PARIS - A moeda única européia
começou a circular no dia 1.º de janeiro. Com fanfarra. Com trompetes, gritos de
vitória, fogos de artifício e auto-admiração. E elevação do euro em relação ao
dólar. Uma semana depois, o euro se curva diante do dólar. Ontem sua cotação caiu para
US$ 0,8933. É que uma das nações que aderiram ao euro, a Itália, do primeiro-ministro
Silvio Berlusconi, deu uma "desafinada" monumental justamente sobre o euro.
Na verdade, o ministro das Relações Exteriores de Roma, o eurófilo
Renato Ruggiero, renunciou. Reagiu, assim, a uma torrente de pequenas frases que seus
colegas de governo (os outros ministros de Berlusconi) espalharam contra o euro.
O ministro da Economia, Giulio Tremonti, "duvida que a idéia da
Europa conduza à paz". O ministro da Defesa, Antonio Martino (que já bloqueou a
participação italiana em um avião militar europeu), prenunciou um "fracasso"
do euro. E, enfim, Bossi, a lebre, chefe da Liga do Norte (o partido separatista,
populista, de extrema direita) brada: "O euro... não tem o menor interesse!"
E Berlusconi? O homem de negócios, ultraliberal, voaria para socorrer o
euro, ou seja, para tomar partido de seu ministro eurófilo das Relações Exteriores? De
maneira alguma. Berlusconi aceita a renúncia de Ruggiero. Ele mesmo vai dirigir a
diplomacia italiana.
Não é de se espantar. Berlusconi jamais foi eurófilo. E a Europa sempre
deconfiou dele. Quando conseguiu voltar ao poder, com a direita (o que não é grave), mas
também com a extrema direita (Bossi), houve quem quisesse, na União Européia, que a
Itália fosse banida da Europa, mais ou menos como havia poucos meses a Áustria por causa
do "neonazista" Jorg Haider. No entanto, a Europa não se mexeu, com toda
razão, considerando que essas "sanções" são piores que o próprio mal.
Conseqüentemente, Berlusconi sentiu-se no direito de mostrar para a
Europa seu poder. Deixou seus ministros declararem seu euroceticismo. Torpedeou vários
projetos da União Européia.
O nascimento do euro tira as máscaras: a Itália esteve na origem da
União Européia (Alcide de Gasperi com Conrad Adenauer e Robert Schumann). Foram feitos
sacrifícios cruéis para pôr a Itália nas normas financeiras muito duras exigidas para
entrar na zona do euro.
Ora, hoje, a equipe de Berlusconi não perde uma oportunidade para ignorar
ou desprezar o euro. Portanto, está claro que se Roma continuar na Europa, é com a
esperança de vê-la evoluir para uma vasta área de "livre-câmbio", mas sem o
menor vínculo político, militar e diplomático. Dizem, na Europa, que "Berlusconi
é uma espécie de Margareth Thatcher, pelo menos em matéria de temperamento".
O paradoxo é que esse mesmo euro, que faz um de seus fundadores "se
mandar", produz o efeito inverso em outros países que pertencem à União Européia,
mas que não quiseram aderir ao euro: o Reino Unido, a Dinamarca, a Suécia,
impressionados com o dinamismo do euro, temem o isolamento econômico e gostariam de se
unir à zona euro.
Diferenças - Vê-se como o euro, apesar de seu desempenho,
permanece uma moeda com problemas. É o ônus de uma união de doze países. Basta que um
dos parceiros cisme para que todo o sistema fique ameaçado de paralisia ou de desordem.
No caso da Itália, há um outro perigo: a União Européia está dividida
em duas zonas: sul e norte. Os países do sul são frágeis: por exemplo, Portugal e
Grécia. Há também dois poderosos, Espanha e Itália.
Nos Estados do norte, ao contrário, encontram-se a locomotivas mais
sólidas, com a Alemanha à frente. A França, outra locomotiva, está metade no sul e
metade no norte.
A Europa setentrional considera, com alguma condescendência, o sul do
continente europeu. Se for confirmada a fraqueza atual da Itália, a fachada sul ainda
ficará mais apagada. Os alemães jamais esconderam o desprezo que sentem por esses
"europeus do sul". Eles falam de "o Euro club Med".
Existe uma outra hipótese: que Berlusconi, cujos imbróglios industriais,
financeiros e televisivos já deram muito o que falar, acabe sendo vítima do governo
arrogante e cheio de caprichos que ele comanda. E que seja obrigado a renunciar. Não se
deve esquecer que a maioria do povo italiano é eurófilo.