Retornar ao índice ItaliaOggi

Notizie d'Italia

 

Pesquisadora traz à tona Ruggero Jacobbi

04/01/2001

 

 

   Dos imigrantes italianos que impulsionaram o moderno teatro brasileiro nos anos 40 e 50 (como Adolfo Celi, Luciano Salce, Alberto D'Aversa, Flaminio Bollini-Cerri e Gianni Ratto, este o único remanescente), Ruggero Jacobbi (1920-81) foi um dos que mais tutano legaram para uma reflexão estética e teórica dessa arte.

   O período de auto-exílio, entre 46 e 60 (ele chegou ao Brasil em turnê pela companhia Piccolo Teatro de Milão, que fundara um ano antes), foi pleno em efervescência teórica e prática no eixo Rio-São Paulo-Porto Alegre.

   Jacobbi, por exemplo, chegou a dirigir um tripé emblemático de atores, Procópio Ferreira, Sérgio Cardoso e Cacilda Becker, e teve Antunes Filho como assistente.

   Apesar do volume (atuou como tradutor, diretor, professor, ensaísta, conferencista e crítico), seu pensamento permanece disperso e pouco conhecido no país.

   Parte da produção intelectual que o próprio Jacobbi organizou em livros está esgotada e tornou-se item raro em sebos: "A Expressão Dramática" (56), "Goethe, Schiller, Gonçalves Dias" (58) e "O Espectador Apaixonado" (61).

   A pesquisadora italiana Alessandra Vannucci tem um livro pronto sobre Ruggero Jacobbi. Ela reuniu artigos, ensaios e críticas publicadas nos jornais "Folha da Noite" (1952-56) -vespertino fundado em 1921 e denominado Folha de S.Paulo a partir de 1960, em fusão com "Folha da Manhã" e "Folha da Tarde"- e "Última Hora" (1952-55).

   O projeto "A Transição Necessária" surgiu primeiro como dissertação de mestrado defendida na Uni-Rio (99). A intenção de Alessandra, que atualmente vive em Gênova, é lançar seu livro no Brasil, mas ainda não tem editora.

   "Seria uma contribuição valiosa para a historiografia do teatro brasileiro, já que produz novas fontes primárias que revelam a participação no debate de jornais como a Folha e "Última Hora", pouco citados pela ensaística contemporânea, cujas referências constantes são Décio de Almeida Prado e Sábato Magaldi, os dois grandes críticos de "O Estado de S. Paulo'", afirma a pesquisadora.

   Jacobbi conciliou vocação mambembe de homem dos palcos com uma teorização crítica publicada na imprensa e disseminada em aulas e conferências.

   "Essa dupla voz define progressivamente a sua atuação estética em termos dialéticos, entre projeto e prática, como uma "crítica da razão teatral" capaz de intuir e de acolher com mente humanista o sentido das contradições da arte dos palco", diz Alessandra.

   Jacobbi passou pelo Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, de Franco Zampari. O empresário retirou de cartaz, após cinco sessões, a montagem de "Ronda dos Malandros" (50), baseada em Bertolt Brecht e Kurt Weill ("Ópera dos Três Vinténs", 1928) e em John Gay ("Ópera dos Mendigos", 1728). Segundo a pesquisadora, houve censura sobretudo por causa da "marcação socialista" do final do espetáculo, que citava o poema "Litania dos Pobres", de Cruz e Sousa.
"O intelectual antierudito e "engagé" é identificado como mestre pela geração seguinte, do Arena e do Oficina", afirma.

   Jacobbi fundou com Oduvaldo Vianna Filho o Teatro Paulista do Estudante (TPE), em 54, fundido no ano seguinte com o Arena, grupo movido pela busca de uma dramaturgia brasileira.
Tratava-se, segundo o teatrólogo, de projeto antagonista ao TBC e reflexo do "anseio sociológico de um mundo reduzido à solidão, que perdeu o contato com o verdadeiro povo e se acostumou a reconhecer como única coletividade o grupinho social ou cultural a que pertence".

   "A Transição Necessária" apresenta quatro capítulos: "Vocação Crítica", "Vocação Formativa", "Contribuição à Memória do Teatro Brasileiro" e "Caderno Segredo", este composto por fragmentos, aforismos, poemas e retratos lampos que testemunham "a personalidade complexa, lucidamente heterônima, deste homem de palco e de poesia, de público e de solidão", conforme Alessandra.

   Em sua pesquisa, que começou em 96, ela selecionou 130 artigos e críticas entre os 700 documentos pinçados dos arquivos de jornais e do acervo pessoal da viúva Mara Jacobbi, em Roma. (Valmir Santos, Folha de São Paulo)

"Era o nosso vetor", afirma Antunes

   "Eu não teria conseguido muita coisa, eu e Zé Renato (diretor do grupo Arena), se não fosse o Ruggero. Era o nosso vetor", diz o diretor Antunes Filho, que fez assistência para Ruggero Jacobbi no TBC, no início dos anos 50.

   "Fundamentalmente, eu acho que o encenador no país só teve chance no novo teatro brasileiro graças a ele, que também incentivava os novos dramaturgos", diz Antunes, que hoje está à frente do CPT em São Paulo."Ele trouxe a cultura para que pudéssemos nos libertar para a cena moderna e nos livrar do velho teatro."

   Informado sobre o projeto de Alessandra Vannucci, Antunes afirma que o livro pode ser o início de um resgate que preencha "essa lacuna, essa ingratidão que a cultura brasileira fez com a trajetória de Ruggero".

   A atriz Maria Della Costa, cujo marido, Sandro Polloni, foi quem convidou Jacobbi para vir ao Brasil em 46, também orgulha-se de ter trabalhado com o teatrólogo e crítico italiano. "Ele era um homem engajado, em todos os sentidos, artisticamente, politicamente, socialmente", afirma.

   De 1958 a 60, os últimos anos dele no país, Jacobbi dirigiu o Curso de Arte Dramática da Universidade do Rio Grande do Sul.

   "Foi ele quem fez caminhar o teatro político no final dos anos 50, sobretudo com o projeto do Arena", afirma o pesquisador Fernando Peixoto, que foi aluno e assistente de Jacobbi na UFRS.

   "Como diretor de teatro, acho que ele deixava a desejar, mas teve outros méritos, como o de descobrir as possibilidades cênicas em Machado de Assis e Gonçalves Dias, por exemplo", explica o professor de filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro Gerd Bornheim, que também foi contemporâneo do trabalho de Jacobbi em Porto Alegre.

   "Ele tinha uma propensão desbravadora para colocar em cena o passado da dramaturgia brasileira, sempre estabelecendo associações históricas", diz Bornheim.

   Foi Jacobbi quem "redescobriu" a peça "O Rei da Vela", de Oswald de Andrade, para os alunos da UFRS. Entre eles estava Luiz Carlos Maciel, que apresentou o texto para José Celso Martinez realizar a histórica montagem de 67, no teatro Oficina. (VS)

   
Crítico fundou o Piccolo Teatro de Milão em 1945

   Ruggero Jacobbi nasce em Veneza em 21 de fevereiro de 1920. Estréia como diretor teatral em 1940. Em Roma, torna-se assistente de Anton Gioglio Bragaglia. Ingressa no Centro Experimental de Cinematografia, onde começa a exercer a crítica. Antifascista militante, é preso durante o período de ocupação nazista. Após a libertação, funda em 45 o Piccolo Teatro de Milão, ao lado de Mario Landi e Giorgio Strehler. Vive no Brasil entre 1946 e 1960.

   De volta à Itália, dedica-se à literatura e traduz autores brasileiros, como Murilo Mendes. Retoma as atividades no Piccolo. Casa-se três vezes, as duas últimas com a brasileira Daisy Santana e com a italiana Mara Dragoni. Teve uma filha com cada uma delas. Morre em junho de 1981, em Roma, vítima de edema pulmonar.

Pesquise no Site ou Web

Google
Web ItaliaOggi

Publicidade
 
Notizie d'Italia | Gastronomia | Migrazioni | Cidadania | Home ItaliaOggi