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Caetano Veloso escreveu o texto
abaixo com exclusividade para BRAVO! On Line, a propósito da celebração dos 90
anos de nascimento do compositor e maestro italiano Nino Rota (1911-1979), autor de
trilhas para filmes como Amarcord, Noites de Cabíria, A Estrada da Vida
(todos de Federico Fellini), O Poderoso Chefão (Francis Ford Copolla) e Rocco e
Seus Irmãos (Visconti).
No dia 29 de
setembro de 2001, Caetano recebeu em Assis, na Itália, o Prêmio Michelangelo Antonioni
para as Artes. O prêmio é dado anualmente pelo cineasta italiano a um artista
internacional cujo trabalho ele considere particularmente significativo e premonitório
dos futuros caminhos das artes. O músico brasileiro retribuiu o prêmio com um
show-homenagem a Antonioni que, naquele mesmo dia, fazia 89 anos. Na ocasião, ele cantou
também uma canção novinha, feita em italiano para Antonioni. Os ecos de Nino Rota que
tive a impressao de ouvir na canção me encorajaram a pedir-lhe uma reflexão sobre o
autor-símbolo do cinema italiano. Como sempre, Caetano superou as melhores expectativas,
como se pode ver a seguir. Elisa Byington, de Roma
Por Caetano Veloso
Amo de modo especial a música que Nino Rota escreveu
para cinema. Há muitas coisas bonitas escritas para servir como trilhas sonoras de
filmes. Mas, embora eu aprecie um trabalho rico em textura e atmosfera como o de Bernard
Herman, ou cheio de inspiração e sentimento como o de Victor Young, nunca música
nenhuma ouvida na sala de projeção me comoveu tão fundamente quanto a que comenta as
imagens de As Noites de Cabíria (de Fellini), a que faz andar o drama de Rocco
e seus Irmãos (de Visconti) ou a que dá sentido à fábula de A Estrada da
Vida (Fellini outra vez). Talvez isso se deva à proximidade que a música de Rota
mantém da música popular. De fato, ele arrisca vincular o andamento das cenas a
melodias, a motivos melódicos, em vez de concentrar-se em criar climas sonoros apoiados
em harmonia e timbre. Ele não é o único a fazer isso. Os outros que o fazem, no
entanto, freqüentemente recorrem aos efeitos sinfônicos nos momentos críticos dos
filmes. Rota, evidentemente encorajado por Fellini (mas levando isso para outras
filmografias), expõe a melodia nua nas cenas cruciais. Sente-se naturalmente a presença
da ópera como forma, mas é o que há de mais próximo do canto popular nas árias que
ele elege como referência.
Assim, pode ser que eu ame tanto Rota apenas porque sou
popular e amo a música popular. Seria bastante. Mas tudo é mais complexo do que isso. O
fato é que muitos músicos que trabalham convencionalmente para filmes de baixa qualidade
são levados a apoiar-se na melodia. Acima, comparei Rota a alguns grandes compositores do
cinema. Mas toda noite pode-se ver na televisão um filme ruim com um tema chato a
repetir-se em som de flauta sobre piano. Nada mais longe de Nino Rota. Os motivos
melódicos que este cria têm a misteriosa qualidade de parecerem lembranças. Na verdade,
estão sempre sobre uma tênue linha que (não) separa o que é nostálgico do que é
paródico: a gente nunca sabe se se trata de plágio ou de inspiração mística. E é com
os elementos que resultam dessas sutis diferenças que ele compõe sua renda de fragmentos
melódicos que ecoam, esvaem-se, reaparecem no tempo criado do filme.
O músico com quem, afinal, Rota mais se parece é
alguém cujo temperamento supõe-se que seja muito diferente do seu: Kurt Weil. Tendo
também trabalhado sobretudo para as artes cênicas, sempre perto da ópera e da canção
popular, do cabaré, do circo, da retreta; e igualmente instigado por um autor e diretor
de dramas e comédias a comentar em música a própria música que produzia, Weil achou um
tom que fascina e alerta ao mesmo tempo, mantendo-se assim entre a paródia e o
envolvimento. Nenhuma novidade aqui: já se relacionou Rota a Weil e, o que traz outras
conseqüências, é notável e notório que o alemão influenciou e inspirou o italiano.
Embora seja claro que este último tenha trabalhado para a criação de uma poética do
sentimento (sentimental) enquanto o outro, cerebral, tenha trabalhado contra a
sentimentalidade. Mas o que conta é que ambos construíram peças complexas usando
material e técnica de aparência simples e que ambos chegaram a zonas que se tocam
ou se fundem.
Para minha formação, Rota foi um artista fundamental.
Um dia, nos anos 1970, eu disse a um amigo compositor italiano: Fellini não seria metade
do que é, não fosse por Nino Rota. Ele me respondeu: Nino Rota tampouco seria quem é,
não fosse por Fellini. Não discordei. Não conheço a obra de Rota fora do que ele fez
para o cinema. Aqui, o que ele fez me foi essencial.
Quando compus Giulietta Masina, procurei
com muito esforço evitar qualquer parecença com a música de Rota. Fui para o
Nordeste, citei minha própria Cajuína, porque eu queria dizer que eu, brasileiro,
esta pessoa do interior da Bahia, este músico popular que fez músicas desse jeito que
faço, eu é que queria falar de Giulietta. E dela. Não do cinema de Fellini ou da
música que Rota fez para ele. Um crítico inglês da revista Wire (eu acho) falou
muito mal do meu disco Omaggio a Federico e Giulietta, dizendo que este quase nada
tinha a ver com os filmes de Fellini, que soava simplesmente como mais um disco de música
brasileira. É isso aí. O imbecil queria algo que soasse como Nino Rota. Ignorante das
coisas brasileiras (mas também do cinema italiano), portanto incapaz de entender onde
Fellini/Rota/Masina entra na Ave Maria de Augusto Calheiros, no fado Coimbra
e em Chega de Saudade, concluiu que o disco era uma sopa de marshmallow
(a doçura e o sentimentalismo neste caso, obrigatórios tinham que levar
essa porrada neo-punk). Mas Rota está em Luz do Sol. E sobretudo está dentro de
mim. As músicas que não parecem com as dele estão cheias de sua presença.
Recentemente fiz uma canção a que dei o título de Michelangelo
Antonioni. Não é uma canção ninorotiana. Está calcada na atmosfera dos filmes de
Antonioni. As referências minimalistas do arranjo são homenagem ao minimalismo formal
pioneiro desse cineasta. Mas é uma canção que ecoa a música italiana. Muitos esquecem
de que Antonioni é italiano. E ele o é muito intensa e profundamente. A introdução
dessa canção que fiz sobre/para ele, cantada em falsete, com uns cromatismos melódicos
e harmônicos, levam a pensar em Nino Rota. É que aqui, diferentemente do caso de Giulietta
Masina, eu não fiz nenhum esforço para afastar-me de Rota: com Antonioni eu já
estava suficientemente longe. O compositor italiano Aldo Brizzi me disse que eu cheguei a
Antonioni via Marguta, que é a rua onde Fellini morou. Essa é a Itália para
mim.
Também para O Quatrilho compus um tema que
ecoava o canto de Rocco no filme de Visconti. Rota fez a música desse filme. Mas a
música do filme de Fábio Barreto não é ninorotiana. A introdução de Michelangelo
Antonioni o é consideravelmente mais. Antonioni, que sabe tudo, aprovou.
O tema de Os Boas-Vidas, o de Noites de
Cabíria, o de Rocco e Seus Irmãos, o de O Poderoso Chefão; a
melodia do trompete de Na Estrada da Vida, a do acordeão de Amarcord
toda essa música é parte do que há de mais belo entre as coisas que se fizeram no
século passado. (© Bravo Online) |