03.09.2000
Veneza, Itália - Depois de acumular elogios da imprensa
internacional pela performance em Eu, Tu, Eles, ganhador de menção honrosa em
mostra paralela de Cannes, Lima Duarte concorre ao prêmio de melhor ator em Veneza. Ele
é o protagonista de Palavra e Utopia, com o qual o diretor português Manoel de
Oliveira concorre ao Leão de Ouro nesta 57.ª edição do festival de cinema italiano.
"Tentei estar à altura da filmografia de Manoel de Oliveira e das idéias do
padre Antônio Vieira´´, afirmou o ator, que encarna o religioso português do século
17, célebre pelos sermões que escreveu. Único representante do Brasil na mostra
competitiva de Veneza, Duarte interpreta os últimos anos do padre, também vividos no
filme pelos portugueses Ricardo Trepa e Luís Miguel Cintra.
Em entrevista concedida no terraço do hotel Excelsior, o ator afirmou ter sido um dos
trabalhos mais difíceis de sua carreira. "Como o título do filme já adianta, a
força está na palavra. A ação é subjetiva. Não tem porrada ou perseguição de
automóvel. Mas, ao mesmo tempo, o filme surpreende pelo dinamismo e pela velocidade. Isso
porque remete ao raciocínio, às idéias e aos sentimentos.´´
Estadao.com.br- Como foi trabalhar com Manoel de Oliveira, um dos mitos do
cinema europeu?
Lima Duarte - Ele é um diretor terrível, ainda que seja uma pessoa muito doce.
A atitude com relação aos seus filmes deve ser distinta. Está mais para quem lê um
livro, aprecia uma pintura ou trabalha em uma tese. Na verdade, ele faz quadros vivos. Uma
hora propõe uma obra de Botticelli, depois Giotto ou Velásquez. Ele te põe lá na
frente e diz: "É o padre Antônio Vieira. Veja o que você consegue fazer´´.
Como foi dar continuidade a um personagem interpretado por dois outros atores?
Oliveira sempre deixou claro que representaria três padres Vieira, assim como poderia
ter sido cem, de tão poderoso ele era no campo das idéias e da filosofia. Eu tentei ser
a paixão. Ricardo Trepa interpreta o personagem mais jovem e impetuoso, enquanto Luís
Miguel Cintra encarna a razão, representando o período em que o padre viveu na Europa e
enfrentou a Inquisição. A minha contribuição foi dar mais sentimento ao personagem. Eu
tento resumir os 40 anos que ele passou na Amazônia esperando a morte. E o mais
surpreendente é que ele sofre a degradação física, mas a cabeça não pára. Ele
sempre esteve do lado dos negros, dos índios e dos oprimidos. E sempre colocava essa
paixão pelo ser humano na forma de palavras.
Pelo tom rebuscado do texto de Vieira, acha que ele poderia ter sido um Shakespeare
na língua portuguesa se tivesse se dedicado à ficção?
Se o padre Vieira não tivesse vivido integralmente para a catequese, se a religião
não tivesse sido o mote de sua vida e se ele tivesse se permitido ser um pouco profano e
erótico, com certeza. Ele fazia aquelas construções gramaticais maravilhosas no
português barroco. Um trabalho belíssimo.
Como se preparou para um papel tão intenso, com falas tão declamatórias?
O mais engraçado é que, na época, quando pesquisava sobre Vieira, eu estava no
sertão rodando Eu, Tu, Eles, fazendo o papel de Osias. Passava dias no sertão
estudando Os Sermões. Eu estudava tanto que acho que Osias saiu um pouco com cara
de Vieira. Ninguém pode perceber, mas eu vejo o padre no fundo do olho do personagem
nordestino.
O que eles têm em comum?
Os dois foram incompreendidos. E ambos tinham essa necessidade de amar. A diferença é
que o religioso se volta para Deus, enquanto Osias se volta para Darlene. Osias até
aceita ver a mulher com outros homens desde que ela não o deixe. Ambos precisam do amor
para viver.
Você pode estabelecer um paralelo entre Andrucha Waddington que rodou o filme com
menos de 30 anos, e Manoel de Oiveira, com mais de 90?
Por mais estranho que seja, talvez Oliveira pareça ser o mais jovem (risos). Ainda que
ele seja o último diretor vivo que rodou um filme mudo, Oliveira ousa muito mais.
Waddington se calçou muito bem para realizar o filme. Seja na escolha dos atores, dos
técnicos e até na participação de Gilberto Gil na trilha sonora. Se ele se atirou de
um penhasco, podemos dizer que foi com uma rede de segurança esperando por ele lá
embaixo.
Como o sr. vê a participação de Palavra e Utopia (que será exibido em
São Paulo, em outubro), na Mostra Internacional em Veneza?
Para ser sincero, eu não gosto de festival. Ninguém está aqui interessado
verdadeiramente nos filmes. Por mais que a Europa não faça cinema hollywoodiano, no
final das contas o objetivo é o mesmo. Fico triste ao perceber de, depois de tudo o que
discutimos sobre a vida do padre Vieira, tudo se resuma a quantos países compraram o
filme e quanto pagaram. É puro comércio.
Você teve de adiantar muitas cenas da novela Uga Uga para que a Globo o
dispensasse e você pudesse vir a Veneza?
Sim. Trabalhei feito louco. Mas essa é a minha realidade. Eu já dei adeus às
ilusões há muitos anos. A minha vida é a telenovela. Só de vez em quando eu consigo
fazer um padre Vieira para meu deleite pessoal. Isso é quase um surto (risos). (Elaine
Guerini, enviada especial AE)
04.09.2000
Filme italiano decepciona em Veneza
Baseado no romance de Beppe Fenoglio, Il
Partigiano Johnny, de Guido Chiesa, trata da resistência ao fascismo durante a 2ª
Guerra Mundial. Sem acrescentar nada ao assunto, filme aponta como uma unanimidade
negativa
Veneza - Assim que terminou a exibição de Il
Partigiano Johnny, de Guido Chiesa, fez-se silêncio no cinema e em seguida veio o
grito de um espectador: Vergonha! Depois, mais silêncio, e um ou outro aplauso
tímido. Essa foi a reação, entre irada e decepcionada, ao terceiro filme italiano em
competição no 57.º Festival de Veneza. Os dois anteriores, I Cento Passi e Denti,
tiveram recepção diferente. O primeiro foi aclamado, o segundo pelo menos dividiu as
opiniões. Il Partigiano Johnny, pelo jeito, será uma unanimidade negativa.
No entanto, o filme (em teoria político), de Chiesa, não é nenhuma aberração. Mas
entende-se a reação contrária. O diretor retorna mais uma vez a um tema caro aos
italianos - a resistência ao fascismo durante a 2.ª Guerra Mundial -, mas o faz sem
acrescentar nada ao que já se sabe, ou se sente, a respeito. Baseado no romance de Beppe
Fenoglio, conta a história de Johnny (Stefano Dionisi, de Farinelli), estudante
universitário que decide unir-se aos "partigiani" e lutar contra os seguidores
do Duce.
O tom é nada menos que hagiográfico e se pretende, na aparência, ser uma espécie de
barragem contra o revisionismo recente que cerca a saga dos resistentes durante o
conflito. O tema, como se sabe, é polêmico. A Itália fazia parte do Eixo, com Alemanha
e Japão, mas no entanto produziu forte oposição interna ao regime de Mussolini. Alguns
diretores já foram fundo nas raízes de cumplicidade entre a população e o fascismo.
Basta citar como exemplos O Conformista ou A Estratégia da Aranha, ambos de
Bernardo Bertolucci.
O caminho de Chiesa é outro. Lá, onde Bertolucci busca a dificuldade e as
contradições, Chiesa procura o lugar-comum. Produz um filme correto, de boa
realização, com muitas cenas de combate e pouca reflexão. Não avança nem recua na
análise desse fato histórico. Por isso finalmente decepciona, e cansa, com seus
intermináveis 135 minutos. Dá tratamento acadêmico a um tema que mereceria mais
criatividade, invenção, ousadia, em suma. Em defesa do filme, Chiesa afirma que procura
atualizar uma história já antiga, "e que, infelizmente, é desconhecida pela maior
parte dos italianos jovens". Seja. Talvez o didatismo seja necessário, mas não
costuma dar resultado estético.
Cuba - Mais interessante, mas ainda assim não inteiramente convincente é Before
Night Falls, de Julian Schnabel (o mesmo de Basquiat), também baseado em fatos reais.
Fala da vida do escritor cubano Reinaldo Arenas (no papel, o espanhol Javier Bardem), que
nasceu no interior do país, criou-se na revolução de Fidel Castro, mas foi engolido por
ela, ao se comprovar sua homossexualidade que, aliás, nunca fez questão de esconder.
Arenas conseguiu publicar um único livro na ilha, Celestino Antes del Alba.
Depois, conheceu a mão forte da censura. Caiu em desgraça quando mandou para fora do
país o manuscrito de El Mundo Alucinante, que foi publicado na França. O regime
considerou o ato um desafio político e Arenas foi encarcerado. Solto depois de dois anos,
saiu do país e morreu de aids nos Estados Unidos.
Não há muito o que discutir sobre a natureza desse caso. Liberdade de expressão e
direito de ir e vir são valores absolutos e não cabe questioná-los no umbral do
milênio. São bens adquidos da humanidade. No entanto, não seria demais a Schnabel um
mergulho mais consistente na realidade cubana pós-revolucionária, quando o novo regime
se afirmava e, para o bem ou para mal, alcançava grande apoio popular. A intolerância
contra homossexuais é uma das chagas do governo de Castro, que se eterniza no poder, e
Reinaldo Arenas tornou-se símbolo da luta pela liberdade de opção sexual. Não custaria
que seu personagem fosse construído de maneira mais problemática. Nem que tivesse contra
si um pano de fundo histórico mais complexo. O filme ganharia com isso. E a denúncia que
pretende fazer, também. Mas parece difícil convencer diretores de cinema de que o
maniqueísmo é, afinal de contas, uma frágil arma de persuasão.
Ousadia - Dos três filmes apresentados hoje, o mais matizado é The Goddess
of 1967, da chinesa de Macau, radicada na Austrália, Clara Law. A "deusa",
de que fala o título, é uma máquina rara: um Citroen 1967. Uma jóia para
colecionadores, em torno do qual gravitam os personagens: uma garota cega, vítima de
abuso sexual na infância e um rapaz japonês, que vai para a Austrália tentar comprar a
raridade sobre rodas. A história ganha dimensão de um road movie existencial pelo
interior australiano, narrado com inventividade formal e fotográfica pela diretora.
Inventividade que, às vezes, parece um tanto forçada e preparada para ser exibida em
festival.
Mais um astro desembarcou no Lido: Jon Bon Jovi chegou para representar U-571,
filme de Jonathan Mostow que se passa em um submarino durante a 2.ª Guerra Mundial. Bon
Jovi faz o radiotelegrafista da engenhoca, num filme que ganhou atualidade com o desastre
recente do submarino russo. Mas quem tem encantado os jornalistas em Veneza é o diretor
francês Claude Chabrol, sempre acompanhado de sua atriz Isabelle Huppert. Chabrol faz
parte do júri e está exibindo fora de concurso seu novo longa, Merci Pour le Chocolat.
Cheio de energia e dono de um bom humor invencível, Chabrol, um dos pais da nouvelle
vague, conta por que resolveu não colocar seu filme em concurso: "É que se eu
competisse ficaria só três dias em Veneza; fazendo parte do júri posso passar dez dias
na cidade", afirma, rindo. Seu filme é um thriller temperado com doses generosas de
humor negro.
Quando lhe perguntam a semelhança entre sua estética nesse trabalho a de mestre
Alfred Hitchcock, responde: "Não havia escolha, pois o roteiro previa muitas cenas
de escadaria e ninguém filmou escadas como o velho Hitchcock." Sobre a sua escolha
preferencial por Isabelle Huppert para interpretar assassinas, foi claro: "Ela tem um
semblante criminal nato, assustador, dissimulado", diz. "E já preveni o marido
dela sobre isso." (Luiz
Zanin Oricchio, AE)
03.09.2000
Teeth recebe elogios e críticas Festival de Cinema
de Veneza
Veneza - O filme Teeth do diretor Gabriele
Salvatores, com suas cenas vivas e chocantes de cirurgia dental, foi recebida com
críticas controversas no Festival de Cinema de Veneza.
O filme de Savatores é uma de
quatro produções italianas que competem pelo concorrido Leão de Ouro, incluindo The
Hundred Steps, de Marco Tullio Giordana, a história de um jovem jornalista que
desafia a Máfia.
Em contraste com a quente recepção de The Hundred Steps, muitos críticos
mostraram pouco entusiasmo pela surrelista Teeth, e a qualificaram como
"obsessiva e sangrenta".
No entanto teve alguns admiradores, entre eles o comentarista do jornal A Replública,
que destacou o "seu valor (do diretor) em levar as histórias italianas pequenas a um
contexto mais amplo e visionário".
Em Teeth, Salvatore - que ganhou o Oscar em 1992 de melhor filme estrangeiro com
Mediterrâneo - narra a história de um homem obcecado por seus dentes dianteiros,
grandes e feios. |