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O dia 27 de
janeiro de 1901 caiu num domingo. Fazia frio em Milão. Às 14h50, morria Giuseppe
Fortunino Francesco Verdi. Ele morava numa suíte do Grand Hotel. Estava em companhia da
amiga Teresa Stolz, de seu último libretista, Arrigo Boito, do advogado Umberto Campanari
e dos editores Julio e Tito Ricordi.
Uma multidão silenciosa reuniu-se diante do prédio. As
lojas milanesas baixaram suas portas por três dias. O Scala e os demais teatros
cancelaram sua programação. Em toda a Itália, jornais circularam com uma tarja negra ao
lado dos logotipos. No final da tarde, em Roma, o Senado reuniu-se para homenageá-lo.
O velho músico estava então com 87 anos. Era bem mais que o
compositor de 26 óperas. Tornara-se uma espécie de herói nacional por ter se
sobressaído na multidão de patriotas no processo de reunificação política italiana.
Verdi sofrera um acidente cardiovascular no dia 21. As ruas
nas imediações do Grand Hotel foram cobertas de palha para que as rodas das carruagens e
dos fiacres não produzissem ruídos que atrapalhassem seu repouso.
Seu testamento exigia um funeral discreto, sem música ou
discursos. A vontade foi respeitada no transporte do esquife até uma sepultura
provisória. Mas, um mês depois, ele e sua segunda mulher, a soprano Giuseppina
Strepponi, morta quatro anos antes, foram transladados ao mausoléu de um asilo para
músicos, a Casa di Riposo, que Verdi fizera construir em Milão. Foi quando a cidade
literalmente parou.
Integravam o cortejo dignitários, diplomatas e membros da
família real italiana, políticos e compositores -Puccini, Mascanni, Leoncavallo. Cerca
de 28 mil pessoas cercavam o caixão. Suas vozes se misturavam às dos músicos do La
Scala que, regidos por Arturo Toscanini, interpretaram "Va, Pensiero Sull'Ali
Dorate", o conhecido coro de "Nabucco".
O século 19 foi pródigo em grandes compositores. A ópera
teve só dois nomes de grandeza exemplar: Verdi e Richard Wagner, ambos nascidos em 1813.
Wagner morrera em Veneza, em 1883. Verdi era o último monumento.
Os cem anos da morte de Verdi estão sendo lembrados de uma
forma muito intensa nas principais cenas líricas do mundo.
No Scala de Milão, teatro em que ele estreou boa parte de
suas óperas, dez das 23 produções da temporada são do compositor.
Na Ópera Estatal de Viena, são oito os compositores
programados para este mês de janeiro. Mas de Verdi estão sendo encenadas 12 óperas.
Munique está, na Ópera Estatal, com quatro produções este mês. Em Nova York, o Met
montará cinco Verdi até junho (veja quadro nesta página).
São Paulo terá duas óperas, ambas produzidas pelos
Patronos do Teatro Municipal. Serão "La Traviata", regida por Reinaldo
Censabella, e "Il Trovatore", sob direção de Gyorgy Gyorivanyi.
Uma recente pesquisa indicou que a maioria dos italianos prefere a música do coro de
escravos em "Nabucco" a seu próprio hino nacional, composição de Goffredo
Mameli com o título de "Irmãos da Itália". (João Batista Natali, FSP)
| Música era pensada como teatro
Verdi é, antes de mais nada, o autor de uma profusão de
peças de incrível beleza melódica. Na história do teatro lírico, talvez só Mozart
tenha conseguido produzir o belo de forma tão frequente em árias, duetos ou coros de uma
mesma ópera.
A ópera em seu tempo não era programa para gente
endinheirada ou culta. Era popular, com produções frequentemente baratas e ingressos
acessíveis. O compositor de sucesso tornava-se, então, um personagem público. Foi como
músico que Verdi se projetou na política, como deputado e em seguida senador.
Há em Verdi uma idéia essencialmente narrativa da música.
A música descreve a ação, os sentimentos, o amor, as intenções pérfidas.
Não era algo inédito. Nova era a intensidade com que esses
recursos eram utilizados. Podia-se dar vazão aos sentimentos de forma mais explícita,
exacerbada. Se as cordas, as madeiras e os metais não dão conta do ódio enlutado de
Rigoletto, que se use também a percussão.
Entre "La Traviata" (1853) e "Otello"
(1887) ou "Falstaff" (1893), há um salto bastante perceptível. A escrita
envereda pela complexidade dos sentimentos ambíguos: Otello ama Desdêmona, mas,
enciumado, deverá mesmo assim matá-la. (JBN) |
| CRONOLOGIA
1813 - Nasce a 10 de outubro em Le Roncole, perto de Parma
1823 - Depois de se interessar pela música, muda-se para Busseto, para fazer o
curso secundário e estudar música com Ferdinando Provesi
1832 - O Conservatório de Milão se recusa a matriculá-lo. Tem aulas com Vincenzo
Lavigna
1836 - Casa-se com Margherita Barezzi
1939 - Estréia a primeira ópera, "Oberto", no Scala, com 14 récitas e
crítica favorável. Assina contrato com o editor Ricordi
1840 - Margherita morre de encefalite. Aproxima-se da soprano Giuseppina Strepponi,
que o apoiaria e evitaria uma depressão
1842 - Estréia de "Nabucco", em Milão. No ano seguinte, estrearia
"I Lombardi"
1844 - Estréia de "Ernani", com sucesso, em Veneza, e de "I Due
Foscari", em Roma, seguindo-se no ano seguinte "Giovanna D"Arco", em
Milão
1846 - Estréia de "Attila", em Veneza, seguida de "Macbeth",
em Florença, em 1847
1848 - "Il Corsaro" estréia em Trieste
1849 - Estréia em Roma "La Battaglia di Legnano", sucesso pelo
significado político que o público atribui. Estréia de "Luisa Miller", em
Nápoles. No ano seguinte, "Stiffelio", em Trieste
1850 - "Rigoletto", estreado no La Fenice; "Il Trovatore" e
"La Traviata", ambas em 1953, são marcas da qualidade de sua música
1853 - Verdi e Giuseppina mudam-se para Paris, onde dois anos depois estrearia
"Les Vêpres Siciliènnes"
1858 - Tentativa de estréia de "Un Ballo in Maschera", em Nápoles, onde
a censura tenta mutilar a ópera. Ela estréia, então, em Roma
1859 - O compositor se casa com Giuseppina
1860 - Eleito deputado por Busseto na Assembléia de Parma
1862 - Estréia de "La Forza del Destino", em São Petersburgo
1870 - "Aida" estréia no Cairo; em fevereiro de 1872, estrearia em
Milão. No ano seguinte, seria a "Missa de Requiem"
1874 - É nomeado para o Senado italiano
1887 - Estréia de "Otello", no La Scala
1893 - Estréia de "Falstaff", no La Scala
1897 - Morte de Giuseppina
1901 - Morre a 27 de janeiro |
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