04.09.2000
Livro de Lucas Figueiredo, em clima de
romance político-policial, desvenda relações do esquema PC Farias
Morcegos Negros PC Farias, Collor, máfias e a história que o Brasil não conheceu
(editora Record), o livro do jornalista Lucas Figueiredo, coloca em cena um personagem bem
conhecido dos brasileiros: Paulo César Farias, o PC, ex-tesoureiro de Fernando Collor.
Cruza dados, do Brasil e internacionais, especialmente de fontes policiais, para confirmar
o que todo mundo sabe: o envolvimento de PC com negócios escusos, sem que se consiga
dimensionar até onde eles vão. O resultado é a confirmação de todas as suspeitas e
muito mais do que se imagina: como, por exemplo, documentadas ligações com as máfias
italianas e lavagem de dinheiro vindo do narcotráfico. Tudo terminando sempre em
histórias mal contadas, sem apuração e mistérios. Lucas Figueiredo lança seu livro
amanhã em Belo Horizonte, às 19h30min, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes. A
noite de autógrafos faz parte do Sempre um Papo, uma promoção do ESTADO DE MINAS,
Fundação Belgo-Mineira, AB Comunicação e revista República .
O último dos mistérios envolvendo PC não é, como pode parecer, a
própria morte de Paulo César Farias e de sua namorada Suzana Marcolino, mas o destino do
dinheiro arrecadado pelo esquema encabeçado pelo tesoureiro. E as cifras dos valores
conseguidos com doações de campanha, achaques e corrupção, entre 89 e 92 (da Campanha
de Collor ao impeachment), chegam a US$ 1 bilhão, segundo os exagerados; US$ 600
milhões, segundo quem conhece bem o caso; ou, no mínimo, US$ 400 milhões, segundo as
estimativas mais modestas. O personagem em questão é um empresário que havia falido
suas empresas e que, em 84, num momento de dificuldade nos negócios, se interessa pela
política, passando a atuar como tesoureiro de campanhas eleitorais,
Paulo César Farias se torna, então, tesoureiro regional em Alagoas da
campanha de Paulo Maluf na última eleição indireta para a presidência da República.
Conhece Collor e atua na posição de arrecadador de dinheiro de seus colegas empresários
para viabilizar campanha do amigo ao governo de Alagoas. Com Fernando Collor eleito, a
dupla se viu projetada no cenário nacional e Paulo César se tornou um dos principais
nomes do staff de Collor, com direito a indicar o irmão, Augusto Farias, a secretário de
Obras de Alagoas. A dupla iria repetir a parceria na campanha presidencial de 89. A partir
daí... veja o resto no livro! Que é ótimo, bom de ler e devastador.
Lucas Figueiredo, autor de Morcegos Negros , é mineiro e tem 31 anos. A
obra surgiu a partir da cobertura da morte de PC Farias e, especialmente, com as
revelações das ligações do ex-tesoureiro de Collor com a máfia italiana. A partir
daí, o jornalista foi atrás da história, visando inclusive um livro. O ponto de partida
foi a pergunta sobre o paradeiro do dinheiro de Farias ( US$ 35 milhões em contas no
exterior, que acabavam em Miami, informação oferecida de bandeja ao Brasil, mas houve
falta de vontade em recuperá-lo e levar a investigação a frente. Como as suspeitas
apontavam para Collor, a Itália achou que a investigação deveria ser feita pelo Brasil
)
As descobertas italianas aconteceram por acaso, seguindo a trilha de
movimentações de mafiosos italianos no Brasil, esbarrando em coisas muito graves , como
frisa Lucas Figueiredo: Aviões de PC Farias utilizando aeroportos brasileiros, de uso
exclusivo de autoridades, não sujeitos a controles rotineiros, por diversas vezes, para
viagens de um traficante italiano , apontando para a suspeita de tráfico de drogas.
Imaginar um avião da pessoa mais próxima ao presidente sendo usado deste modo traz,
inevitavelmente, a suspeita de que estaria havendo facilidades para a prática dentro do
governo do Brasil , avalia.
O Brasil é o paraíso para os mafiosos italianos , afirma Lucas
Figueiredo, explicando que o grupo é a principal, mas não a única, máfia existente no
País. Sua presença cresceu nos últimos anos tornando-se uma das principais
preocupações de certos setores da Polícia Federal e do serviço de inteligência do
Governo Federal. Com relação às autoridades responsáveis pela apuração dos crimes, o
jornalista identifica três grupos: Coniventes, que às vezes fazem parte do esquema;
negligentes, que preferem fechar os olhos; e bastante gente que luta de forma abnegada
para combater o crime. Mas estes últimos têm menos força que os outros dois grupos .
Para o jornalista, a versão oficial de que não existem provas ( elas
existem ) ligando PC Farias e Collor, tem uma explicação: Má vontade das autoridades em
apurar o caso. Nossa legislação é feita para beneficiar as elites. Em outros países
tem-se colocado gente de muito poder e dinheiro na cadeia. Porque isso não acontece no
Brasil? Cadeia não foi feita para esta gente . Mais: Todos os escândalos dos últimos
anos grampos do BNDES, CPI do Narcotráfico etc vão bater em alguém ligado ao esquema
PC/Collor, que continua de pé. Enquanto o Brasil não resolver este caso, coisas
semelhantes vão continuar se reproduzindo, avisa. (Walter Sebastião, AEM)
GLOBALIZAÇÃO
DO CRIME
Leia alguns trechos da entrevista com Lucas
Figueiredo
O caso PC/Collor É o ponto mais alto que já
chegou a prática da corrupção e das negociatas no Brasil. Ele mostra que a corrupção
está ligada ao esquema do crime organizado internacional. O Brasil é uma mina de
dinheiro e negócios e, quando o Collor abriu oportunidade de negócios, muitos quiseram
vir para cá. Ver junto com ele uma pessoa como PC Farias, sem escrúpulos, com acesso ao
Palácio do Planalto, significada oportunidade de lavar dinheiro e entrar nos negócios de
privatização. A opção dos mafiosos, especialmente italianos, pelo País se deve ao
fato do Brasil ser um lugar com infra-estrutura de primeiro mundo, com fronteira para
vários outros países, onde sabidamente a justiça é incompetente. E, assim, eles
poderiam morar aqui e continuar movimentando seus negócios criminosos.
Impunidade O sistema criminal
(Polícia Federal, Ministério Público, Justiça, Ministério da Justiça e Palácio do
Planalto) brasileiro está despreparado para combater o crime sofisticado. Conheci muita
gente da PF que trabalhou bem mas a instituição não quis trabalhar. Falta preparo,
falta vontade política, a legislação é antiquada, e, além disso, crimes que vão
bater na elite ninguém tem interesse que vá para frente. Mas não sou desesperançoso.
Tudo depende da sociedade fazer pressão para que as coisas mudem. O livro é para dar um
tapa na cara das pessoas, para provocar indignação, para elas saberem o que está
acontecendo no Brasil. Espero que provoque indignação. Não espero que as coisas mudem a
curto prazo mas estou mostrando a sociedade como funciona o sistema de impunidade.
Lavagem de dinheiro O crime organizado
se globalizou. Ele é hoje uma grande holding que envolve tráfico de drogas, de armas e
lavagem de dinheiro. E hoje é fácil lavar dinheiro com os mecanismos que existem no
mercado financeiro. Com um telefonema o dinheiro circula pelo mundo e fica difícil
identificar a origem dele. A globalização do crime é um desafio para todos os países.
Só que alguns já perceberam isso. No Brasil esta discussão ainda não chegou. Com a CPI
do Narcotráfico houve um início de discussão sobre o assunto e as pessoas puderam ver
que existem pessoas ligadas ao crime no Congresso, no Judiciário, nas prefeituras etc.
Quanto mais demorarmos para enfrentar o assunto, mais vamos sofrer esta invasão do crime
nas instituições brasileiras.
Jornalismo brasileiro O maior mérito
é que existe mais condições para quem quer trabalhar com jornalismo investigativo.
Casos como Luiz Estevão, Collor, Lalau, começaram com denúncias da imprensa. O problema
é que todos os jornais e revistas são iguais. Trabalham sempre de olho no concorrente e
não querem apostar num trabalho diferenciado. O jornalismo investigativo é lento, caro.
Os donos da imprensa precisam investir mais neste tipo de trabalho. Existem bons
jornalistas investigativos que precisam de mais espaço. Acho, ainda, que a imprensa não
pode ser encarada como salvadora da pátria. Ela pode revelar as coisas. Mas não muda
nada. É frustrante você fazer uma denúncia e ela não ter repercussão. Mas as
autoridades só vão agir se houver pressão da sociedade. |