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Primeiro foi a conturbada separação da
mulher, depois seus problemas com o fisco e agora, na semana em que perde a mãe e
estréia nova 'Tosca', em Londres, o mundo da música se pergunta sobre os limites de sua
voz e o momento de sua aposentadoria
ADAM
SWEETING
DPA
MODENA, Itália - Ele tem aparecido muito na impresa
ultimamente, tanto por seus problemas com o fisco e seus conflitos conjugais quanto por
seu famoso canto. Na quinta-feira, mais notícias sobre ele: perdeu a mãe, dona Adele
Venturi, aos 86 anos.
'Ele' é Luciano Pavarotti, o mais facilmente
reconhecido embaixador da ópera no mundo. Quatro das apresentações que fará este mês,
na Royal Opera House, em Londres, começando neste fim de semana, serão no mesmo papel, o
de Cavaradossi, da ópera Tosca. Apesar da morte de dona Adele, o tenor declarou que vai
cantar as récitas previstas. Lição de profissionalismo.
Para fechar a boca de quem espalhou as escandalosas
notícias sobre a enorme extensão de suas supostas propriedades na Itália, Pavarotti faz
questão de deixar claro que não tem, no momento, nenhuma casa em Modena, onde ele
cresceu e onde sua família ainda vive. O cantor fica hospedado na "villa" de um
amigo, com sua Audi vermelha estacionada em frente da porta da mansão. A placa do
veículo é de Monte Carlo, também deixando bem claro a versão que o cantor sempre
sustentou: sua residência oficial está no Principado de Mônaco. Ele é "um
cidadão italiano que trabalha no exterior", como gosta de dizer.
Pavarotti manteve uma grande amizade com Enzo Ferrari,
fundador da fabulosa equipe de pilotos de corrida, com sede em Modena. Mas ele nunca teve
o físico apropriado para ser piloto. "Certa vez, Ferrari me chamou e disse: 'Quero
dar-lhe um de meus carros por um ou dois meses'. Eu olhei o carro e disse: 'Senhor
Ferrari, é muito pequeno.' Mas ele retrucou: 'Você pode entrar nele.' Então, respondi
que depois seria preciso um saca-rolhas para me tirar de lá."
Aos 66 anos, Pavarotti planeja cuidadosamente seu
trabalho, com a ajuda de sua sócia e organizadora de carreira, Nicoletta Mantovani.
"Meu esquema de trabalho não é lá tão carregado assim", diz, tentando
minimizar sua carga de compromissos. "Quarenta apresentações por ano - não chega
nem mesmo a uma por semana."
Adeus - Correm muitos boatos de que a pungente
história de amor, prazer, tortura e morte de Puccini servirá como o "canto do
cisne" de Pavarotti nesta temporada na Royal Opera House. Outros dizem que esta
poderá ser a última vez que o tenor será visto ali, interpretando um papel completo em
uma ópera. Mas, como Frank Sinatra e James Bond, Pavarotti nunca diz nunca.
Durante pelo menos uma década, comentários maldosos
vêm predizendo o fim da voz de Pavarotti ou o iminente colapso de sua carreira, mas o
tenor está demonstrando uma resistência notável. "Tenho de esquentá-la e
exercitá-la bem mais, mas ela ainda está aqui", diz ele, sobre sua voz. Seus
recentes conflitos com os fiscais italianos, pratos quentes para os jornalistas do mundo
todo, deram ocasião para novas especulações. "Será que tudo está acabado para
Pavarotti?" Em outubro, ele foi declarado inocente da acusação de fazer
declarações falsas do Imposto de Renda.
Como agora seus assuntos fiscais estão em ordem e o
processo de divórcio de sua mulher já entrou em sua fase final, o cantor pode fazer
planos para esta próxima temporada de sua carreira. Por mais caro que possa custar seu
divórcio, é improvável que ele fique sem dinheiro em sua velhice. Afirma-se que recebeu
US$ 936 mil para cantar recentemente no Grande Teatro de Xangai e embolsou US$ 11,52
milhões com 11 dos concertos que fez em 2001. (© O
Estado de S. Paulo)
| "Vocês saberão quando chegar a hora de
parar" Para
Pavarotti, é pequena a distância entre dar ao público o que ele ainda quer e ser um
tolo
ADAM SWEETING
DPA
MODENA, Itália - O tenor Luciano
Pavarotti fez seus cálculos para saber quanto tempo poderá continuar cantando. A
preservação de sua voz sempre foi o ponto central de sua estratégia e, no início de
sua carreira, ele rejeitou vários papéis no Scala de Milão porque sabia que sua voz
não estava preparada.
Embora tenha sido acusado de não ter ambição na
escolha de seu repertório, Pavarotti fez há muito tempo uma astuta avaliação dos
papéis que mais lhe convêm. Por sua voz e seu temporamento, Pavarotti é um clássico
tenor do bel canto italiano. Jamais canta em alemão, raramente canta em francês e
qualquer pessoa que tenha ouvido alguma vez Pavarotti arriscando-se a cantar New York, New
York, ficará grato pelo fato de ele evita cantar em inglês.
Sejam quais forem as críticas, a carreira de Pavarotti
foi uma das mais épicas da história da ópera. Quando ele pendurar finalmente o smoking
e seu famoso lenço branco, vai deixar um vazio imenso que os jovens pretendentes, como
José Cura e Roberto Alagna, não poderão preencher.
Para todos os que precisarem relembrar a trajetória
musical de Pavarotti, a Decca lançou recentemente The Pavarotti Edition, um conjunto de
músicas para comemorar seus 40 anos no comércio da ópera (dos quais, 37 anos Pavarotti
manteve contrato com a Decca). Ao longo dos dez discos, Pavarotti caminha orgulhosamente a
passos largos ao lado de muitos dos maiores nomes da música clássica no período
pós-guerra.
Sua carreira internacional alçou vôo no Covent Garden
em 1963, quando substituiu Giuseppe di Stefano, que estava doente, no papel de Rodolfo em
La Bohème. Ainda hoje ele descreve Di Stefano como seu ídolo e lembra como certa vez foi
ver o cantor ensair o Rigoletto de Verdi no início da década de 1960. Quando Pavarotti
disse que estava prestes a partir para Bruxelas para cantar a Tosca, Di Stefano ficou
chocado. "Ele disse: 'Durante um período, Tosca destruiu a minha voz.' E eu lhe
disse então: 'Por quê?' Di Stefano respondeu: 'Porque me deu a idéia de que eu poderia
ser um tenor dramático.'" Alarmado com a perspectiva de um destino semelhante,
Pavarotti resolveu cantar Tosca apenas 15 anos depois.
Exigências - Pavarotti sabe exatamente o que
quer e demonstrou isso em 1972, quando precisou gravar La Bohème para a Decca, que
planejava empregar Solti como maestro. Mas Pavarotti foi enfático e frisou que Karajan
seria uma escolha melhor. Nessa época, ele estava em condições de garantir que suas
exigências fossem atendidas. "Fui ao diretor da Decca, o sr. Rosengarten, e disse:
'É verdade que vamos fazer La Bohème com Solti?' Ele respondeu: 'Sim.' Não se trata de
nenhuma falta de respeito para com Solti, que eu admiro, mas, para essa ópera, o sr.
Karajan é melhor do que Solti', disse eu. E assim gravamos a ópera com Karajan. A partir
desse dia, Solti ficou meio ofendido."
Mas, afinal, quando Pavarotti vai saber que chegou
definitivamente a hora de parar? "Vocês saberão", diz ele firmemente.
"Com certeza não espero conservar minha voz até a idade de meu pai. Ele tem 89 anos
e ainda canta."
Tolices - Pode existir uma diferença muito
pequena entre dar ao público o que ele ainda quer e ser um tolo. O tenor italiano Carlo
Bergonzi tentou cantar Otello no Carnegie Hall, em Nova York, no ano passado, aos 75 anos.
Será que ele é louco, na opinião de Pavarotti?
"Acho que a loucura que ele fez foi a de parar no
meio do caminho, porque até então ele estava indo muito bem. Eu sai correndo escada
acima para vê-lo e disse: 'Vamos! Volte ao palco!' Mas ele se recusou. Porém, acredite,
Otello é muito difícil. É uma ópera que a pessoa tem de executar com todo o seu
poder."
Durante muito tempo Pavarotti encarou com suspeita o
papel de Otello. Na realidade, nem quis tocá-lo até 1991, quando recebeu uma oferta para
cantar Otello numa série de concertos sob a regência de Solti. "Eu nunca tinha me
atrevido a fazer Otello no palco. Provavelmente cometi um erro porque deveria ter feito
esse papel na década de 80 e eu deveria ter cantado essa ópera no palco porque existe um
descanso entre os atos e isso ajuda o cantor a continuar a execução."
Enquanto isso, Placido Domingo transformou Otello em
seu papel característico. E, nos círculos musicais, surgem freqüentemente fofocas a
respeito da rivalidade entre Domingo e Pavarotti. Mas, em público, Pavarotti não quer
nem ouvir essas histórias. "Placido é um gênio no papel de Otello", declara
ele. "Esse é provavelmente um dos motivos porque eu não tenho feito esse papel. Sou
uma pessoa muito realista."
Nenhuma rivalidade? "Não, nunca. Que tipo de
rivalidade pode haver entre duas pessoas que precisam trabalhar juntas? Quando fazemos Os
Três Tenores, somos uma família. Acho que não faria um concerto com qualquer outro
tenor que não eles." Se existirem novos tenores para seguir os passos de Pav &
Cia, o próprio Pavarotti poderá ajudar a encontrá-los. Os planos que ele fez para
depois que parar de cantar incluem a criação de um centro operístico em Modena, com
workshops e um estúdio de gravação. Os aspirantes a cantores poderão freqüentar aulas
magistrais dadas por Pavarotti e alguns de seus ilustres colegas, entre elas sua velha
amiga de Modena, Mirella Freni. (Tradução de José dos Santos) (© O Estado de S. Paulo) |
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