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Grupo da Paraíba toca música italiana dos séculos 16 e 17

21.08.2000

Estudiosos da Universidade Federal da Paraíba acreditam na música antiga, feita até o século 17, como uma boa ferramenta para enfrentar a dureza da vida neste final de milênio. Longe de ser mais uma notícia sensacionalista deste final dos tempos, a proposta – embora não se trate de nenhuma novidade no mundo –, está sendo divulgada no Nordeste brasileiro pelo grupo Camena, formado por professores e ex-alunos da UFPB. O grupo realiza duas apresentações em Olinda, hoje e amanhã, encerrando a turnê regional.

Camena, de acordo com a pianista e professora Heloísa Müller – que toca cravo (instrumento que antecedeu o piano) no grupo –, é o equivalente na cultura latina às mitológicas ‘musas’. O nome sintetiza, de certa forma, a inspiração da musicista e do violonista e também professor Ibaney Chasin ao realizarem uma pesquisa, iniciada há seis anos, sobre a música vocal italiana dos séculos 16 e 17.

O ano de 1995 foi de preparação dos fundadores, por meio de cursos na Itália e Argentina. No seguinte, surgia o grupo de música antiga, com o propósito de pesquisar, realizar e divulgar o repertório renascentista e barroco. “A gente chama a atenção do público de que, no período Humanista, a música não está tão ligada à diversão, mas à educação”, conta a pianista.

Ao cravo de Heloísa e ao chitarrone e chitarra barocca de Chasin, uniram-se o violino e a viola de arco de Renata Simões, o cello de Kalim Campos, a viola da gamba de Rainer Patriota, e as vozes de Ana Luisa Camino (soprano) e Elton Veloso (tenor). A maioria, intérpretes de instrumentos aparentemente estranhos, mas apropriados para o repertório executado pelo Camena.

Alguns instrumentos, tidos como defasados no passado – o cavaquinista Henrique Cazes lembra em seu livro Choro: Do Quintal ao Municipal que o grande maestro Radamés Gnatalli detestava o cravo –, são resgatados para executarem os temas renascentistas e barrocos tal qual foram concebidos nos séculos16 e 17. “O cravo não é apropriado para os desafios da música moderna”, reconhece Heloísa. “Mas o próprio Bach (Johann Sebastian Bach, compositor alemão do século 18) escreveu música para esse instrumento”.

A cravista revela que uma das preocupações do grupo era de que o tipo de música executado atingisse apenas a um público intelectualizado. Mas o período de quatro anos de experiência provou o contrário. “Isso porque é uma música mais para os homens, mais verdadeira”, acredita. “É diferente do aspecto mais formal daquela feita a partir do século 18, que afasta as pessoas”.

O CONCERTO – O Camena chega ao Estado depois de apresentações em teatros de João Pessoa e Maceió. Em Olinda, haverá um elemento de interesse a mais: o próprio local do concerto, o imponente Mosteiro de São Bento, no centro histórico da cidade alta. O espetáculo A Tempo del Core reúne temas de Girolamo Frescobaldi, Claudio Monteverdi, Giulio Caccini, Dario Castello e muitos outros.

Aos espectadores serão fornecidos libretos com as letras de todas as músicas no idioma original (italiano, espanhol ou inglês) e com a tradução em português. O espetáculo, dirigido pelo professor Chasin, conta ainda com o requinte de uma iluminação especial projetada pelo arquiteto Jorge Bweres.

Um dos pontos altos da performance é a versão do grupo para o fragmento da ópera L’Orfeo, de Monteverdi, apresentado em forma de concerto. A peça, escrita em 1607, narra a história de Orfeu, que vai ao reino dos mortos para resgatar a amada Eurídice. Os integrantes do Camena lembram que o tema é ‘um monumento humanista da História das Artes’. (Marcos Toledo, JC).

Serviço

CAMENA – grupo de música antiga - Repertório:

Parte I

Begli occhi (Girolamo Frescobaldi)
Flow my tears (John Downland)
Ricercada quinta (Diego Ortiz)
I saw my lady weepe (John Dowland)
Bel pastor (Claudio Monteverdi)
Cantata humana (Roque Ceruti)
Passacalli della vita (autor anônimo do século XVII)

Parte II

Amor ch’attendi? (Giulio Caccini)
Apria Urania (autor anônimo do século XVII)
Se l’aura spira/ Gioite oh selve (Girolamo Frescobaldi)
Sonata prima à sopran solo (Dario Castello)
L’Orfeu (Claudio Monteverdi)

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