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Festival de Cinema de Veneza - 30.08 a 09.09.2000

11.08.2000 

Brasil vai a Veneza com "Rap do Pequeno Príncipe..."

Filme de Paulo Caldas e Marcelo Luna representa País na 57º edição do festival de cinema, cuja mostra competitiva terá longas de Manoel de Oliveira, Robert Altman, Stephen Frears e Gabriele Salvatores

São Paulo - Começa no dia 30, com a estréia mundial do novo filme dirigido e interpretado por Clint Eastwood - Space Cowboys. O título promete. O xerife Clint, autor dos mais belos westerns dos últimos anos, retoma a saga dos astronautas, comparando-os a caubóis do espaço. E termina no dia 9 de setembro, com Vengo, do espanhol Tony Gatlif. Entre esses extremos, o 57.º Festival de Veneza - ou a Mostra d´Arte Cinematografica di Venezia, como aparece oficialmente no calendário de eventos da Biennale di Venezia -, vai transformar o Lido na capital mundial do cinema. Dezenove filmes de 11 países participam da disputa pelo Leão de Ouro.

Como santo de casa faz milagre, a Itália, sede do festival, oferece a maior representação - quatro filmes em competição, contra nenhum no Festival de Cannes, em maio. Os Estados Unidos concorrem com dois e a França com cinco, sendo três co-produções (com Hong Kong e a China, com a Colômbia e com Portugal, Espanha e Brasil). Justamente o Brasil - o único filme autenticamente brasileiro em Veneza, este ano, será O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna, que passa na mostra paralela Nuovi Territori. Mas o Brasil participa indiretamente de dois filmes da competição - Palavra e Utopia, do nonagenário Manoel de Oliveira, tem capitais brasileiros na produção, além do ator Lima Duarte à frente do elenco. Ainda mais atravessada é a presença brasileira em Before Night Falls, de Julian Schnabel, que traz no elenco Javier Bardem, Johnny Depp e... Hector Babenco.

Há nomes importantes na mostra competitiva - Robert Altman, com Dr. T and the Women, que coloca Richard Gere às voltas com Helen Hunt, Farrah Fawcett, Laura Dern e Liv Tyler; Stephen Frears, com Liam; Raoul Ruiz, com Fils de Deux Mres ou Comédie de l´Innocence, com Isabelle Huppert; e Manoel de Oliveira, com seu filme que não ficou pronto para Cannes, Palavra e Utopia, sobre o Padre Antônio Vieira. Outros diretores que participam da competição - Xavier Beauvois, com Selon Matthieu, interpretado por Nathalie Baye; Marco Túlio Giordana, de Um Delito Italiano (sobre o assassinato de Pier-Paolo Pasolini), agora concorrendo com I Cento Passi; Gabriele Salvatores, de Mediterrâneo, com Denti; e Barbet Schroeder. O diretor franco-iraniano concorre com um filme que não deixa de ser antecipadamente curioso - La Vierge des Tueurs, com elenco e paisagens colombianas.

Fora de concurso serão exibidos seis filmes, dos quais quatro se antecipam como obras merecedoras de toda atenção - o novo Woody Allen, Small Time Crooks, o novo Claude Chabrol, Merci pour le Chocolat (com Isabelle Huppert, de novo), o documentário Il Dolce Cinema, de Martin Scorsese, que faz o inventário dos melhores filmes italianos, e Brother, de (e com) Takeshi Kitano. Só esses quatro já justificam um festival. E o que dizer da mostra Sogni e Visioni? Vai exibir Time and Tide, do mestre de ação Tsui Hark. (Luiz Carlos Merten, AE)


26.07.2000 

Realidade brasileira em Veneza
Festival italiano verá documentário sobre a periferia de Recife

O rap de sotaque pernambucano vai ser ouvido nas distantes terras italianas. O documentário O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas, dirigido por Paulo Caldas (de Baile perfumado) e Marcelo Luna, foi selecionado para a mostra Novos Territórios, não competitiva, do Festival de Veneza. É o único representante brasileiro confirmado até o momento na seleção oficial da 57ª edição do evento, que acontece entre os dias 30 de agosto e 9 de setembro no Lido veneziano. A lista completa de filmes será divulgada sexta-feira, numa entrevista coletiva em Roma.

O documentário da dupla recria, de forma contundente, o histórico de dois jovens nascidos na cidade de Camaragibe, na periferia de Recife. Apesar de compartilharem as mesmas origens, Helinho e Garnizé tomaram caminhos opostos: um se torna justiceiro e o outro baterista no grupo de rap As Faces do Subúrbio. Veneza promete ser o ponto de partida da carreira internacional de O rap do pequeno príncipe, que no Brasil já ganhou os prêmios de público e de renovação de linguagem no festival É Tudo Verdade, e o de melhor produção do Festival Internacional de Brasília. O filme tem lançamento comercial previsto para novembro, depois de ganhar pré-estréia de luxo no Festival do Rio 2000, em outubro.

"Estou muito curioso para ver qual será a reação do público europeu. A impressão que tenho é que, em função de sua própria temática, ele será melhor compreendido pelo público dos países que têm uma ligação mais acentuada com o movimento hip hop, de forte expressão social, como na França e na Itália", explica Caldas. O diretor acredita que o interesse por este tipo de filme está crescendo em determinados mercados estrangeiros. "Ninguém é ingênuo de negar que há uma grande curiosidade pela temática social dos filmes brasileiros. É quase uma cobrança", diz, lembrando os casos recentes de Eu, tu, eles, de Andrucha Waddington, que seduziu o último Festival de Cannes, e Central do Brasil, que ganhou o Festival de Berlim de 1998.

Veneza será o primeiro ponto de parada do roteiro internacional de O rap do pequeno príncipe que, até agora, já confirmou presença nos festivais de Biarritz (França) e Amsterdam (Holanda). "Claro que os festivais estrangeiros são importantes para o filme e para o cinema brasileiro, mas eu me sentiria muito mais orgulhosa se o público brasileiro for assistir ao Rap", analisa a produtora Clélia Bessa, da Raccord. "Foi uma pena, por exemplo, não termos entrado no Festival de Gramado, que é um evento nacional importante. Seria uma coroação do nosso trabalho aqui. Porque o filme apresenta o Brasil de violência que estamos acostumados a conhecer, mas também apresenta soluções no Garnizé, que é um personagem positivo".

A realidade social brasileira, ou a visão dos cineastas locais sobre ela, está em alta nos festivais internacionais. Cronicamente inviável, de Sérgio Bianchi, outra produção que investiga as mazelas do país, também havia sido convidado para integrar a seleção oficial de Veneza. Mas o diretor declinou do convite, optando por exibir seu filme no também prestigiado (porém menos coberto pela mídia brasileira) Festival de Locarno, na Suíça. "Em Veneza, Cronicamente inviável entraria numa mostra paralela importante, mas não competitiva. Em Locarno, eu estarei competindo", justifica Bianchi.(Carlos Heli de Almeida, AJB)

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