03.09.2000
"Nunca falta a ninguém uma boa razão para se matar", escrevia Cesare
Pavese, em 1938, no seu diário "Il mestiere di vivere" ("O ofício de
viver"). No domingo passado, dia 27, fez meio século que, refugiado num quarto de
hotel em Turim, fiel à tradição piemontesa de não incomodar os outros, o poeta
finalmente encontrava sua própria boa razão.
O suicídio de Pavese, evocado estes dias nas páginas de "La
Stampa" por Norberto Bobbio, seu aluno de inglês e companheiro de juventude,
converteu-o de imediato em personagem de culto, em figura emblemática da mocidade
antifascista e da resistência, dos que sobreviveram à guerra para se lançar nos
conflitos ideológicos da Guerra Fria.
Ele não terá sido o maior dentre os poetas italianos de período que
havia já conhecido Quasimodo, Ungaretti, Eugenio Montale, Mario Luzi e logo descobriria a
sombra perturbadora de Pier Paolo Pasolini. Nem o testemunho de suas narrativas seria mais
eloquente do que as de Gadda, Carlo Levi, da grande Natalia Ginzburg de "Lessico
Famigliare" ou, em registro diverso, de Dino Buzzati, de Giorgio Bassani, de Italo
Calvino.
Impossível não aplicar a ele o que de Byron diria outro grande italiano,
que viveria e morreria inédito naqueles anos em Palermo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa. O
futuro autor de "Il Gattopardo" observava que, justamente por não estar entre
os deuses supremos, Byron encarnou completamente o romantismo. "Shakespeare suprema
os elisabeteanos e Milton, os puritanos (enquanto), Byron é o romantismo feito
homem". Lampedusa acrescentava que, da mesma forma que Tasso e Verlaine, Byron era
desses poetas cuja vida é mais importante do que a obra.
Algo parecido se poderia talvez dizer, se não da vida, ao menos da morte
de Pavese. Ao escolher o momento de deixar a vida, o poeta de "Lavorare Stanca"
dava autenticidade definitiva ao que não passava para outros de tema de intermináveis
discussões nos cafés. Estava-se então nos anos de ouro do existencialismo, quando Camus
declarava em "O Mito de Sísifo" que, no fundo, o único problema filosófico
era indagar por que o homem não se suicida.
Stefan Zweig, Walter Benjamin, Joseph Roth escolheram morrer com o mundo
que os nazifascistas destruíam naquele momento da guerra. Outros, terminado o conflito,
não conseguiriam mais viver com seus fantasmas. Paul Celan, após compor a
"Todesfugue", decidiria uma noite afogar seu desespero nas escuras águas do
Sena, ao passo que um conterrâneo de Pavese, Primo Levi, tendo sobrevivido a Auschwitz,
iria, muitos anos mais tarde, mergulhar no poço do elevador de seu edifício em Turim.
Não parece ter sido esse o caso de quem, aos 41 anos, acabava de
conquistar o prêmio Strega pelo livro "La Bella Estate" e dirigia uma coleção
da editora Einaudi. Não lhe faltavam as desilusões amorosas, a última com uma atriz
americana, mas isso não parecia motivo suficiente.
A militância antifascista motivara sua prisão, em 1935, junto com Bobbio, Einaudi, Carlo
Levi, todos delatados por Pitigrilli, escritor que teve certa voga no Brasil. Menos
afortunado que Bobbio, amargou como Levi a deportação interna, da qual este último
traria seu "Cristo se deteve em Eboli". Era, como muitos naquele tempo, membro
do Partido Comunista, mas o partido recusara renovar-lhe a carteirinha, por suspeitar de
sua heterodoxia estética.
Quem sabe o suicídio de Pavese viesse da consciência de que "mais
triste do que fracassar nos seus ideais é tê-los realizado", a sensação de nada
mais ter a dizer, de querer mudar, mas suspeitar de que não seria capaz, de que, como
sugeriu em "La Luna e i falò", não se pode voltar para trás e é impossível
reviver raízes hoje mortas. Em 1950, os militantes condenaram o suicídio como deserção
do dever social e ideológico. Agora que a banalidade e o oportunismo reduziram o que foi
um dia o maior partido comunista do Ocidente a congressos nos quais marqueteiros
americanizados adotam, em vez da foice e do martelo, o slogan "I care", a gente
se pergunta se a intuição do poeta não o poupou desse triste destino, preservando-o
como o eterno adolescente e explicando por que, com mais de 4 milhões de cópias
vendidas, ele é o mais lido dos italianos do após-guerra. Nunca o saberemos porque ele
não deixou explicação, apenas umas linhas talvez mais irônicas do que patéticas na
página de rosto do seu livro predileto, "Diálogos com Leucò": "Perdôo a
todos e a todos peço que me perdoem. Está bem assim? Não façam muita fofoca".
(AF)
Autor: Rubens Ricupero, 63, secretário-geral da Unctad
(Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ex-ministro da
Fazenda (governo Itamar Franco), é autor de "O Ponto Ótimo da Crise" (editora
Revan). |