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Posição da Itália sobre euro revela divisões na UE

08/01/2002

 

 

Críticas de ministros italianos mostram problemas e desvalorizam moeda única européia

GILLES LAPOUGE
Correspondente

   PARIS - A moeda única européia começou a circular no dia 1.º de janeiro. Com fanfarra. Com trompetes, gritos de vitória, fogos de artifício e auto-admiração. E elevação do euro em relação ao dólar. Uma semana depois, o euro se curva diante do dólar. Ontem sua cotação caiu para US$ 0,8933. É que uma das nações que aderiram ao euro, a Itália, do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, deu uma "desafinada" monumental justamente sobre o euro.

   Na verdade, o ministro das Relações Exteriores de Roma, o eurófilo Renato Ruggiero, renunciou. Reagiu, assim, a uma torrente de pequenas frases que seus colegas de governo (os outros ministros de Berlusconi) espalharam contra o euro.

   O ministro da Economia, Giulio Tremonti, "duvida que a idéia da Europa conduza à paz". O ministro da Defesa, Antonio Martino (que já bloqueou a participação italiana em um avião militar europeu), prenunciou um "fracasso" do euro. E, enfim, Bossi, a lebre, chefe da Liga do Norte (o partido separatista, populista, de extrema direita) brada: "O euro... não tem o menor interesse!"

   E Berlusconi? O homem de negócios, ultraliberal, voaria para socorrer o euro, ou seja, para tomar partido de seu ministro eurófilo das Relações Exteriores? De maneira alguma. Berlusconi aceita a renúncia de Ruggiero. Ele mesmo vai dirigir a diplomacia italiana.

   Não é de se espantar. Berlusconi jamais foi eurófilo. E a Europa sempre deconfiou dele. Quando conseguiu voltar ao poder, com a direita (o que não é grave), mas também com a extrema direita (Bossi), houve quem quisesse, na União Européia, que a Itália fosse banida da Europa, mais ou menos como havia poucos meses a Áustria por causa do "neonazista" Jorg Haider. No entanto, a Europa não se mexeu, com toda razão, considerando que essas "sanções" são piores que o próprio mal.

   Conseqüentemente, Berlusconi sentiu-se no direito de mostrar para a Europa seu poder. Deixou seus ministros declararem seu euroceticismo. Torpedeou vários projetos da União Européia.

   O nascimento do euro tira as máscaras: a Itália esteve na origem da União Européia (Alcide de Gasperi com Conrad Adenauer e Robert Schumann). Foram feitos sacrifícios cruéis para pôr a Itália nas normas financeiras muito duras exigidas para entrar na zona do euro.

   Ora, hoje, a equipe de Berlusconi não perde uma oportunidade para ignorar ou desprezar o euro. Portanto, está claro que se Roma continuar na Europa, é com a esperança de vê-la evoluir para uma vasta área de "livre-câmbio", mas sem o menor vínculo político, militar e diplomático. Dizem, na Europa, que "Berlusconi é uma espécie de Margareth Thatcher, pelo menos em matéria de temperamento".

   O paradoxo é que esse mesmo euro, que faz um de seus fundadores "se mandar", produz o efeito inverso em outros países que pertencem à União Européia, mas que não quiseram aderir ao euro: o Reino Unido, a Dinamarca, a Suécia, impressionados com o dinamismo do euro, temem o isolamento econômico e gostariam de se unir à zona euro.

   Diferenças - Vê-se como o euro, apesar de seu desempenho, permanece uma moeda com problemas. É o ônus de uma união de doze países. Basta que um dos parceiros cisme para que todo o sistema fique ameaçado de paralisia ou de desordem.

   No caso da Itália, há um outro perigo: a União Européia está dividida em duas zonas: sul e norte. Os países do sul são frágeis: por exemplo, Portugal e Grécia. Há também dois poderosos, Espanha e Itália.

   Nos Estados do norte, ao contrário, encontram-se a locomotivas mais sólidas, com a Alemanha à frente. A França, outra locomotiva, está metade no sul e metade no norte.

   A Europa setentrional considera, com alguma condescendência, o sul do continente europeu. Se for confirmada a fraqueza atual da Itália, a fachada sul ainda ficará mais apagada. Os alemães jamais esconderam o desprezo que sentem por esses "europeus do sul". Eles falam de "o Euro club Med".

   Existe uma outra hipótese: que Berlusconi, cujos imbróglios industriais, financeiros e televisivos já deram muito o que falar, acabe sendo vítima do governo arrogante e cheio de caprichos que ele comanda. E que seja obrigado a renunciar. Não se deve esquecer que a maioria do povo italiano é eurófilo. (© O Estado de S. Paulo)

Berlusconi afirma que defende fortalecimento da Europa

da Reuters, em Roma

   O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, disse em uma entrevista publicada hoje que seu governo está firmemente comprometido com o fortalecimento da Europa, apesar da renúncia do chanceler Renato Ruggiero, que deixou o cargo no fim-de-semana acusando o gabinete de torpedear a unificação monetária.

   Ontem, Berlusconi assumiu pessoalmente, de forma interina, a pasta das Relações Exteriores. Ele disse ao jornal "Corriere della Sera" que só deve nomear um novo ministro em junho e que nada mudará na posição italiana de defesa da União Européia.

   "Estamos firmemente convencidos de que o futuro de nosso país está numa Europa fortalecida, que saiba falar numa só voz e aliar a unificação econômica à unificação política, com uma nova Constituição", disse Berlusconi.

   A nova Constituição, segundo ele, é importante para permitir a ampliação da União Européia para o leste do continente e para definir sua política externa e de segurança.

   O primeiro-ministro disse que não tem pressa para escolher o novo chanceler, que deve ser um político, não um "tecnocrata" como Ruggiero, ex-presidente da Organização Mundial de Comércio.

   A renúncia de Ruggiero provocou preocupação em outros países da UE. O ministro francês das Finanças, Laurent Fabius, pediu na hoje que Berlusconi demonstre claramente seu compromisso com o grupo, já que perdeu um de seus ministros mais "eurófilos". "É necessária uma explicação", afirmou.

   Berlusconi disse que Ruggiero deixou o governo porque tinha sérias dúvidas sobre o compromisso italiano com a Europa. "Não era mais possível para nós avançar assim, tendo que provar nosso europeísmo a cada dia", afirmou.
(© A Folha de S. Paulo)
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