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Capoeira com sabor de spaghetti

02/01/2001

 

 

   Roma – Trazida ao Brasil pelos escravos bantos, originários de Angola, a capoeira também virou mania na Itália. Para se ter uma idéia, existem hoje na Península aproximadamente 3 mil adeptos, número de todo respeito, levando-se em conta que os mestres brasileiros são apenas 25. No restante da Europa, estima-se que os aprendizes sejam 14 mil, contingente que se encontra espalhado, principalmente, em países como França, Espanha, Alemanha e Portugal.

Pelo menos na Itália, a capoeira só começou a ficar conhecida no final dos anos 70, quando os grupos de oba-oba a incluíam em seus kits. Daí para frente, até porque muitos dos dançarinos acabaram ficando no país, aos poucos deixou de ser apenas uma dança exótica e transformou-se em atividade esportiva.

   Porém, dependendo de quem a ensine e também da intenção do adepto, a capoeira pode ser encarada como dança ou arte marcial. “Tem gente que fica seduzido pensando que se trata de uma espécie de kung fu brasileiro, mas, na maioria dos casos, os italianos estão mais interessados numa dança para liberar o corpo”, diz o baiano João Gino da Conceição, na Itália desde 1995.

   Segundo Gino, que foi discípulo de mestre King, do Sesc de Salvador, antes só era possível ganhar dinheiro com capoeira participando de espetáculos musicais, panorama que mudou com o boom nas academias. “Tem muito mais mercado”, explica. Por três aulas semanais, as academias, em média, cobram mensalmente dos alunos cerca de US$ 40 mensais.

   A capoeira chegou a um ponto tal na Itália que já existe até endereço na internet (www.soluna.it) para divulgá-la. O gaúcho Osvaldo da Silva, o "Pudim", de 34 anos, foi quem organizou o site, todo em língua italiana. “Ainda estamos começando, mas a idéia já vem produzindo bons resultados”, diz Pudim, na Europa desde 1994, onde se fixou em Roma.

   Professor em uma série de academias, Pudim, que vem do famoso grupo Oxossi, diz que o crescimento da capoeira vem atraindo uma série de mestres brasileiros, muitos dos quais com formação duvidosa. “Tem gente que vem para a Itália ainda verde”, diz, acrescentando que no Brasil não existe um certificado para garantir a eficácia dos profissionais. “A nossa federação ainda funciona precariamente”, cutuca.

   Em um ambiente no qual a vaidade impera, apesar da ladainha dos ensinamentos conter sempre a palavra “humildade”, heresia seria não conferir a mestre Canela o “título” de difusor da capoeira na Itália. Mulato carioca de 50 anos, depois de se exibir em alguns países do norte da Europa, encontrou em Viterbo – cidade nas imediações de Roma – o local ideal para plantar a semente da capoeira na Península.

    Discípulo dos discípulos de Mario Santos, um dos maiores capoeiristas do Rio de Janeiro, mestre Canela construiu a sua fama em Viterbo ao defender a cidade em competições internacionais de artes marciais, quando derrotou praticantes de kung-fu e karatê. “Os italianos ficavam abismados com a luta, passando a chamá-la de kung fu brasileiro”, diz Canela.

   Segundo o mestre carioca, ensinar seu ofício na Itália é, por razões óbvias, mais complicado do que no Brasil. “No nosso país as coisas fluem de maneira natural, pois a capoeira já faz parte da cultura popular”, diz – obstáculo que, no entanto, não o demoveu de implantar um método de ensino todo brasileiro. “Faço com que eles aprendam a nossa língua, cantem em português e tenham acesso aos nossos costumes”.

   O curioso é que mestre Canela dá aula num salão paroquial de Viterbo, onde pretende construir um memorial. Seu objetivo é criar um espaço que sirva para abrigar todo o acervo ligado às atividades da capoeira nos últimos 20 anos na Itália. Para tanto, ele espera a colaboração não só da embaixada do Brasil, em Roma, como também do Ministério da Cultura da Itália. “A capoeira será uma atividade que vai melhorar o intercâmbio cultural entre os dois países”, acredita o carioca.

   Em 20 anos de Itália, mestre Canela já teve mais de 500 discípulos, chegando a formar campeões, mestres e contramestres italianos. Um dos mais famosos, aliás, é Edgar Satatnillo, o "Coruja", que, depois dos seus ensinamentos, além de virar mestre, levou o título europeu de capoeira. (Raul Moreira, GP)

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