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Harry's Bar, o ponto de encontro internacional em Veneza

04/01/2001

Harry's Bar, em Veneza

 

   VENEZA, Itália -- Quem podia imaginar, em 1929, que um ato de generosidade - de um barman para um cliente - abriria o caminho para criar um bar que, em pouco tempo, se tornaria o ponto de encontro favorito para a sociedade internacional e a aristocracia européia em Veneza? Desde a sua inauguração, há cerca de 70 anos, o Harry's Bar recebeu escritores, artistas plásticos, celebridades de todo o tipo e aristocratas, todos atraídos pela atmosfera simples mas elegante, os grandes coquetéis e a cozinha do estabelecimento.

   Ernest Hemingway tinha uma mesa cativa num canto do bar. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, o escritor norte-americano dedicou ao bar uma página de seu romance "Across the River and into the Trees".

   Tempos diferentes atraíram clientes diferentes. Entre os freqüentadores famosos estão o maestro e compositor italiano Arturo Toscanini, o inventor Guglielmo Marconi, Charlie Chaplin, o escritor Truman Capote, o cineasta Orson Welles, o barão Philippe de Rotschild, a princesa Aspasia, da Grécia, o magnata Aristóteles Onassis, Barbara Hutton e Peggy Guggenhein, para citar apenas alguns.

   "Um freguês que vem com freqüência ao meu restaurante e sempre me encanta por sua simplicidade, timidez e ironia é o diretor Woody Allen", disse Arrigo Cipriani, filho do fundador do Harry's Bar, Giuseppe Cipriani, à CNN Italia.

   "Na noite anterior ao seu casamento em Veneza, com 1997 (com Soon Yi-Previn), ele jantou no Harry's Bar", acrescentou. "Foi como uma festa de casamento".

   O Harry's Bar foi inaugurado em 1931, quando o pai de Arrigo, um empreendedor dono de bar no Hotel Europa, em Veneza, recebeu ajuda financeira de um jovem e rico norte-americano de Boston, chamado Harry Pickering.

   De acordo com a história, Pickering costumava se hospedar no Hotel Europa mas, subitamente, deixou de freqüentar o bar. Certo dia, o velho Cipriani perguntou ao norte-americano por que não aparecia mais.

   Pickering estava quebrado. Ele explicou que sua família lhe havia cortado a mesada ao descobrir que ele gastava muito dinheiro com bebida e diversão.

   Cipriani teria, então, emprestado o equivalente a cinco mil dólares para seu ex-cliente. Dois anos depois, Pickering entrou no Hotel Europa, pediu um drinque no bar e entrou cinco mil dólares a Cipriani e, logo em seguida, mais dinheiro.

   "Senhor Cipriani, muito obrigado. Aqui está o dinheiro. E para mostrar a minha apreciação, aqui estão mais 40 mil, o suficiente para abrir um bar", disse Pickering. "Nós o chamaremos Harry's Bar".

   Situado na Calle Vallaresso, perto da Piazza San Marco, o estabelecimento foi inicialmente concebido como um bar de hotel, não servindo refeições. Posteriormente, foi transformado em restaurante.

   "O nosso logotipo representa um barman estilizado, preparando um Martini, um Manhattan ou qualquer outro aperitivo popular", disse Arrigo.

   "O único Harry's Bar que temos fica em Veneza, todos os outros, em várias partes do mundo, são imitações e nada têm a ver com o nosso", acrescentou.

   Arrigo - Harry, em italiano -- nasceu um ano depois da abertura do bar.

   "Eu jamais suspeitei da origem do meu nome até o dia em que fui encarregado de tomar conta da caixa registradora, aos 18 anos", lembrou. "Foi então que eu comecei a perceber porque recebi o meu nome".

   Depois de se formar em Direito e de se casar, ele continuou a trabalhar no bar, em tempo integral.

   "Meu pai ensinou-me tudo, porque ele inventou tudo. Eu acho que sou também uma de suas invenções", brincou.

   A primeira lição que Arrigo diz ter aprendido com seu pai foi a de que, em um restaurante, o freguês tem a necessidade de se sentir em casa.

   "O sucesso do restaurante é feito de detalhes", continuou. "O nosso negócio começa do zero todos os dias. De manhã, tudo está cru, nada é cozido". Resumindo, Arrigo, assim como seu pai, acredita que três coisas são fundamentais para conquistar os clientes: qualidade, um sorriso e simplicidade.

   Em 1991, Arrigo Cipriani lançou um livro de receitas, "The Harry's Bar Cookbook", com mais de 200 receitas originais, anedotas e digressões sobre a clássica cozinha italiana.

   Os clássicos da casa incluem: sanduíches quentes, suculentos sanduíches de camarões (os favoritos de Orson Welles e Truman Capote); o macarrão de ovos gratinado e com presuntoç e o Carpaccio - o prato mais popular servido no Harry's Bar.

   O Carpaccio, assim batizado em homenagem ao célebre pintor veneziano Vittore Carpaccio, consiste em duas camadas finíssimas de filet mignon temperadas com um molho branco, leve, maionese e mostarda.

   Conta a lenda que o prato foi inspirado na condessa Anna Nani Mocenigo, uma das mais assíduas clientes do bar. Como seu médico a proibia de comer carne cozida, ela consumia o alimento cru, cortado em camadas muito finos.

   Na área das bebidas, de acordo com os Cipriani, Giuseppe inventou o Bellini e o Montgomery - dois coquetéis que se tornaram básica na cultura do bar.

   O Bellini, também chamado de "coquetel rosa", contém polpa de pêssego, suco e Prosecco (um espumante italiano).

   O Montgomerry, assim batizado por Hemingway, é um martini muito seco, com uma proporção de gin para vermute de 15 para um - a mesma proporção que o famoso general britânico Bernard Montgomery teria relatado quando seus soldados enfrentaram um batalhão inimigo durante a Segunda Guerra Mundial. (CNNBrasil)

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