30.08.2000
A ciência se sustenta nas descobertas casuais. Foi assim que
um arqueólogo norte-americano estudando as origens de Veneza esbarrou em pistas que
sugerem estar condenado o plano bilionário de construir 79 comportas para salvar a cidade
das inundações.
Enquanto trabalhava nas obras de restauro de uma igreja, Albert Ammerman, da Universidade
Colgate, descobriu um fosso onde jazem os restos mais antigos de ocupação humana do
arquipélago veneziano -uma calçada de pedra datada do século 2º.
Essa descoberta e outras mostram que, era após era, a gente que vivia ali teve de contar
com toneladas de areia, sedimentos, pedras e madeira para fortificar suas ilhas
alagadiças e evitar que suas casas inundassem. E indicam que o plano das comportas pode
não resolver o problema.
É sabido há muito que a cidade se assenta sobre milhões de estacas de madeira fincadas
no solo pantanoso. Mas a idade e a abundância de outros materiais está agora sendo
revelada.
As estruturas achadas estão permitindo a Ammerman e seus colegas dos EUA e da Itália
calcular a taxa passada e futura de afundamento. Veneza está afundando mais rápido do
que nunca e as águas do mar Adriático podem devastá-la. A situação vai piorar com a
subida do nível do mar causada pelo aquecimento global.
O fenômeno que ameaça a cidade é conhecido como "acqua alta". Trata-se da
subida do nível do mar que ocorre todo ano entre outubro e abril.
Amostras de material do fundo do sítio arqueológico permitiram descobrir o arco de
afundamento acelerado desde a formação da laguna Vêneta, há 6.000 anos. A taxa de
afundamento médio da cidade foi de 7 cm no século 2º. Depois cresceu para 13 cm e
chegou a 25 cm no século 20.
Esse grau de aceleração, cujas razões ainda não são bem conhecidas, é um balde de
água fria no principal plano da Itália para combater o problema -79 comportas móveis
que cortariam a laguna Vêneta e suas ilhas das mais altas marés. O plano, que deverá
custar até US$ 4 bilhões, está sendo analisado pelo governo.
O arqueólogo afirma, em estudo publicado na revista "Science" da semana
passada, que seus achados "levantam questões básicas sobre a viabilidade" das
comportas. Segundo ele, o projeto não vai funcionar porque sua altura foi estimada em
taxas de afundamento equivocadas.
O Consorzio Venezia Nuova, bloco de empresas que ganhou a concessão para construir as
comportas, denunciou as pesquisas de Ammerman como "claramente menos preocupadas com
a validade dos dados científicos do que com a tentativa de persuadir o governo da Itália
a retirar a concessão às empreiteiras italianas".
Segundo Ammerman, o consórcio não quer encarar os fatos. "As pessoas deveriam fazer
o que se fazia em Veneza desde o começo, que é levantar o chão." (William J.
Broad, do The New York Times, AF) |