ItaliaOggi

 

Luzes em Turim

 27.08.2000


O cineasta Júlio Bressane e a filósofa Rosa Dias varreram Turim em busca de vestígios de Nietzsche. O resultado do périplo chega em celulóide: Dias de Nietzsche em Turim, assinado por ambos, estréia nos cinemas ano que vem. Em entrevista, Bressane conta com que olhos flerta com a filosofia nietzschiana.


Nômade, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche viveu na Itália um de seus períodos mais iluminados. Em Turim, escreveu libelos como Ecce Homo, A Genealogia da Moral e O Anti-Cristo, entre outros. Lá também sofreu curto-circuito: ao ver um cavalo sendo açoitado por seu dono, agarrou-se ao pescoço do animal, em sua defesa. A partir daí, desatinou, assim permanecendo até sua morte, em 25 de agosto de 1900. Na companhia da filósofa e esposa Rosa Dias, o cineasta Júlio Bressane refez os passos de Nietzsche na cidade italiana: visitou o quarto onde morou, deu conta do alfaiate onde, após dez anos, mandou fazer roupa nova, ficou sabendo sobre sua predileção pelos cachos de uva de determinada quitandeira. Os detalhes fazem a diferença no seu mais novo filme, Dias de Nietzsche em Turim, que já está em fase de montagem.

Às imagens, captadas tanto em Turim quanto no Rio de Janeiro, Bressane acoplou textos de livros e cartas de Nietzsche. Em entrevista ao Vida & Arte por telefone, o cineasta admite a dificuldade em levar filosofia para o cinema, comenta sobre o intraduzível pensamento nietzschiano, lança farpas aos confessos nietzschianos: ``Nietzsche não tem seguidores''. Por fim, acredita que o filme tenha funcionado como aprendizado, sugerindo um estudo mais aprofundado sobre a recepção do filósofo alemão no Brasil, a partir das traduções. De sua parte, adianta: fez Nietzsche em português.


Vida & Arte - Por que centrar foco nessa fase específica de Nietzsche?
Júlio Bressane - Desde o final dos anos 80, minha mulher, Rosa Dias (professora do Departamento de Filosofia da UERJ), está preparando um livro sobre Nietzsche. Isso nos levou a Turim. A cidade é um signo importante dentro da trajetória textual e da vida do Nietzsche. Ali ele escreveu algumas de suas principais obras, as coisas se radicalizaram, os paradoxos que representavam o próprio pensamento nietzschiano se harmonizaram e se desarmonizaram ao mesmo tempo. Até que chegou a um ponto extremo: o colapso mental irreversível... Estivemos em 94 em Turim e cumprimos um amplo roteiro feito pela Rosa que compreendia as casas onde ele morou, as livrarias que frequentava, enfim pontos por onde havia passado. Em 97, repetimos a viagem, gravamos mais lugares, outros materiais de pesquisa surgiram e em 99 terminamos esse périplo de Nietzsche por Turim. Reconstituímos quase passo a passo o dia-a-dia dele naquela cidade. Eu tava apenas supervisionando, olhando, mas acabei me envolvendo e de alguma maneira isso foi dado a mim. Por fim, esse filme foi uma maneira de aprender. Mas considero essa coisa toda muito difícil. Nietzsche tem um texto extremamente complexo. Talvez esse seja um dos textos mais complexos de literatura da humanidade. E a minha leitura do Nietzsche é muito superficial e muito inicial. Talvez tudo isso junto fizesse parte do desejo que tive de fazer esse filme.

V&A - No filme, que tratamento você dá a essa complexidade? Como foi levar filosofia para o cinema?
Bressane - Bom, algumas coisas não são possíveis que se explique em palavras, você precisaria ver o filme. E mesmo assim às vezes é difícil se ter olhos pra ver. De qualquer forma, um filme não pode ser nada além de um filme, cinema não pode ser mais que cinema. Você fazer com que o cinema possa aproximar ou sugerir o que seja a filosofia já é uma tarefa muito difícil, pelo antagonismo desses meios. Então, se eu puder sugerir um único conceito, dos tantos que o Nietzsche trabalhou através de imagens, já seria uma coisa extraordinária. Meu filme gira em torno de conceitos como eterno retorno, amor fati, apolíneo e dionisíaco... São textos do Nietzsche que se articulam, cartas, fragmentos póstumos, algumas páginas dos livros que ele escreveu em Turim, como por exemplo o Ecce Homo, A Genealogia da Moral, O Anticristo, Nietzsche contra Wagner. O ator Fernando Eiras vai narrar esses textos, o Nietzsche em português, que é outra questão.

V&A - Como assim?
Bressane - O Nietzsche começou a ter uma recepção em língua portuguesa quase que simultânea em relação à Europa, ainda que em escalas evidentemente bem menores. Em 1895, o grande, o ilustre polígrafo João Ribeiro escreveu um texto chamado Frederico Nietzsche, ou seja, o Nietzsche em português. Logo em seguida o José Veríssimo fez umas resenhas e umas introduções para uns livros do Nietzsche que estavam sendo publicados na França. Quer dizer, a recepção do Nietzsche em língua portuguesa começa com o Nietzsche vivo. Então existe hoje um corpo do Nietzsche em português, por mais vulnerável que esse corpo seja em termos de tradução. Porque o Nietzsche é um tipo de escritura quase intraduzível, dado o caráter extremo de poesia e prosa analítica que constitui sua obra. O texto do Nietzsche é um alto texto de uma alta língua pra filosofia e pra poesia que é o alemão. Mas ele foi divulgado e está sendo estudado no mundo inteiro. Até no Japão, em ideogramas. Acontece que são traduções. Aí é que começa uma operação difícil. Talvez esse corpo do Brasil ainda seja vulnerável, vamos dizer quanto ao teor da qualidade, da exigência do texto original do Nietzsche. Mas seja como for esse corpo em língua portuguesa existe e já está sendo disseminado há mais de 100 anos, entendeu? Então ele certamente fornece alguns instrumentos de pensamento que podem, dentro da língua portuguesa, como foi dentro das línguas francesa e italiana, ser importantes.

V&A - Que relação é estabelecida entre a cidade e o pensamento nitzscheano?
Bressane - As imagens da cidade sugerem uma narrativa e eu criei algumas imagens que me foram sugeridas por essa narrativa e esses lugares. Filmei em Turim e no Rio de Janeiro e fiz esse estranhamento, essa derrapagem geográfica e linguística, porque é o Nietzsche em português. Esse deslocamento relacionado ao que filmei no Brasil não busca falsear Turim. Há uma diferenciação geográfica e esse movimento de diferenciação é o Nietzsche em português.

V&A - E o elenco? Fernando Eiras é Nietzsche...
Bressane - Além do Fernando Eiras tem várias outras participações. Em Turim, o Nietzsche ficou hospedado numa casa de uma família italiana chamada Fino. Ele morava num quarto na casa dessa família e essa família teve importância na convivência com ele, sobretudo no final, quando sofreu o colapso. Essa família é constituída de quatro pessoas: o sr. e a sra. Fino e as duas filhas deles. Esses quatro personagens foram vividos por Paulo José, Tina Novelli, Leandra Leal e Mariana Ximenes. O Nietzsche foi algumas vezes a um alfaiate em Turim onde depois de dez anos fez uma roupa nova, com a qual se sentiu muito bem. Esse alfaite é representado pelo Pascoal Vilaboim. Tem também uma participação de uma fruteira, dona de uma quitanda, que vendia os cachos de uva que ele tinha predileção. Essa quitandeira é vivida pela Isabel Coimbra. Já encerramos as gravações, estamos agora em fase de montagem. A estréia é só para o ano que vem.

V&A - A leitura de Nietzsche arrebatou muita gente no meio artístico. Quais os textos de sua predileção?
Bressane - Zaratustra, sem dúvida, Ecce Homo... São livros que são quase lugares comuns do gosto de quem leu Nietzsche. Mas ultimamente, que foi quando me aproximei mais do Nietzsche, fiquei impressionado com a força poética dessa fase final de Turim, sobretudo quando escreve os chamados ``Bilhetes da Loucura'', aqueles que há 40, 50 anos não faziam sentido, eram considerados textos de um demente, a prova de sua loucura. Esses textos são os mais impressionantes pra mim, pela firmeza e antecipação poéticas. E falo isso sem conhecer alemão. Conheço os comentários, as traduções das traduções e os li em francês. Mesmo assim, a carga de sentido poético que tá embrenhada nesses últimos textos é o periélio do Nietzsche, o ponto mais próximo do Sol.

V&A - Vou te jogar uma pergunta feita aos filósofos no caderno Mais! da Folha de S. Paulo: vivemos uma era nietzscheana?
Bressane - De maneira nenhuma. É uma época anti-Nietzsche. Olha, uma coisa é você ler os textos do Nietzsche, gostar e até mesmo se fascinar, se apaixonar pelo Nietzsche. `Eu sou um nitzscheano'! Isso é um absurdo! Digo a você: não sou um nietzscheano, embora ame o Nietzsche e ame quem ama o Nietzsche. Agora, o Nietzsche é uma coisa muitíssimo difícil, muitíssimo complexa, ele é justamente o início do pensamento complexo. Então, você pra ser um leitor de Nietzsche tem que ter primeiro bastante experiência de leitura e uma alta experiência da leitura do texto próprio de Nietzsche. Então estudar, analisar o Nietzsche é uma coisa, ser nietzscheano é outra completamente diferente. Aliás, a filosofia dele e ele próprio jamais pregariam essa coisa de nitzscheano. Jamais. É um homem sem seguidores. Ele mostra como o homem pode fazer pra ter seu próprio caminho, isso sim. Agora, vivemos uma época anti-Nietzsche. Nietzsche não é um homem do controle pela média, pela mediocridade, pela banalização, essa engrenagem capitalista que colocou todo mundo no mesmo patamar, essa massificação, essa União Européia... Hoje há uma assepsia no mundo. Nietzsche é o oposto disso. Por isso sua importância. Ele ainda é uma equação de desafio a tudo isso que tá aí colocado. (
Ethel de Paula, Jornal O Povo)

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