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Vaticano prepara sucessão do Papa

16/01/2001

 

 

   ROMA - O Jubileu se foi. O ar de festa acabou. Depois de viver um ano frenético, com a visita de cerca de 45 milhões de pelegrinos, o Vaticano prepara-se para a sucessão de João Paulo II. Porém, a substituição do papa que veio do frio, como é conhecido o octagenário Karol Wojtyla na Itália, ainda é assunto proibido entre aqueles que fazem parte do pequeno Estado encravado em meio às ruas de Roma. Como se fosse um pecado discutir a questão, todos são categóricos em afirmar: o polonês ainda vai levar um bom tempo à frente da Igreja católica.

   No entanto, as notícias que vazam dos muros do próprio Vaticano dão a entender o contrário. Já corre a boca pequena, por exemplo, que o Domus Santa Marta, o maior e mais requintado palácio-hotel do pequeno país, com as suas 105 suítes e 26 quartos de solteiro prepara-se para receber os 120 cardeais que participarão do conclave que vai escolher o 265.º Papa da história.

   Mas quando será? Em junho, em julho, em setembro, no próximo ano? Só Deus sabe. Porém, se pensar não for pecado, os cálculos e elucubrações começam a correr soltos. No caso, o universo dos 120 eleitos 97 já são conhecidos , é formado por uma fauna heterogênea dos cinco continentes, o que indica, segundo os vaticanistas de plantão, que a eleição poderá ser demorada.

   A diversidade, no entanto, não implicaria, ainda segundo os vaticanistas, a existência de correntes contrárias em meio à maioria do colégio eleitoral. Longe disto. Isso porque, grande parte dos cardeais são fiéis seguidores do Papa. Dentro de alguns dias, aliás, João Paulo II deverá nomear 30 novos cardeais que farão parte do próximo conclave. Os eleitos devem possuir menos de 80 anos e serão escolhidos entre os seus colaboradores romanos e os arcebispos das dioceses mais importantes do mundo.

Aclamação

   Até 1978, para eleger-se Papa, um cardeal precisava da aprovação de 2/3 mais 1 do colégio eleitoral. Mas Paulo VI deixou em aberto a possibilidade de vigorar métodos segundo os quais o pontífice poderia sair via aclamação ou compromisso . Essa última possibilidade, no caso, permitiria a escolha através de um pequeno grupo, desde que a maioria não chegasse a um consenso.

   Inovador, depois que assumiu, João Paulo II decidiu que a escolha será feita apenas pelo voto secreto, o que pressupõe que a sua substituição será mais democrática e aguerrida.

   E, justamente prevendo tal possibilidade, foi que Wojtila instituiu também a regra segundo a qual os dois candidatos mais votados poderão enfrentar-se diretamente, desde que não se alcance a maioria estabelecida nas três primeiras votações. Tal método, segundo o vaticanista Giancarlo Zizola, poderá fazer com que uma minoria bem organizada possa paralisar as votações para entrar no jogo no momento em que achar ideal. (Raul Moreira, EM)

Papa não renuncia porque é um forte

  Elucubrações à parte, para que saia um eleito, será preciso que João Paulo II jogue a toalha. Tal possibilidade, aliás, tornou-se um dos assuntos mais comentados entre os vaticanistas nos últimos meses. Como afirma Giancarlo Zizola, juridicamente tal possibilidade existe. Ele pode renunciar baseado nos estatutos do direito canônico , diz o vaticanista.

  Caso venha a renunciar, João Paulo II será o segundo Papa a tomar tal decisão. Em 1924, Celestino V o fez, o que não causou muito espalhafato. Em 1415, Gregório XII, para evitar um banho de sangue que poderia gerar a existência de dois papas ao mesmo tempo também resolveu deixar o cargo. O Papa, por ser a autoridade suprema da Igreja, pode renunciar sem que para isso tenha de consultar ou depender de terceiros.

  No entanto, um outro vaticanista, no caso Marco Politi, autor do livro biográfico Sua Santidade e conhecedor do Papa de velhas datas, diz que tal possibilidade não condiz com o seu caráter. Ele não fará isto porque é um forte , afirma, para depois completar: Acho que Wojtila vai continuar à frente da Igreja mesmo em estado precário de saúde: o seu sacrifício será levar adiante o reinado com todas as dores do seu corpo, em nome do bem da Igreja .

Mais viagens

  Oficialmente, Wojtila sofre de mal de Parkison, doença que o deixa trêmulo e causa uma certa rigidez na sua face, o que o impede de falar com desenvoltura. Segundo fontes ligadas ao Vaticano, o Papa estaria usando uma série de medicamentos de última geração que aliviam um pouco o efeito da doença. Apesar de tudo, ele continua lúcido, o que, pelo menos em tese, garante a sua permanência à frente da Igreja , diz Politi.

  Para combater os insistentes boatos de que renunciaria após o Jubileu, que encerrou-se dia 6, o Vaticano fez saber que o Papa tem intenção de visitar três países este ano: Ucrânia, Armênia e Grécia. Falou-se, também, em uma viagem ao Brasil, onde encontra-se o seu maior rebanho, mas, pelo menos até o momento, o Vaticano não a oficializou.  

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