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Dos imigrantes italianos que
impulsionaram o moderno teatro brasileiro nos anos 40 e 50 (como Adolfo Celi, Luciano
Salce, Alberto D'Aversa, Flaminio Bollini-Cerri e Gianni Ratto, este o único
remanescente), Ruggero Jacobbi (1920-81) foi um dos que mais tutano legaram para uma
reflexão estética e teórica dessa arte.
O período de auto-exílio, entre 46 e 60 (ele chegou ao Brasil em turnê
pela companhia Piccolo Teatro de Milão, que fundara um ano antes), foi pleno em
efervescência teórica e prática no eixo Rio-São Paulo-Porto Alegre.
Jacobbi, por exemplo, chegou a dirigir um tripé emblemático de atores,
Procópio Ferreira, Sérgio Cardoso e Cacilda Becker, e teve Antunes Filho como
assistente.
Apesar do volume (atuou como tradutor, diretor, professor, ensaísta,
conferencista e crítico), seu pensamento permanece disperso e pouco conhecido no país.
Parte da produção intelectual que o próprio Jacobbi organizou em livros
está esgotada e tornou-se item raro em sebos: "A Expressão Dramática" (56),
"Goethe, Schiller, Gonçalves Dias" (58) e "O Espectador Apaixonado"
(61).
A pesquisadora italiana Alessandra Vannucci tem um livro pronto sobre
Ruggero Jacobbi. Ela reuniu artigos, ensaios e críticas publicadas nos jornais
"Folha da Noite" (1952-56) -vespertino fundado em 1921 e denominado Folha de
S.Paulo a partir de 1960, em fusão com "Folha da Manhã" e "Folha da
Tarde"- e "Última Hora" (1952-55).
O projeto "A Transição Necessária" surgiu primeiro como
dissertação de mestrado defendida na Uni-Rio (99). A intenção de Alessandra, que
atualmente vive em Gênova, é lançar seu livro no Brasil, mas ainda não tem editora.
"Seria uma contribuição valiosa para a historiografia do teatro
brasileiro, já que produz novas fontes primárias que revelam a participação no debate
de jornais como a Folha e "Última Hora", pouco citados pela ensaística
contemporânea, cujas referências constantes são Décio de Almeida Prado e Sábato
Magaldi, os dois grandes críticos de "O Estado de S. Paulo'", afirma a
pesquisadora.
Jacobbi conciliou vocação mambembe de homem dos palcos com uma
teorização crítica publicada na imprensa e disseminada em aulas e conferências.
"Essa dupla voz define progressivamente a sua atuação estética em
termos dialéticos, entre projeto e prática, como uma "crítica da razão
teatral" capaz de intuir e de acolher com mente humanista o sentido das
contradições da arte dos palco", diz Alessandra.
Jacobbi passou pelo Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, de Franco
Zampari. O empresário retirou de cartaz, após cinco sessões, a montagem de "Ronda
dos Malandros" (50), baseada em Bertolt Brecht e Kurt Weill ("Ópera dos Três
Vinténs", 1928) e em John Gay ("Ópera dos Mendigos", 1728). Segundo a
pesquisadora, houve censura sobretudo por causa da "marcação socialista" do
final do espetáculo, que citava o poema "Litania dos Pobres", de Cruz e Sousa.
"O intelectual antierudito e "engagé" é identificado como mestre pela
geração seguinte, do Arena e do Oficina", afirma.
Jacobbi fundou com Oduvaldo Vianna Filho o Teatro Paulista do Estudante
(TPE), em 54, fundido no ano seguinte com o Arena, grupo movido pela busca de uma
dramaturgia brasileira.
Tratava-se, segundo o teatrólogo, de projeto antagonista ao TBC e reflexo do "anseio
sociológico de um mundo reduzido à solidão, que perdeu o contato com o verdadeiro povo
e se acostumou a reconhecer como única coletividade o grupinho social ou cultural a que
pertence".
"A Transição Necessária" apresenta quatro capítulos:
"Vocação Crítica", "Vocação Formativa", "Contribuição à
Memória do Teatro Brasileiro" e "Caderno Segredo", este composto por
fragmentos, aforismos, poemas e retratos lampos que testemunham "a personalidade
complexa, lucidamente heterônima, deste homem de palco e de poesia, de público e de
solidão", conforme Alessandra.
Em sua pesquisa, que começou em 96, ela selecionou 130 artigos e
críticas entre os 700 documentos pinçados dos arquivos de jornais e do acervo pessoal da
viúva Mara Jacobbi, em Roma. (Valmir Santos, Folha de São Paulo)
| "Era o nosso vetor", afirma Antunes
"Eu não teria conseguido muita
coisa, eu e Zé Renato (diretor do grupo Arena), se não fosse o Ruggero. Era o nosso
vetor", diz o diretor Antunes Filho, que fez assistência para Ruggero Jacobbi no
TBC, no início dos anos 50.
"Fundamentalmente, eu acho que o
encenador no país só teve chance no novo teatro brasileiro graças a ele, que também
incentivava os novos dramaturgos", diz Antunes, que hoje está à frente do CPT em
São Paulo."Ele trouxe a cultura para que pudéssemos nos libertar para a cena
moderna e nos livrar do velho teatro."
Informado sobre o projeto de Alessandra
Vannucci, Antunes afirma que o livro pode ser o início de um resgate que preencha
"essa lacuna, essa ingratidão que a cultura brasileira fez com a trajetória de
Ruggero".
A atriz Maria Della Costa, cujo marido,
Sandro Polloni, foi quem convidou Jacobbi para vir ao Brasil em 46, também orgulha-se de
ter trabalhado com o teatrólogo e crítico italiano. "Ele era um homem engajado, em
todos os sentidos, artisticamente, politicamente, socialmente", afirma.
De 1958 a 60, os últimos anos dele no
país, Jacobbi dirigiu o Curso de Arte Dramática da Universidade do Rio Grande do Sul.
"Foi ele quem fez caminhar o teatro
político no final dos anos 50, sobretudo com o projeto do Arena", afirma o
pesquisador Fernando Peixoto, que foi aluno e assistente de Jacobbi na UFRS.
"Como diretor de teatro, acho que ele
deixava a desejar, mas teve outros méritos, como o de descobrir as possibilidades
cênicas em Machado de Assis e Gonçalves Dias, por exemplo", explica o professor de
filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro Gerd Bornheim, que também foi
contemporâneo do trabalho de Jacobbi em Porto Alegre.
"Ele tinha uma propensão
desbravadora para colocar em cena o passado da dramaturgia brasileira, sempre
estabelecendo associações históricas", diz Bornheim.
Foi Jacobbi quem "redescobriu" a peça "O Rei
da Vela", de Oswald de Andrade, para os alunos da UFRS. Entre eles estava Luiz Carlos
Maciel, que apresentou o texto para José Celso Martinez realizar a histórica montagem de
67, no teatro Oficina. (VS) |
Crítico fundou o Piccolo Teatro de Milão em 1945
Ruggero Jacobbi nasce em Veneza em 21 de
fevereiro de 1920. Estréia como diretor teatral em 1940. Em Roma, torna-se assistente de
Anton Gioglio Bragaglia. Ingressa no Centro Experimental de Cinematografia, onde começa a
exercer a crítica. Antifascista militante, é preso durante o período de ocupação
nazista. Após a libertação, funda em 45 o Piccolo Teatro de Milão, ao lado de Mario
Landi e Giorgio Strehler. Vive no Brasil entre 1946 e 1960.
De volta à Itália, dedica-se à
literatura e traduz autores brasileiros, como Murilo Mendes. Retoma as atividades no
Piccolo. Casa-se três vezes, as duas últimas com a brasileira Daisy Santana e com a
italiana Mara Dragoni. Teve uma filha com cada uma delas. Morre em junho de 1981, em Roma,
vítima de edema pulmonar. |
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