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Itália quer investigar "síndrome dos Bálcãs"

04/01/2001

 

 

   A Itália anunciou ontem que exortou a Otan a investigar denúncias de que seis soldados italianos, que morreram de leucemia após servir nos Bálcãs, teriam desenvolvido a doença por terem sido expostos a urânio empobrecido existente em munição usada pela aliança militar ocidental.

   O primeiro-ministro da Itália, Giuliano Amato, disse ao jornal "La Repubblica" que a preocupação sobre a chamada "síndrome dos Bálcãs" é "legítima".

   "Estamos diante de uma situação bastante delicada. Sempre soubemos que o urânio empobrecido foi utilizado em Kosovo, mas não na Bósnia. Sempre acreditamos que ele fosse perigoso em circunstâncias absolutamente excepcionais, como tocar algo que tenha sido atingido por um projétil contendo urânio empobrecido. Já em circunstâncias normais, acreditávamos que ele não fosse perigoso", afirmou Amato.

   "Mas, agora, estamos começando a temer, de modo justificado, que as coisas não sejam tão simples", acrescentou o premiê.

   O ministro da Defesa italiano, Sergio Mattarella, afirmou que a Otan disse ao governo italiano somente no mês passado que o urânio empobrecido tinha sido utilizado não apenas em Kosovo mas também na Bósnia.

   Um porta-voz da Otan confirmou que a aliança havia recebido o pedido do governo italiano de que "mais informações sobre os locais nos quais o urânio empobrecido foi utilizado" fossem divulgadas.

   "A Otan fará todo o possível para providenciar essas informações. A Itália é um membro (da aliança militar ocidental), e, se ela pede algo, a aliança faz todo o possível para ajudar", afirmou.
A declaração de Amato de que a "síndrome dos Bálcãs" é uma preocupação séria causou fortes reações na Itália.

   O Partido da Refundação Comunista, que apoiou o governo de centro-esquerda de 1996 a 1998, pediu que todas as tropas italianas sejam imediatamente retiradas da ex-Iugoslávia (Eslovênia, Bósnia, Croácia, Macedônia e a atual Iugoslávia, formada por Sérvia e Montenegro).

   Franco Giordano, líder do partido na Câmara, também pediu que Javier Solana, que era secretário-geral da Otan durante o conflito em Kosovo (1999), peça demissão de seu cargo atual -ele é responsável pela política externa da União Européia.

   Dentre os diversos problemas de saúde relacionados ao urânio empobrecido, alguns parecem ser recorrentes: cansaço constante, depressão grave, dores musculares e nas articulações e problemas de memória. Há também relatos de problemas cerebrais ou cutâneos e má-formação congênita, além de casos de câncer.

   Na última sexta, a Bélgica convocou os ministros da Defesa dos países da UE para discutir problemas de saúde apresentados por soldados que serviram nos Bálcãs. Portugal, por sua vez, ordenou que todos os militares e civis que estiveram em Kosovo sejam submetidos a exames.
Holanda e Espanha também expressaram preocupação em relação à possível exposição de seus soldados a urânio empobrecido durante o conflito em Kosovo.

   O oncologista bósnio Adnan Cardzic disse que os casos de câncer e leucemia têm aumentado no país, mas salientou que não pode afirmar que a causa disso seja a radioatividade do urânio empobrecido existente nos mísseis antitanques utilizados pela Otan. (Folha de São Paulo)

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