29.08.2000
CIDADE DO VATICANO - O papa João Paulo II dará no
domingo o primeiro passo para transformar dois de seus antecessores em santos -- um deles
um ultraconservador do século 19, acusado de anti-semitismo, e o outro um progressista do
século 20, gentil e amado por seus fiéis.
A beatificação dos papas Pio IX e João XXIII, no dia 3 de
setembro, é vista como um ato de malabarismo histórico e teológico que visa satisfazer
tanto aos católicos liberais quanto aos tradicionais.
Os dois foram papas totalmente distintos, que exerceram o
pontificado em épocas muito diferentes -- Pio 9o entre 1846 e 1878 e João 23 de 1958 a
1963. Além disso, diferiam completamente em suas visões quanto à autoridade da Igreja.
Pio IX, nascido Giovanni Maria Mastai-Ferretti, foi o último
"papa rei"a reinar na Itália central como monarca temporal.
Ele centralizava o poder, se opunha terminantemente à
tolerância religiosa, publicou o Sílabo de Erros de 1864 para combater o modernismo e
convocou o Concílio Vaticano Primeiro para definir a doutrina da infalibilidade papal em
assuntos de fé e moral.
João XXIII, nascido Angelo Giuseppe Roncalli, convocou o
Concílio Vaticano Segundo (1962-1965), que inseriu a Igreja no mundo moderno, pôs fim ao
uso do latim nas missas e conferiu mais poder aos bispos.
Uma das frases favoritas de Pio IX, que ele usava
frequentemente para cortar qualquer conversa sobre mudanças, era: "Eu sou a Igreja.
Eu sou a tradição".
Já João XIII gostava de ouvir idéias novas e dizia a seus
visitantes: "Vamos conversar de homem para homem. Tenho dois olhos e dois ouvidos,
exatamente como você".
Em 1878, quando o féretro de Pio IX foi carregado pelas ruas
de Roma, uma multidão de nacionalistas irados com a oposição que ele fizera à unidade
italiana tentou atirá-lo no rio Tibre. A morte de João XXIII, apelidado de "o bom
papa", em 1963, levou a cidade inteira às lágrimas.
Especulando sobre os motivos da decisão de beatificar Pio IX
na mesma cerimônia de João 23, o semanário católico britânico The Tablet disse, em
editorial: "Só pode ser vista como decisão política, que visa dar um contrapeso
conservador e reacionário à beatificação de João XXIII ... É impossível deixar de
concluir que a beatificação de Pio IX é obra de um pequeno grupo de
ultraconservadores". (Philip Pullella, Reuters) |