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Augusto Boal transforma Verdi em nova sambópera

24/01/2002

Augusto Boal  Débora 70/Divulgação

 

Em 'A Traviata', as melodias originais são cantadas em ritmos brasileiros

UBIRATAN BRASIL

   O pai pede para a filha abandonar seu apaixonado e se casar com outro homem, rico e de boa família. Em cena, os diálogos tratam desse assunto, mas a representação dos atores é outra: durante a conversa, a moça surge presa a uma cruz. "Ao impor sua vontade, o pai está metaforicamente crucificando a filha e seu amor", explica Augusto Boal, diretor que incluiu a cena em A Traviata, reinterpretação da ópera de Verdi, que estreiou no Teatro Gláucio Gill, no Rio. "Meu compromisso estético como encenador é com o real e não com o realismo, o que faz com que, muitas vezes, o que se vê no palco seja o contrário daquilo que se ouve."

   A Traviata é, na verdade, o aprimoramento de um gênero criado por Boal, a sambópera, cujo primeiro exemplar foi Carmen, encenada em 1999. Trata-se de uma forma de adaptação que promove mudanças sutis na melodia, harmonia e ritmo da partitura original. Assim, na cirurgia musical promovida por Boal e seus colaboradores (com o poeta Celso Branco e o diretor musical Jayme Vignoli à frente), a melodia foi mantida como no original de Verdi, apenas transposta para regiões mais graves. Também a harmonia não sofreu alterações, só é executada por instrumentos diferentes dos originais, como cuíca, agogô, berimbau. "Assim, as árias se transformaram em sambas, frevos, maxixes, valsas, bumba-meu-boi e até em tango", comenta Vignoli.

   Já os ritmos foram adaptados para aqueles mais comuns aos ouvidos brasileiros, um som, segundo Boal, mais próximo das nossas memórias que nossos corpos reproduzem. O trabalho não foi tão tortuoso. "Verdi era brasileiro e não sabia", brinca o encenador, ao constatar inúmeras semelhanças na partitura do italiano com a tradição musical nacional. "Nosso maior desafio foi acentuar as estruturas mais brasileiras."

   Outro detalhe importante na transcrição foi uma modificação na forma de encenação dos atores. Como na ópera tradicional, os cantores tendem a interpretar a música e não os papéis dramáticos, Boal não deixou, na sambópera, que a relação entre os personagens ficasse em segundo plano em relação às canções. A decisão tornou-se ainda mais importante quando ele decidiu que a encenação não corresponderia necessariamente ao que está sendo dito no palco. O diretor decidiu então construir uma combinação de estilos, misturando o operístico com o realismo e o expressionismo.

   Entrelinhas - Uma certa contradição é um dos principais elementos da montagem. Assim, já no final, quando Violeta, a heroína, está à beira da morte, os personagens que a cercam declamam sua esperança no pronto restabelecimento, mas, ao mesmo tempo, a colocam dentro de um caixão. As entrelinhas aparecem e são escancaradas em toda a encenação, já a partir da primeira cena, quando a sala da casa de Violeta é apresentada como um bordel de luxo - surgem diversas mulheres, que começam a dançar com bonecos manequins, revelando seus desejos.

   A Traviata conta a história de Violeta Valéry (interpretada por Ana Baird), cortesã parisiense que encontra, em uma festa, o jovem Alfredo Germont (Raul Serrador), que se declara apaixonado. Já condenada pela tuberculose, ela afirma que não pode amar, mas não resiste à paixão pelo jovem e acaba fugindo com ele para o campo. O pai de Alfredo, o velho Germont (Celso Branco), vestido como um coronel nordestino, pede para Violeta abandonar o filho, em respeito à honra da família. Ela concorda com a renúncia e volta a Paris, onde é humilhada por Alfredo. Antes de morrer, Violeta recebe o velho Germont, que louva seu sacrifício.

   "O espetáculo é cheio de imagens, além de ser multicultural", comenta Boal, criador do Teatro do Oprimido e que utilizou a experiência acumulada nas diversas viagens que realizou (algumas obrigadas, pois foi banido pelo regime militar). "Não misturei simplesmente uma série de formas de atuar, mas resgatei o essencial do comportamento humano", afirma. "A Traviata não é um espetáculo antropofágico, mas metafórico." O Estado de S. Paulo)

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