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ROMA - O Jubileu se foi. O ar de festa acabou. Depois de viver um ano
frenético, com a visita de cerca de 45 milhões de pelegrinos, o Vaticano
prepara-se para a sucessão de João Paulo II. Porém, a substituição do
papa que veio do frio, como é conhecido o octagenário Karol Wojtyla na
Itália, ainda é assunto proibido entre aqueles que fazem parte do
pequeno Estado encravado em meio às ruas de Roma. Como se fosse um
pecado discutir a questão, todos são categóricos em afirmar: o polonês
ainda vai levar um bom tempo à frente da Igreja católica.
No entanto, as notícias que vazam dos
muros do próprio Vaticano dão a entender o contrário. Já corre a boca pequena, por
exemplo, que o Domus Santa Marta, o maior e mais requintado palácio-hotel do pequeno
país, com as suas 105 suítes e 26 quartos de solteiro prepara-se para receber os 120
cardeais que participarão do conclave que vai escolher o 265.º Papa da história.
Mas quando será? Em junho, em julho, em setembro, no
próximo ano? Só Deus sabe. Porém, se pensar não for pecado, os cálculos e
elucubrações começam a correr soltos. No caso, o universo dos 120 eleitos 97 já são
conhecidos , é formado por uma fauna heterogênea dos cinco continentes, o que indica,
segundo os vaticanistas de plantão, que a eleição poderá ser demorada.
A diversidade, no entanto, não implicaria, ainda
segundo os vaticanistas, a existência de correntes contrárias em meio à maioria do
colégio eleitoral. Longe disto. Isso porque, grande parte dos cardeais são fiéis
seguidores do Papa. Dentro de alguns dias, aliás, João Paulo II deverá nomear 30 novos
cardeais que farão parte do próximo conclave. Os eleitos devem possuir menos de 80 anos
e serão escolhidos entre os seus colaboradores romanos e os arcebispos das dioceses mais
importantes do mundo.
Aclamação
Até 1978, para eleger-se Papa, um cardeal precisava da
aprovação de 2/3 mais 1 do colégio eleitoral. Mas Paulo VI deixou em aberto a
possibilidade de vigorar métodos segundo os quais o pontífice poderia sair via
aclamação ou compromisso . Essa última possibilidade, no caso, permitiria a escolha
através de um pequeno grupo, desde que a maioria não chegasse a um consenso.
Inovador, depois que assumiu, João Paulo II decidiu
que a escolha será feita apenas pelo voto secreto, o que pressupõe que a sua
substituição será mais democrática e aguerrida.
E, justamente prevendo tal
possibilidade, foi que Wojtila instituiu também a regra segundo a qual os dois candidatos
mais votados poderão enfrentar-se diretamente, desde que não se alcance a maioria
estabelecida nas três primeiras votações. Tal método, segundo o vaticanista Giancarlo
Zizola, poderá fazer com que uma minoria bem organizada possa paralisar as votações
para entrar no jogo no momento em que achar ideal. (Raul Moreira, EM)
| Papa não
renuncia porque é um forte
Elucubrações
à parte, para que saia um eleito, será preciso que João Paulo II jogue a toalha. Tal
possibilidade, aliás, tornou-se um dos assuntos mais comentados entre os vaticanistas nos
últimos meses. Como afirma Giancarlo Zizola, juridicamente tal possibilidade existe. Ele
pode renunciar baseado nos estatutos do direito canônico , diz o vaticanista.
Caso venha a renunciar, João Paulo II será o segundo
Papa a tomar tal decisão. Em 1924, Celestino V o fez, o que não causou muito
espalhafato. Em 1415, Gregório XII, para evitar um banho de sangue que poderia gerar a
existência de dois papas ao mesmo tempo também resolveu deixar o cargo. O Papa, por ser
a autoridade suprema da Igreja, pode renunciar sem que para isso tenha de consultar ou
depender de terceiros.
No entanto, um outro vaticanista, no caso Marco Politi,
autor do livro biográfico Sua Santidade e conhecedor do Papa de velhas datas, diz que tal
possibilidade não condiz com o seu caráter. Ele não fará isto porque é um forte ,
afirma, para depois completar: Acho que Wojtila vai continuar à frente da Igreja mesmo em
estado precário de saúde: o seu sacrifício será levar adiante o reinado com todas as
dores do seu corpo, em nome do bem da Igreja .
Mais viagens
Oficialmente, Wojtila sofre de mal de Parkison, doença
que o deixa trêmulo e causa uma certa rigidez na sua face, o que o impede de falar com
desenvoltura. Segundo fontes ligadas ao Vaticano, o Papa estaria usando uma série de
medicamentos de última geração que aliviam um pouco o efeito da doença. Apesar de
tudo, ele continua lúcido, o que, pelo menos em tese, garante a sua permanência à
frente da Igreja , diz Politi.
Para combater os insistentes boatos de
que renunciaria após o Jubileu, que encerrou-se dia 6, o Vaticano fez saber que o Papa
tem intenção de visitar três países este ano: Ucrânia, Armênia e Grécia. Falou-se,
também, em uma viagem ao Brasil, onde encontra-se o seu maior rebanho, mas, pelo menos
até o momento, o Vaticano não a oficializou. |
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