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VENEZA, Itália -- Quem podia imaginar, em 1929, que um
ato de generosidade - de um barman para um cliente - abriria o caminho
para criar um bar que, em pouco tempo, se tornaria o ponto de encontro
favorito para a sociedade internacional e a aristocracia européia em
Veneza? Desde a sua inauguração, há cerca de 70 anos, o Harry's Bar
recebeu escritores, artistas plásticos, celebridades de todo o tipo e
aristocratas, todos atraídos pela atmosfera simples mas elegante, os
grandes coquetéis e a cozinha do estabelecimento.
Ernest
Hemingway tinha uma mesa cativa num canto do bar. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, o
escritor norte-americano dedicou ao bar uma página de seu romance "Across the River
and into the Trees".
Tempos diferentes atraíram clientes diferentes. Entre os freqüentadores
famosos estão o maestro e compositor italiano Arturo Toscanini, o inventor Guglielmo
Marconi, Charlie Chaplin, o escritor Truman Capote, o cineasta Orson Welles, o barão
Philippe de Rotschild, a princesa Aspasia, da Grécia, o magnata Aristóteles Onassis,
Barbara Hutton e Peggy Guggenhein, para citar apenas alguns.
"Um freguês que vem com freqüência ao meu restaurante e sempre me
encanta por sua simplicidade, timidez e ironia é o diretor Woody Allen", disse
Arrigo Cipriani, filho do fundador do Harry's Bar, Giuseppe Cipriani, à CNN Italia.
"Na noite anterior ao seu casamento em Veneza, com 1997 (com Soon
Yi-Previn), ele jantou no Harry's Bar", acrescentou. "Foi como uma festa de
casamento".
O Harry's Bar foi inaugurado em 1931, quando o pai de Arrigo, um
empreendedor dono de bar no Hotel Europa, em Veneza, recebeu ajuda financeira de um jovem
e rico norte-americano de Boston, chamado Harry Pickering.
De acordo com a história, Pickering costumava se hospedar no Hotel Europa
mas, subitamente, deixou de freqüentar o bar. Certo dia, o velho Cipriani perguntou ao
norte-americano por que não aparecia mais.
Pickering estava quebrado. Ele explicou que sua família lhe havia cortado
a mesada ao descobrir que ele gastava muito dinheiro com bebida e diversão.
Cipriani teria, então, emprestado o equivalente a cinco mil dólares para
seu ex-cliente. Dois anos depois, Pickering entrou no Hotel Europa, pediu um drinque no
bar e entrou cinco mil dólares a Cipriani e, logo em seguida, mais dinheiro.
"Senhor Cipriani, muito obrigado. Aqui está o dinheiro. E para
mostrar a minha apreciação, aqui estão mais 40 mil, o suficiente para abrir um
bar", disse Pickering. "Nós o chamaremos Harry's Bar".
Situado na Calle Vallaresso, perto da Piazza San Marco, o estabelecimento
foi inicialmente concebido como um bar de hotel, não servindo refeições.
Posteriormente, foi transformado em restaurante.
"O nosso logotipo representa um barman estilizado, preparando um
Martini, um Manhattan ou qualquer outro aperitivo popular", disse Arrigo.
"O único Harry's Bar que temos fica em Veneza, todos os outros, em
várias partes do mundo, são imitações e nada têm a ver com o nosso",
acrescentou.
Arrigo - Harry, em italiano -- nasceu um ano depois da abertura do bar.
"Eu jamais suspeitei da origem do meu nome até o dia em que fui
encarregado de tomar conta da caixa registradora, aos 18 anos", lembrou. "Foi
então que eu comecei a perceber porque recebi o meu nome".
Depois de se formar em Direito e de se casar, ele continuou a trabalhar no
bar, em tempo integral.
"Meu pai ensinou-me tudo, porque ele inventou tudo. Eu acho que sou
também uma de suas invenções", brincou.
A primeira lição que Arrigo diz ter aprendido com seu pai foi a de que,
em um restaurante, o freguês tem a necessidade de se sentir em casa.
"O sucesso do restaurante é feito de detalhes", continuou.
"O nosso negócio começa do zero todos os dias. De manhã, tudo está cru, nada é
cozido". Resumindo, Arrigo, assim como seu pai, acredita que três coisas são
fundamentais para conquistar os clientes: qualidade, um sorriso e simplicidade.
Em 1991, Arrigo Cipriani lançou um livro de receitas, "The Harry's
Bar Cookbook", com mais de 200 receitas originais, anedotas e digressões sobre a
clássica cozinha italiana.
Os clássicos da casa incluem: sanduíches quentes, suculentos sanduíches
de camarões (os favoritos de Orson Welles e Truman Capote); o macarrão de ovos gratinado
e com presuntoç e o Carpaccio - o prato mais popular servido no Harry's Bar.
O Carpaccio, assim batizado em homenagem ao célebre pintor veneziano
Vittore Carpaccio, consiste em duas camadas finíssimas de filet mignon temperadas com um
molho branco, leve, maionese e mostarda.
Conta a lenda que o prato foi inspirado na condessa Anna Nani Mocenigo,
uma das mais assíduas clientes do bar. Como seu médico a proibia de comer carne cozida,
ela consumia o alimento cru, cortado em camadas muito finos.
Na área das bebidas, de acordo com os Cipriani, Giuseppe inventou o
Bellini e o Montgomery - dois coquetéis que se tornaram básica na cultura do bar.
O Bellini, também chamado de "coquetel rosa", contém polpa de
pêssego, suco e Prosecco (um espumante italiano).
O Montgomerry, assim batizado por Hemingway, é um martini muito seco, com
uma proporção de gin para vermute de 15 para um - a mesma proporção que o famoso
general britânico Bernard Montgomery teria relatado quando seus soldados enfrentaram um
batalhão inimigo durante a Segunda Guerra Mundial. (CNNBrasil) |