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ANELISE GOMES
especial para a Folha Online, em Roma
A universidade italiana La Sapienza, a maior e uma das mais tradicionais
instituições de ensino européias, com 155 mil estudantes, anunciou a criação de um
ateneu de ciência e tecnologia. Considerado uma espécie de MIT (Massachusetts Institute
of Technology), o local deverá ser inaugurado ainda este ano, em Roma, recebendo um
investimento estimado em 190 bilhões de liras (aproximadamente R$ 237 milhões).
Para unir o ensino à pesquisa, a universidade pretende firmar parcerias com
empresas locais. O ateneu será estrategicamente construído na via Prenestina, área
caracterizada pela concentração de grandes nomes da indústria tecnológica romana.
Atualmente, cerca de 37 mil estudantes frequentam o curso de ciência e
tecnologia da universidade e a maior parte dos recursos italianos destinados à pesquisa
científica são provenientes do setor público.
Segundo o Miur (Ministério de Instrução da Universidade e Pesquisa),
anualmente apenas 1,03% do PIL (ou PIB) italiano é empregado em pesquisa no país, contra
uma média de 2,2% de outras nações da União Européia. Entre os países do velho
continente, a Itália ocupa uma das últimas posições no ranking dos mercados com
maiores investimentos e competitividade no setor de pesquisa científica, assim como
Espanha, Grécia e Portugal. Ainda segundo o ministério, a faixa etária média dos
pesquisadores italianos oscila entre 44 a 59 anos.
A construção do pólo de ciência e tecnologia é o primeiro passo da La
Sapienza rumo ao federalismo acadêmico, política de descentralização dos cursos da
universidade em uma holding de seis ateneus. O pró-reitor da universidade, Gianni
Orlandi, explica que cada unidade terá independência financeira, administrativa e
didática. Os recursos destinados à pesquisa serão controlados pela matriz.
Para Rocco Rizzo, representante dos doutorados de pesquisa do CNSU (Conselho
Nacional dos Estudantes Universitários), com a criação de diversas ateneus, pode haver
preocupações entre os estudantes sobre a qualidade do ensino superior. "Esperamos
que haja um equilíbrio entre estrutura, número de estudantes e preparação do corpo
docente."
Atualmente, a La Sapienza mantém três sedes (Rieti, Latina e CivitaVecchia)
e, mesmo com a multiplicação dos ateneus e provável crescimento do número de
estudantes, a direção da universidade não teme que sua imagem seja associada ao ensino
de massa. "Antes, o fluxo de inscrições na universidade era controlado por um
número limitado de vagas. Agora preferimos orientar os estudantes sobre as ofertas do
mercado de trabalho e permitir que, eventualmente, ele escolha um outro curso
universitário sem perder os créditos das matérias que já cursou."
Orlandi comenta que, para maximizar o acesso da população à universidade,
garantindo a qualidade do ensino e colocando no mercado profissionais capacitados, a La
Sapienza mantém núcleos de avaliação de sua atividade didática que contam com a
participação ativa dos estudantes.
Desde a aprovação da lei Ruberti, em 1989, as universidades públicas
italianas conquistaram autonomia para definir suas constituições internas e gerir seus
recursos financeiros. No entanto, Orlandi afirma que a reforma didática segue com
lentidão no país e que um dos problemas que continua a afligir o ensino superior
italiano é o tempo médio de graduação de seus universitários. Em vez de quatro ou
cinco anos, grande parte dos estudantes italianos graduam-se em seis ou sete anos. (© Folha Online)
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