Desde então, a companhia vem
cumprindo uma bela agenda internacional e realiza agora mais uma dessas viagens. Desta
vez, leva duas de suas produções, Pajelança e A Saga de São Jorge, ao
Festival de Teatro Urbano, em Roma, "um festival muito importante no gênero, que
nunca convida gente de tão longe", conta Lígia Veiga ao Estadão, em
entrevista telefônica. As apresentações começaram na quinta-feira e prosseguem até
quarta, no Castelo de Sant´Angelo, quase em frente do Vaticano.
Os 14 membros da Cia. de Mystérios e Novidades voltaram recentemente de uma turnê que
começou na Expo 2000 em Hannover, Alemanha, a convite da produtora Dell´Arte. "O
convite nos surpreendeu, pois essa empresa se caracteriza por produzir música clássica e
balé, e nem sabíamos como eles nos conheciam; depois, descobrimos que um amigo havia
entregue nosso book a eles."
Expo 2000 - Ao lado de um grupo de maracatu, eles abriram a Expo 2000 e
realizaram depois mais quatro espetáculos na Alemanha, dois com Pajelança e dois
com A Saga de São Jorge. "Pajelança nasceu do livro Música de
Feitiçaria no Brasil, de Mário de Andrade, sobre o qual criamos um trabalho
alegórico que percorreu o itinerário Sesc do evento que celebrava Mário de Andrade no
ano passado, sendo mostrado em 35 cidades do interior de São Paulo com enorme
sucesso."
De lá, também com produção da Dell´Arte, os artistas apresentaram Pajelança
na Piazza Navona, em Roma. Depois, seguiram com produção própria para a Áustria, onde
realizaram cinco espetáculos em Graaz e Kumberg. "Em Kumberg, que é pequena, quase
uma vila, a prefeitura bancou parte da montagem, o que muito nos surpreendeu, e a
mostramos num lago."
Foi quando encontraram Franz Zebinger, compositor que está escrevendo a ópera Apocalypse,
para cuja montagem convidou o grupo. "Ele também vai participar do nosso próximo
projeto, A Nave Louca, que contará ainda com meu ex-diretor, Enrico Masseroli; a
idéia é que cada um trabalhará no seu canto, a partir da sua cultura, e nos juntaremos
apenas depois, lá mesmo, para as apresentações." Enrico Masseroli dirige o Teatro
Pirata, uma companhia austro-italiana de teatro de rua com quem Lígia Veiga trabalhou
durante os cinco anos em que viveu na Europa, entre 1985 e 1990.
Ao voltar ao Brasil, Lígia foi trabalhar no Teatro Brincante, de Antonio Nóbrega,
onde encontrou Romero Andrade Lima. "Montamos uma companhia, começamos a desenvolver
uma parceria, e foi lá que o desejo de fazer teatro de rua ficou mais claro." Com os
espetáculos de rua, já foram a Portugal (em Cascais, para o Festival Almada), à
Romênia (Festival de Sibiu), à Alemanha (em Berlim, no Theater der Velt) e à Hungria
(em Nirbartor, para o Festival Flying Dragon).
"O Flying Dragon, totalmente medieval, ocorre numa pequena cidade a cinco horas de
Budapeste, começa com uma parada da qual participam todas as autoridades - tipo prefeito,
ministros - e durante a qual se inaugura o dragão que dá nome ao festival, que é
queimado no rio da cidade ao fim do evento." Lá, eles se apresentaram para um
público de 3 mil pessoas.
"Encontramos até uma família de ciganos que já conhecia o Brasil, pois havia se
apresentado no Festival Internacional de Artes Cênicas, o Fiac, do ano passado."
Lígia Veiga pertenceu ao histórico Grupo Coringa, dirigido por Graziela Rodrigues,
que marcou os anos 70 no Rio. Depois do fim do grupo, veio para São Paulo, onde fundou o
Tesouro da Juventude com Silvia Rosenbaum. Voltou para o Rio em 1997 e atualmente
desenvolve lá o projeto do Condomínio Cultural.
"Com Lia Rodrigues, Enrique Diaz, Pedro Luís e a Parede e Inês Viana decidimos
fomentar a idéia de conseguir um espaço, uma vez que nenhum de nós possui sede para
ensaios, um local que arrumaremos e ocuparemos por dois anos para depois começarmos a
pagar o seu aluguel."
O grupo tentou os armazéns do porto, mas não teve sucesso. "Parece que vamos
conseguir um outro espaço no centro da cidade, mas ainda não está nada certo."
Quando nascer, o novo Condomínio Cultural tem grandes chances de funcionar com uma cara
ano 2000 da velha Grande Cia. de Mystérios e Novidades. (Helena Katz, AE)