20.08.2000
O papa João Paulo 2º encerrou neste (domingo) a JMJ
(Jornadas Mundiais da Juventude Católica), que começou na última terça-feira (15), em
Tor Vegata, subúrbio de Roma. O evento foi chamdo de "Woodstock católico", por
causa da quantidade de jovens de várias partes do mundo.
João Paulo 2º foi recebido durante a missa de forma calorosa pelos mais de 2 milhões de
jovens de 160 países reunidos. Ele pediu ao jovens que se comprometessem com "a
paz", contra ideologias que no século 20 alimentaram "destruição e
ódio".
Os jovens católicos, do Brasil à Alemanha, de Angola à
Holanda, saudaram os princípios evocados pelo papa, entre eles o de estarem
"dispostos a dar a própria vida para defender a paz", como pediu João Paulo
2º, no imenso campo universitário de Tor Vergata.
Os mais de 2 milhões de jovens passaram a madrugada deste domingo em vigília. A
Prefeitura de Roma informou no sábado este é o maior número de pessoas registrado em um
evento na história da cidade.
Durante toda a semana, sob um forte sol, agitando bandeirolas de seus respectivos países
e entoando o hino da JMJ, levas e levas de jovens católicos estiveram Tor Vergata. O
Brasil, maior país católico do mundo, enviou vários grupos à Itália.
A Prefeitura de Roma proibiu o trânsito a cerca de 12 quilômetros do centro romano,
provocando grandes congestionamentos.
O governo providenciou todas as instalações para o encontro. Foram gastos US$ 130
milhões. Além disso, o governo abriu as portas das escolas para alojar os jovens
peregrinos.
Talvez o lugar mais intrigante em Roma, nos últimos dias, tenha sido o enorme
"confessionário ao ar livre", erigido no Circus Maximus, que os romanos
utilizavam para corridas de bigas.
O próximo congresso internacional da juventude católica será feito em Toronto, no
Canadá, no verão de 2002. (Folha On-Line)
20.08.2000
Fé leva dois milhões de
jovens católicos a Roma
Todos aqueles jovens são muito comportados, até demais. Apesar
disso, não deixam de ser bastante barulhentos quando cantam e gritam em altos brados,
agitando orgulhosamente as bandeiras de seu país ou de sua província. Eles também
estão mal barbeados, se vestem de forma desalinhada e estão pouco
"cheiráveis" após uma semana de higiene pessoal sumária. Mas eles também
levam penduradas no pescoço medalhas bentas, rosários e cruzes de madeira.
Por vezes, eles se abraçam e se beijam. Mas fazem isso
diante dos olhos atentos e benévolos de um padre amigo, o qual, logo mais, irá
casá-los. Eles engolem duas torradas no café da manhã e saem andando durante horas
debaixo do sol forte. Mas eles também se calam religiosamente na hora da oração ou
quando o papa se dirige a eles.
O papa João Paulo 2º é o seu tema de conversa predileto,
de agora e de sempre. "Ele é o meu pai, ele é o Guia da Igreja", diz com
emoção Molly, uma americana de 22 anos. Ela conta como chegou a se
"converter", durante as Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) de Denver, em 1993.
"Me senti tomada por uma paz e uma alegria imensas. Experimentei um grande amor pela
Igreja. Entendi que aquela era a minha igreja", conta.
Ludivina, que vem das Filipinas, exibe um "button"
afixado no chapéu onde se lê: "John Paul II, we love you". Ela está
participando das JMJ "para responder ao chamado do papa". Essa garota de estilo
moderno é enfermeira. Ela vive dando risadas com suas colegas e fotografa a toda hora os
monumentos romanos. Ela não pára de falar quando a conversa aborda o tema das JMJ de
Manila, que ocorreram em 1995. Mas seu tom se torna solene quando a conversa diz respeito
a João Paulo II: "Fomos incumbidos de uma missão, a de conservar sua herança e
transmitir a fé".
Kasia, uma loira polonesa de bochechas avermelhadas pelo sol,
vai mais longe: "Estamos aqui para apoiar o nosso papa, por tudo o que ele fez".
Até mesmo Gauthier, um estudante de Lyon que confessa seu ceticismo em matéria de fé,
estima que "João Paulo 2º tem muitos méritos". Embora lamente que o papa não
autoriza o uso do preservativo, ele enumera uma série de argumentos em sua defesa:
"As idéias que ele prega são por demais idealistas, um tanto dogmáticas. Mas elas
se baseiam num bom sentimento. É assim que o papel do papa deve ser".
Johanne, 19 anos, relativiza as declarações de João Paulo
2º: "Podemos conviver todos juntos, não é um pecado. Ouvimos o que diz o papa, e
depois cada um avalia se isso tem a ver com o que temos vontade de acreditar ou de
ser". No entanto, essa estudante francesa oriunda de Puy-en-Velay (Haute-Loire) não
esconde seu fascínio: "Em Paris, nunca pensei que eu ficaria tão impressionada ao
ver o papa passar, ao sentir sua presença ali, tão perto, e ao ouvi-lo se dirigindo a
nós, diretamente. Ver aquela pessoa idosa e todos esses jovens em volta dela gritando seu
nome, é muito impressionante".
Uma imagem bastante previsível
Ao formar multidões de centenas de milhares de jovens
reunidas em torno de seu modelo, os jovens se sentem "menos sós". Este é o
sentimento de Myriam, que veio de Quebec. "Está ficando cada vez mais difícil cada
um praticar a sua fé. Aqui, viemos em busca da Esperança". Uma opinião dividida
por Emmanuel, que mora numa aldeia de 800 habitantes, na Haute-Loire, no sul de Paris.
"Isso reconforta o meu coração", diz, "ver que há tantos jovens que
acreditam na mesma coisa que eu". Esse rapagão de 21 anos freqüenta a missa de
domingo e pertence a um movimento da Ação Católica. Mesmo assim, ele espera dessas JMJ
que elas lhe dêem "um elã, uma motivação".
Através da diversidade da Igreja católica, os jovens
peregrinos das JMJ têm a impressão de estar vivendo de muito perto a globalização.
Mary, que vem da Pensilvânia, nos Estados Unidos, se diz maravilhada com este ambiente de
"celebração mundial". O que a impressiona acima de tudo é de ouvir
"rezar em todas as línguas".
O gosto pela festa se combina com a motivação propriamente
religiosa. Mas a maioria dos jovens presentes nas JMJ parece formada por
"convictos", que já vinham cultivando, em graus diversos, laços com a Igreja
católica. O Padre Pierre é pároco de uma cidade operária da periferia de Marselha.
Embora seu diocese esteja representado por mais de uma centena de jovens nestas JMJ, ele
reconhece que não conseguiu atrair ninguém de sua própria paróquia, apesar de seus
esforços. Após ter confessado jovens franceses durante várias horas, ele comenta:
"eles pertenciam ao que chamamos 'os meios independentes'", uma expressão que,
na linguagem da Ação Católica, designa as categorias mais favorecidas.
Nesse sentido, os jovens voluntários franceses que vieram de
maneira benévola assistir seus colegas, oferecem uma imagem bastante previsível do jovem
católico praticante do oeste parisiense: bermuda, sapatos com sola de pneu, lenço
negligentemente amarrado no pescoço. Muitos deles foram escoteiros, alguns com os
Escoteiros da Europa, outros com os Escoteiros Unitários da França. É um pouco como se
Neuilly, Auteuil e Passy (bairros nobres da região parisiense) tivessem se deslocado até
Roma.
Entretanto, esses jovens não querem passar por carolas. Eles
estão ali para rezar e ver o papa, está certo, mas também para se divertir. E eles
querem ter certeza de que todos sabem disso: "Não deixe de escrever que não somos
uns cristãos tristes. Nós somos uns cristãos brincalhões!". (Xavier Ternisien, Le
Monde/Folha On-line) |