27.08.2000
INFÂNCIA AMEAÇADA
Crimes recentes no país levantaram questão da
legitimidade da publicação do nome de pedófilos
Exposta no ângulo mais luminoso da sala, a imensa fotografia
de Lorenzo Paolucci, 12, é a primeira imagem que se vê ao entrar no escritório da Via
del Corso, no centro de Roma.
Lorenzo havia acabado de completar 12 anos e estava para embarcar com os garotos da sua
escola para Paris. Conheceriam o Louvre e a Eurodisney.
Mas ele não chegou a conhecer a capital francesa: dois dias antes da viagem, foi
violentado e morto por Luigi Chiatti, 68, um aposentado de Florença condenado várias
vezes por pedofilia.
Lorenzo foi a terceira vítima de Chiatti, mas, só após sua morte, a polícia italiana
descobriu a conexão entre os crimes e a casa onde, há anos, escondia-se Chiatti.
O fato de Chiatti já ter sido condenado por crimes ligados à pedofilia e ser libertado
em razão de sua idade gerou indignação na Itália.
O pai de Lorenzo, Luciano Paolucci, 46, advogado, dirige atualmente um dos principais
movimentos antipedofilia da Itália, a "Associazione G. Bambino".
"Sou a favor da publicação da lista com o nome das pessoas condenadas por
pedofilia, pois é o único instrumento que temos para defender nossos filhos de pessoas
que o Estado liberta depois de poucos anos de prisão", diz.
"E também para que as crianças possam ser salvas da atrocidade de pessoas que
deveriam estar isoladas do convívio social."
Na última semana, a Itália voltou a ser palco de dois crimes cometidos por pedófilos.
As vítimas foram Graziella Munsi, 8, e Hegere Kilani, 5, uma menina de origem tunisiana
que vivia em Impéria, norte do país.
A comunidade tunisiana na Itália é uma das mais numerosas: são 700 mil pessoas, mas nem
todas conseguiram se integrar completamente à sociedade italiana.
Os pais de Hegere sentiam-se privilegiados. Assim que chegaram ao país, há quase dez
anos, foram chamados para trabalhar na Ligúria e receberam uma casa para morar em
Impéria, pequena cidade medieval perto de Gênova.
Até que, há alguns dias, um imigrante ilegal romeno aproximou-se de Hegere alegando que
o pneu de sua bicicleta estava quase vazio e que ele poderia enchê-lo em um lugar
próximo à torre da cidade, não muito longe do centro.
Hegere foi encontrada somente 12 horas depois, com nove cortes profundos no corpo e sinais
de violência sexual. A morte dela trouxe à tona a questão da pedofilia e gerou
conflitos até mesmo entre as polícias italiana e francesa, pois o romeno havia sido
preso em Nice, no sul da França, e expulso pelas autoridades francesas.
Mas ele não foi mandado para a Romênia. Foi enviado para a Itália, onde afirmou morar.
Dois dias depois da morte de Hegere, o corpo de Graziella foi encontrado por policiais num
bosque de Andria (sul).
Graziella foi, segundo a confissão de Pasquale Tortora, 20, violentada e morta.
Os crimes chocaram a opinião pública e levantaram a questão da legitimidade da
publicação dos nomes de pedófilos condenados ou em prisão domiciliar, a exemplo do que
ocorreu recentemente no Reino Unido, provocando distúrbios sociais e protestos.
Enquanto eram discutidas as consequências morais e legais da divulgação dos nomes, um
jornal recém-fundado chamado "Libero", de Milão (norte), publicou parte da
lista contendo os nomes, sem as respectivas fotos, de pessoas condenadas por pedofilia.
Alguns deles eram tipicamente italianos, como Rossi ou Bianchi, que possuem centenas de
homônimos. A divulgação provocou a revolta dos que se viram expostos publicamente pelo
único crime de possuir o nome errado.
A divulgação foi criticada pelo ministro da Justiça da Itália, Piero Fassino.
"Nos países onde foram divulgadas listas de pedófilos condenados, não há prova de
que o número de crimes contra crianças tenha diminuído", disse.
Segundo a ministra da Solidariedade Social, Livia Turco, existem na Itália cerca de 2.000
processos por ano envolvendo abusos sexuais contra menores. "Em 1998, o Parlamento
aprovou uma lei mais severa contra a pedofilia, uma das mais severas da Europa."
Mas, para a ex-presidente da Câmara dos Deputados Irene Pivetti, isso não é suficiente.
"São necessárias leis de imigração mais severas, pois muitos pedófilos vêm do
Leste Europeu. É necessário o isolamento social definitivo", acredita ela.
A deputada da Aliança Nacional, partido de direita, Alessandra Mussolini concorda com
Pivetti, mas vai além. Propõe que os pedófilos condenados sejam submetidos a uma
castração química, o que suscitou protestos.
O ministro do Interior, Enzo Bianco, reuniu-se ontem com o diretor da Criminalpol
(polícia federal italiana), Antonio Manganelli, e determinou uma série de medidas a ser
tomadas. Uma delas é a criação de um grupo de policiais preparados, trilíngues e
especializados em casos de pedofilia para agir em escolas.(Lucia Helena Issa, de Roma. AF) |