"Pode-se comparar com a F-1, onde todos os carros seguem parâmetros muito
próximos", completou Torben, medalha de prata em Los Angeles-1984, na Soling,
bronze, em Seul-1988, e 11º em Barcelona-1992 (esta última ao lado de Ferreira), já na
classe Star.
Na construção do barco brasileiro, de acordo com Torben, os italianos aproveitaram-se
dessa "tolerância" prevista nas regras para se fixarem em três pontos.
Primeiro, conseguir estender ao máximo a chamada linha d'água, que é o comprimento da
área do barco que toca na água (quando maior essa linha, mais velocidade, em tese,
pode-se obter). O que demandou outras correções, como a de procurar concentrar no centro
o máximo possível do peso da embarcação e também aprofundar o tamanho da quilha
(peça básica do equipamento).
Foram realizados dois testes do modelo, um deles oficial. Isso ocorreu em agosto do ano
passado, em uma regata pré-olímpica, na própria baía dos Jogos. Grael e Ferreira
terminaram em segundo lugar, superados pelo australiano Colin Beaschel, campeão mundial
em 1998. Ao lado do norte-americano Mark Reynolds, ouro em Barcelona-1992 e campeão
mundial em 1995 e este ano, é apontado como a maior ameaça às pretensões da dupla.
O outro teste, mas com o protótipo de número dois, o de Sydney, teve lugar no lago Como,
na Itália. Grael e Ferreira admitem e, embora paradoxal, parecem estar confortáveis na
posição quase "suicida".
"A maioria costuma querer ter o mesmo equipamento que todo mundo. Dessa maneira, acha
que terá o mesmo desempenho. A gente costuma correr com equipamento diferente",
afirmou Torben. "É uma beleza quando tudo dá certo. Se não der..."
"Este segundo protótipo tem umas modificações, está muito rápido", disse
Marcelo Ferreira. "Na pior das hipóteses, ele vai andar no mesmo nível que os
outros. E há o fator psicológico, de entrarem na raia, como campeões olímpicos, de
novo com barco diferente. Incomoda a concorrência", declarou Erik Schmidt.
O currículo de Ferreira e Grael lhes permite a ousadia. São estrelas no esporte que mais
medalhas de ouro conquistou para o Brasil (quatro). Com dez medalhas no total, a vela só
é superada pelo atletismo (11, três de ouro) como modalidade que mais medalhas assegurou
ao país.
Campeão mundial em 90 e ouro olímpico, Ferreira, 35, defendeu por três anos equipes da
Itália. Grael, 40, é ao lado do nadador Gustavo Borges o brasileiro que mais medalhas
conquistou em Jogos Olímpicos (três para cada).
Grael voltou ao Brasil há poucos meses, depois de três anos na Itália. Na última
America's Cup, a mais tradicional competição de vela oceânica no mundo, atuou como
tático (estrategista) da equipe italiana Prada. Foi elogiado por ter levado o time à
final e, depois, publicamente questionado pelo dono do barco, que o acusou de erros na
decisão, perdida para o neozelandês New Zealand. (José Alan Dias, AF) |
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