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A Itália anunciou ontem que
exortou a Otan a investigar denúncias de que seis soldados italianos, que morreram de
leucemia após servir nos Bálcãs, teriam desenvolvido a doença por terem sido expostos
a urânio empobrecido existente em munição usada pela aliança militar ocidental.
O primeiro-ministro da Itália, Giuliano Amato, disse ao jornal "La
Repubblica" que a preocupação sobre a chamada "síndrome dos Bálcãs" é
"legítima".
"Estamos diante de uma situação bastante delicada. Sempre soubemos
que o urânio empobrecido foi utilizado em Kosovo, mas não na Bósnia. Sempre acreditamos
que ele fosse perigoso em circunstâncias absolutamente excepcionais, como tocar algo que
tenha sido atingido por um projétil contendo urânio empobrecido. Já em circunstâncias
normais, acreditávamos que ele não fosse perigoso", afirmou Amato.
"Mas, agora, estamos começando a temer, de modo justificado, que as
coisas não sejam tão simples", acrescentou o premiê.
O ministro da Defesa italiano, Sergio Mattarella, afirmou que a Otan disse
ao governo italiano somente no mês passado que o urânio empobrecido tinha sido utilizado
não apenas em Kosovo mas também na Bósnia.
Um porta-voz da Otan confirmou que a aliança havia recebido o pedido do
governo italiano de que "mais informações sobre os locais nos quais o urânio
empobrecido foi utilizado" fossem divulgadas.
"A Otan fará todo o possível para providenciar essas informações.
A Itália é um membro (da aliança militar ocidental), e, se ela pede algo, a aliança
faz todo o possível para ajudar", afirmou.
A declaração de Amato de que a "síndrome dos Bálcãs" é uma preocupação
séria causou fortes reações na Itália.
O Partido da Refundação Comunista, que apoiou o governo de
centro-esquerda de 1996 a 1998, pediu que todas as tropas italianas sejam imediatamente
retiradas da ex-Iugoslávia (Eslovênia, Bósnia, Croácia, Macedônia e a atual
Iugoslávia, formada por Sérvia e Montenegro).
Franco Giordano, líder do partido na Câmara, também pediu que Javier
Solana, que era secretário-geral da Otan durante o conflito em Kosovo (1999), peça
demissão de seu cargo atual -ele é responsável pela política externa da União
Européia.
Dentre os diversos problemas de saúde relacionados ao urânio
empobrecido, alguns parecem ser recorrentes: cansaço constante, depressão grave, dores
musculares e nas articulações e problemas de memória. Há também relatos de problemas
cerebrais ou cutâneos e má-formação congênita, além de casos de câncer.
Na última sexta, a Bélgica convocou os ministros da Defesa dos países
da UE para discutir problemas de saúde apresentados por soldados que serviram nos
Bálcãs. Portugal, por sua vez, ordenou que todos os militares e civis que estiveram em
Kosovo sejam submetidos a exames.
Holanda e Espanha também expressaram preocupação em relação à possível exposição
de seus soldados a urânio empobrecido durante o conflito em Kosovo.
O oncologista bósnio Adnan Cardzic disse que os casos de câncer e
leucemia têm aumentado no país, mas salientou que não pode afirmar que a causa disso
seja a radioatividade do urânio empobrecido existente nos mísseis antitanques utilizados
pela Otan. (Folha de São Paulo) |