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Itália: o novo fascismo chegou

17/01/2002

 

 

Dario Fo

   A Itália nos dá o espetáculo do desânimo: falta-lhe arrojo, interesse, paixão. Em Paris, assisti recentemente a um encontro de intelectuais e artistas, no qual fui testemunha, ao contrário, de uma vontade impressionante de participar, de se envolver, de se engajar, como se dizia no passado.

   Já, na Itália, estamos assistindo a uma série ininterrupta de aberrações e ao espetáculo das hipocrisias dos diversos grupos políticos que estão se adaptando rapidamente ao ambiente do fascismo, a ponto de retomar as suas palavras e seus gestos. Eles recorrem ao mesmo repertório e clamam as mesmas palavras: liberdade, esforço, pátria, Itália, defesa da raça, cultura de nossa civilização, civilização original.

   A isso tudo, acrescenta-se aquilo que chamam de "o conflito de interesses". Nem mesmo o próprio Mussolini praticou uma tal política de distribuição dos privilégios, nem para ele nem para os que aceitavam a lógica do regime (com exceção da escolha da Fiat para tomar a frente da indústria nacional).

   Hoje, temos um Agnelli (presidente daquela companhia) que, sentindo que o vento estava mudando de direção, deu repentinamente uma guinada radical; assim como fizeram os bancos, as grandes sociedades financeiras, etc. Do outro lado, temos um vazio medroso, absurdo, deixado pela oposição que parece inexistente. É verdade, e isso pode ser constatado: o nosso papel é o de meros dissidentes que tentam preencher o vazio deixado pela oposição política. Vi o que aconteceu no congresso da DS: eles pareciam estar paralisados. "Mudemos, ou morreremos", exclamaram. E, após terem dito isso, eles permaneceram como estátuas de sal. Quando se vê um personagem tal como Pierferdinando Casini, presidente da Câmara dos deputados, recorrer em seus discursos a um vocabulário que pertence diretamente à esquerda, tal como: "Antes de mudarmos o que quer que seja na RAI, precisamos resolver o conflito de interesses", fico convencido de que estamos em meio à loucura total.

   É um homem de direita que está dizendo isso, tomando assim o lugar de uma esquerda que não existe e que deveria, no entanto, expressar-se por meio de debates, de comícios, de manifestações, ou seja, estar presente. Estamos diante dessa situação absurda que consiste em ouvir Casini dizer aos seus correligionários: "Parem com isso, não exagerem!". Mesmo que, depois, tudo seja resolvido por uma patacoada ou por absolutamente nada, eles terão conseguido, dessa forma, falar no lugar da oposição.

   Mas, estamos vendo também novos movimentos se manifestarem - sobretudo entre os estudantes, os jovens operários e até mesmo os velhos. Eles parecem estar promovendo o renascimento, por meio de sua importante e generosa participação, da água da ressurreição. Eu diria até mesmo, no sentido católico da palavra, a água da purificação. São movimentos que provam a existência de uma renovação maravilhosa.

   Ora, em vez de ir ao seu encontro, de apoiá-los, de aplaudi-los, a esquerda está fugindo deles, como se eles a repugnassem. No dia da grande marcha da paz contra a guerra, ela prefere ir fazer o seu churrasco ou agitar bandeirinhas para saudar a frota que está de partida para o Oriente. E são os mesmos, por que não dizê-lo, que são os responsáveis da primeira liquidação da escola pública, um projeto contra o qual jovens, professores e representantes das famílias democráticas já haviam manifestado com uma palavra de ordem: não à transformação da escola numa empresa privada. Antes de promover o nascimento de uma outra escola, a escola privada, precisamos cuidar de pôr ordem na que já existe, a escola pública.

   O mesmo vale para a posição em relação à guerra. Os representantes do centro esquerda, na tentativa de diferenciar a sua adesão das dos outros partidos, haviam implorado: "Precisamos tomar cuidado, não se pode atingir a população, evitemos causar prejuízos e vítimas entre os inocentes". Precisamos tomar cuidado! Isso é uma piada? Agora, todo mundo já sabe que 90% das vítimas são inocentes, como nos explicou Gino Strada. E todos sabiam perfeitamente que assim seria.

   Foi calculado que esses três meses de bombardeios causaram mais de 3 mil vítimas civis recenseadas, ou seja, pelo menos a mesma quantidade de pessoas que foram vítimas do atentado às Torres Gêmeas, sem contar todas as pessoas que morreram nas desordens nas cidades, as quais sofreram destruições atrozes, nem as vítimas invisíveis, os mortos invisíveis, como diz Strada, cujo número é assustador: são milhares de órfãos cujos pais foram estraçalhados pelos bombardeios, os mísseis terrestres e as bombas que, lançadas por aviões, não explodiram. Num imenso território semeado de milhões de minas terrestres, estima-se que será preciso trabalhar por dois séculos para limpar essa terra torturada.

   E tudo isso para quê? Para promover uma vitória dos pachtunes que tomaram de volta do Taleban a produção da papoula, do ópio, o qual é enviado para o Paquistão, até os laboratórios onde é refinado e transformado em heroína. O que significa uma enorme retomada do mercado, e ainda a reciclagem do produto do tráfico em bancos de negócios americanos, e não só estes, como também o círculo vicioso do financiamento do terrorismo pelos bancos americanos e europeus.

   Voltando à Itália e a aquele encontro parisiense sobre o declínio da democracia, o qual manifesta-se sobretudo no nosso país, tenho vontade de dizer alguma coisa que se parece com uma provocação: eu não gostaria de que o fato de estar obrigado a ir a Paris para pronunciar um discurso conclamando as pessoas para um mínimo de reflexão, de diálogo, de atenção, possa tornar-se comparável com o que acontecia na época em que nascera aquele outro governo absolutista do qual me falava o meu pai - ele que, ainda na juventude, foi um refugiado político na França. Impressiona-me ouvir os sobreviventes, as testemunhas daquela época, dizerem que eles têm a sensação de estar revivendo os anos 20, os anos do nascimento do fascismo.

   Aliás, leiam o jornal e vejam o advogado de Berlusconi que se permite abandonar a sala do tribunal berrando: "Não existe mais justiça!". E os advogados que se juntam aos de Berlusconi para reclamar a intervenção do ministro da Justiça, da Liga do Norte, cão de guarda dos interesses do governo de Berlusconi.

   Estamos aqui diante do paradoxo mais insensato, digno de Ubu Rei, da farsa do impossível: as leis são criadas especificamente para o rei, os ministros são escolhidos na sua corte, e eles defendem apenas os seus próprios interesses. E o público aplaude. No melhor dos casos, alguém emite um discreto arroto de indignação. Tudo isso expressa uma consciência clara, tanto por parte do Cavaliere como de seus subordinados, de terem nas suas mãos todos os poderes, de gozarem de uma impunidade total. É a lógica do "Nunca seremos presos". Garantido pelo palafreneiro. Ouvi um membro do governo dizer que eles organizariam um encontro com representantes do centro esquerda: "Com uma mão seguraremos um ramo de oliveira, e com outra uma pistola".Textual.

   É verdade, todo o novo fascismo já está aí, que pode ser percebido na sua linguagem, nas suas expressões: primeiro, a "empreendedora Itália", depois o "partido empresa", que faz de cada um deles um empregado da casa, com o grande patrão no meio. "Amaldiçoados sejam os vencidos!" já era uma expressão fascista. Hoje, basta ver os gestos, as palavras, as atitudes, a arrogância dos representantes desses governos que dão murros sobre a mesa, que gritam "Vocês estão torrando o meu saco!", "Você está expulso da empresa!" (como disse o ministro da comunicação), e até mesmo "Fora os árabes!", "Eles que vão construir as suas porcarias de mesquitas em outro lugar!", "Eles que fiquem nos seus guetos!". Eis aqui uma idéia nova: o gueto, para os que são diferentes, para os que não são conformes.

   Às vezes, sinto-me tomado pela angústia diante dessa situação. Sinto uma melancolia oculta. É certo que continuo a exercer a minha profissão no campo do teatro, e, nesse nosso trabalho, temos oportunidades para reduzir aqueles discursos a cinzas, o que provoca reações por parte do público, mas sabemos perfeitamente que se trata de um público que se selecionou a si mesmo. A coisa mais bonita, é aquela onda soberba, aquele sol que ilumina a visão desses jovens que estão se agitando, os quais é preciso ajudar, os quais é preciso informar, aos quais é preciso dizer a verdade.

   Mas não existe em nosso país, hoje, nenhum Jean-Paul Sartre que vá expressar-se nas universidades, como ele fez em 1968, quando deu uma palestra sobre o teatro de situação, o teatro político, o teatro popular, citando, para concluir, as palavras de Savinio: "Ô homens, contem a sua história!".

   Hoje, não se trata mais de fazer a crônica do presente, de transmitir o espírito do tempo. E, além disso, não só quase todos os cineastas e diretores de teatro são, após terem operado ágeis viradas decasaca,homens de direita mais ou menos recentes, mas a maior parte dos intelectuais parece estar adormecida, ou então finge não estar presente, por ter outras coisas para pensar. (
Dario Fo é dramaturgo e ator, italiano; ele obteve o prêmio Nobel de literatura em 1997. Tradução: Jean-Yves de Neufville)
(© Le Monde)

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