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Mulheres chefiam máfia italiana

30/01/2001

 

 

   A polícia de Nápoles, no sul da Itália, deteve na semana passada a mulher de um chefão mafioso preso, em mais um sinal de que as mulheres italianas já estão conseguindo superar a desigualdade entre os sexos -pelo menos na área da indústria do crime organizado.

   A mulher detida era Carmela Marzano, cujo marido, Luigi Giuliano, era o chefão de um clã da rede criminosa Camorra até ser preso, no início dos anos 90.

   Ao que tudo indica, na ausência do marido, Carmela Marzano teria assumido parte dos deveres dele. Ela foi acusada de ameaçar a viúva de um mafioso rival.

   A viúva em questão queria depor contra os acusados do assassinato, em 1999, de seu marido -justamente o genro de Marzano- e de dois amigos dele. A filha de Carmela Marzano, Marianna, também foi presa.

   "Presente de Natal" - A prisão de Carmela Marzano se deu poucas semanas depois de a mesma coisa ter acontecido a uma chefona vista como ainda mais poderosa -sua cunhada, Erminia Giuliano.

   Segundo os investigadores, Erminia teria assumido a direção dos negócios criminosos da família Giuliano depois que seus cinco irmãos foram presos, ao longo da década passada.
Quando sua prisão foi anunciada, o ministro do Interior da Itália, Enzo Bianco, descreveu o acontecimento como "um belíssimo presente de Natal para a segurança de Nápoles".

   Novo papel feminino - Mas uma das principais rivais de Erminia Giuliano, Maria Licciardi, irmã e herdeira de um chefão morto da Camorra e que, segundo a polícia, dirige uma das facções mais violentas e fortemente entrincheiradas da Camorra, está foragida. Licciardi é conhecida em sua região como a "princesa da Camorra".

   A imagem estereotipada da mulher do mafioso -leal, obediente e sempre calada- começou a mudar quando o papel das mulheres no crime organizado se viu sensivelmente ampliado, com a queda dos antigos códigos de honra que protegiam as mulheres e as crianças. Com isso, as mulheres também começaram a se tornar alvos de ataques dentro da máfia.

   Laços de família - Em 1995, Carmela Santapaola, mulher do chefão de uma família do leste da Sicília, foi morta a tiros por dois pistoleiros no apartamento de sua família, diante de sua filha.
Ela foi possivelmente a primeira mafiosa importante assassinada por vingança mafiosa, mas não a única.

   No início dos anos 80, quando promotores italianos declararam guerra ao crime organizado, informantes começaram a romper o código de silêncio mafioso, e outros tabus também foram jogados por terra.

   O surgimento das chefonas mafiosas é muito mais perceptível em Nápoles do que na Sicília. Segundo a polícia, isso se deve em parte às diferenças culturais entre as duas regiões.
"Os laços de família são muito mais fortes aqui, e as mulheres sempre exerceram papéis mais dominantes na família aqui em Nápoles do que na Sicília", disse Giuseppe Donno, porta-voz do departamento de polícia napolitana.

   "Dizem que por trás de cada grande homem existe uma mulher forte, e essa máxima se aplica também às famílias criminosas", afirmou Donno.

   Homens mortos - Mesmo em Nápoles, porém, a repentina ascensão das mulheres mafiosas é reflexo não somente de seu poder aumentado e de sua atitude implacável mas também do desaparecimento sucessivo dos homens.

   Mulheres estão sendo recrutadas para o crime para tomar o lugar de seus parentes homens que estão presos ou foram mortos pela rivalidade entre clãs.

   Outra razão é que a Camorra, por sua própria natureza -um aglomerado de clãs rivais - é uma organização muito menos estruturada e centralizada do que a Cosa Nostra siciliana.
Sem uma cúpula central ou um chefão principal, forte o suficiente para impor a ordem, os clãs acabam recorrendo a parentes próximos para preencher o vácuo do poder, mesmo que esses parentes sejam mulheres ou irmãs. Mas esse processo não é isento de certa dose de guerra dos sexos.

   Machismo - A história por trás da prisão de Marzano leva a crer que existam rivalidades acirradas mesmo entre familiares no interior da rede da Camorra, sem falar num machismo latente.

   Carmela Marzano é acusada de ter ajudado seu genro, Michele Mazzarella, a escapar de condenação pelo assassinato, em 1999, de Giuseppe Ginosa.

   Segundo a polícia, Ginosa estava criando obstáculos aos esforços de Mazzarella para tomar o território da família Giuliano das mãos de, entre outros, Erminia Giuliano.

   E Carmela Marzano se tornou chefona apenas porque o único homem herdeiro direto dos negócios da família -um sobrinho, Pio Vittorio Giuliano- foi julgado incapaz de assumir a liderança.

   Nas palavras de um relatório da polícia napolitana: "Ele queria se tornar o "capo", mas não possuía as qualidades necessárias para isso e não era muito respeitado em sua própria família". (ALESSANDRA STANLEY, do "THE NEW YORK TIMES", EM ROMA. Tradução de Clara Allain, FSP)

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