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TURIM,
Itália - Dario Trucco vai projetar um carro para um cliente, e cuidará da parte de
engenharia. Se necessário, ele também vai fabricá-lo, e ajudar a divulgá-lo.
A empresa da qual ele é o executivo-chefe, a Italdesign-Giugiaro, é uma
das várias empresas de design de veículos e engenharia automotiva deste centro
industrial no norte da Itália, que fornece qualquer um ou todos estes serviços por um
valor. Antes conhecidos como carrozzerie, a palavra italiana para construtores de
carroceria, eles são os costureiros de carros, criando formas clássicas para automóveis
que os museus não hesitam em exibir como obras de arte.
Em uma era de mercado globalizado, onde corporações gigantes lutam para
competir em mercados extensos, tais operadores de pequena escala podem parecer relíquias
de um período mais romântico. E de fato, eles traçam suas raízes a homens como
Giorgetto Giugiaro, o fundador da Italdesign, ou Sergio Pininfarina, um concorrente, que
projeta carros esportes e os constrói virtualmente à mão.
Mas eles são tudo menos datados. É verdade que os negócios caíram
recentemente, devido à consolidação na indústria automobilística que obrigou gigantes
como DaimlerChrysler, General Motors e Fiat a repensarem seus planos de produtos. Mas
estas empresas menores resistiram à corrida de fusões e aquisições que colocaram
fabricantes especializadas de carros como Bentley, Ferrari e Maserati na mãos das
gigantes. E devem enfrentar uma forte recuperação no setor, devido a seus
impressionantes talentos ajudarem os fabricantes restantes a projetarem e construírem
carros que se distingam das plataformas cada vez mais comuns do restante da frota de
veículos.
Poucas pessoas de fora do meio podem perceber, mas no setor
automobilístico estúdios externos de design estão assumindo um papel cada vez maior no
desenvolvimento de novos modelos. Com os automóveis se tornando cada vez mais um bem
necessário, as indústrias de produção em massa estão reduzindo o número de
plataformas de modelos ao mesmo tempo em que acrescentam variedade de oferta de modelos
aos consumidores baseados nestas plataformas. Para produzir novos modelos distintos em
plataformas cada vez mais comuns, a Volkswagen, GM e outras grandes fabricantes de carros
estão se voltando para empresas de design de pequeno e médio porte, muitas com sede nos
arredores de Turim.
O mercado global para design e produção de automóveis independentes
movimenta cerca de US$ 3 a 5 bilhões (R$ 5,8 a 9,7 bilhões), disse Trucco, um veterano
com 15 anos na Pininfarina e ex-executivo da Delphi Automotive Systems Corp. que se juntou
a Giugiaro em 1997, acrescentando que "o mercado europeu está vendo um crescimento
de dois dígitos".
Há empresas de design e fabricantes especializados fora da Itália. Na
Alemanha, por exemplo, empresas como Bertrandt AG, Karmann GmbH e a divisão de engenharia
da empresa de carros esporte Porsche são especializadas em vender projetos para grandes
empresas do setor automobilístico. Na França, a divisão de automóveis da Lagardere
Matra, um conglomerado de comunicação e aeroespacial, produz modelos para a Renault.
Apesar de trabalharem com estas firmas independentes, as grandes empresas
criaram suas próprias divisões de design. A Volkswagen estabeleceu um centro de design
em Barcelona, Espanha, enquanto a Toyota montou seu centro europeu de design em
Sophia-Antipolis, no sul da França. E nos Estados Unidos, uma série de centros de design
de automóveis -tanto independentes quanto de grandes empresas- estão localizados no Sul
da Califórnia.
Porém as empresas internas dificilmente conseguem competir em termos de
agilidade na solução de problemas, em parte por causa de sua rapidez na solução de
problemas, e em parte porque a independência e pequeno tamanho delas as tornam ágeis,
assim como sua disposição em compartilhar fornecedores e experiência de fabricação
umas com as outras.
Quando as encomendas são grandes e o tempo é curto, estas empresas não
hesitam em utilizar o mesmo fornecedor, geralmente uma pequena oficina com um punhado de
empregados, para produzir uma parte necessária ou um modelo em escala. E poucos
concorrentes de outros países conseguem igualar a consistente impetuosidade e
versatilidade das casas de design italianas, que ao longo de grande parte do último
século produziu clássicos, da Ferrari Testarossa até o Volkswagen Golf.
A indústria de design de automóveis da região, que remonta o início da
indústria automobilística em Turim há um século, floresceu após a Segunda Guerra
Mundial sob a direção de homens como Nuccio Bertone. Bertone, que morreu em 1997, criou
uma rede de negócios particularmente ampla, em uma era em que a palavra globalização
era desconhecida. Nos anos 1950, quando os escombros da guerra mal tinham sido recolhidos,
ele fornecia projetos e produtos para a Arnold, um fabricante especializada de automóveis
de Indiana, para a Simca da França e a BMW da Alemanha. Em 1961, ele estava fornecendo
projetos e engenharia para uma empresa japonesa com sede em Hiroshima, que posteriormente
se tornaria a Mazda. Tais atividades ajudaram Bertone e outras empresas, graças a troca
de experiência, a reunir a melhor da tecnologia e das práticas de design.(John Tagliabue,
The New York Times. Tradução: Geor George El Khouri Andolfato). |