Diretor queria desvendar o BrasilEly Azeredo
Especial para o JB
Nessa entrada de 2003, a fome de realidade do
cinema brasileiro, a preocupação generalizada com o crescimento da exclusão social (que
explica a atenção inusitada a filmes como Cidade de Deus) e a receptividade
supra-ideológica ao projeto Fome Zero são fatores em animadora confluência.
Os acenos de solidariedade da
televisão aberta ainda são gotas d'água no oceano de baixarias que transborda de nossas
telinhas. Com esse tipo de TV, jamais Roberto Rossellini - o ''inventor'' do neo-realismo
com Roma, cidade aberta - teria trocado o cinema pela mídia eletrônica em meados
dos anos 60. Sua meta, como resumiu Scorsese, ''era, nada mais, nada menos, que educar o
mundo inteiro''.
Sempre procurando desbravar
novos caminhos, o cineasta italiano - quando esteve no Rio, em 1958 - queria concretizar
um projeto (nascido na cabeça do roteirista Cesare Zavattini) inspirado no livro Geografia
da fome, de Josué de Castro. Não conseguiu. Também falava em levar à tela Casa
grande e senzala, de Gilberto Freyre. Ficou no sonho. Outros três importantes
diretores vieram ao Brasil com gana de filmar.
O francês Henri-Georges
Clouzot, casado com Vera (filha de Gilberto Amado) - sua intérprete em As diabólicas
e O salário do medo - esteve aqui em 1950, para um filme que teria o título Brésil.
Desistiu. Queixou-se de só ouvir em todo canto a palavra ''amanhã''. Em 1972, a
decepção foi do francês Louis Malle, realizador de Atlantic City, que pretendia
fazer um documentário longo na Amazônia, e esbarrou no veto (impublicável) da ditadura
militar.
(© JB Online)
Revelações sobre o neo-realismo
A atração pelo Brasil, não correspondida
pela produtora RKO, prejudicou gravemente a carreira genial de Orson Welles: sem recursos
para concluir É tudo verdade, em 1942, viu crescer em sua ficha a pecha
(caluniosa) de detonador de orçamentos, ''maldito''. A falta de acesso aos documentários
rossellinianos não nos permite avaliar o destino das idéias concebidas em função do
irrealizado Geografia da fome.
Segundo o irmão do cineasta,
Renzo, a idéia formou a base de um projeto posterior, de 1964, cujo roteiro foi
preservado: La straordinaria storia della nostra alimentazione. Deste, por sua vez,
o essencial teria sido utilizado numa série de 655 minutos para TV, A luta do homem
por sua sobrevivência, dirigida por Renzo Rossellini Jr. Roberto escreveu o roteiro e
introduziu cada um dos episódios. Também não pode permanecer inédito aqui o
longa-metragem A question of people, dirigido por Rossellini para a Unesco, cuja
montagem inclui material filmado por outros documentaristas no Brasil e na África.
Curiosamente, tanto Malle
quanto Rossellini tiveram fome de Brasil depois de ''descobrirem'' a Índia. Calcutá
(1969), de Malle, uma visão documentária crua da cidade, irritou as autoridades
indianas. Rossellini fez duas séries para TV e um longa-metragem, Índia terra mãe,
cujo sucesso no Festival de Cannes, em 1959, reanimou o interesse dos produtores por seus
projetos.
Quanto aos cinéfilos
brasileiros, estão mal informados sobre o cineasta de Roma, cidade aberta. Falta
uma retrospectiva completa de sua obra. Eventualmente, podem aparecer na televisão, mas
nunca tiveram apreciação normal nos circuitos: O amor (com duas partes: A voz
humana e O milagre, 1948); Dov'è la libertà (apesar da presença do
comediante Totò, 1953); Amori di mezzo secolo (do qual Rossellini dirigiu o
episódio Napoli 43, de 1954); Joana D'Arc na fogueira (com sua mulher
Ingrid Bergman, 1958); O medo (também com Ingrid, 1958); Índia (1959) e Viva
l'Italia (1960).
São precursores do movimento
neo-realista Obsessão, de Luchino Visconti, O coração manda (Quattro
passi fra le nuvole), de Alessandro Blasetti, As crianças nos olham (I bambini ci
guardano), de Vittorio de Sica. Mas sem Rossellini, cujo Roma, cidade aberta foi um
sucesso imediato de público e abriu as portas do mercado internacional, o neo-realismo
não seria a mesma escola.
(© JB Online)
Livro inédito
A bibliografia sobre Rossellini e o
neo-realismo não parou de crescer depois da morte do cineasta (1977). Poucos são tão
dedicados ao tema como Adriano Aprà, diretor da Cinemateca Nacional, de Roma, que há
décadas pesquisa vida e obra de Rossellini, para um livro definitivo. Seu amor pela obra
é tão grande que o livro pode ser interminável. Aprà não se preocupa com isso.
Durante sua recente passagem pelo Rio, tive oportunidade de obter algumas revelações
sobre suas pesquisas.
- Para Rossellini, o movimento
neo-realista ''era uma questão de moral''.
- Sobre a realização de um
filme: ''Uma experiência física que deve levar a uma experiência espiritual.''
- Causava desgosto ao cineasta
a referência considerada ''obrigatória'' a Roma, cidade aberta e Paisà (limitativa)
quando pretendiam qualificar sua obra. (A partir de L'Amore, a crítica de
esquerda italiana considerava os filmes de Rossellini traições ao neo-realismo - um
patrulhamento que chegou a prejudicar o encaminhamento de projetos).
- Il Generale Della Rovere
(papel-título) não seduzia muito Vittorio de Sica como ator. O próprio Rossellini o
considerava um projeto de ''compromisso''. De Sica estava sem dinheiro. Gostava demais de
um jogo de cartas... A conversa de Roberto: ''Vamos fazer um filme para ganhar o Leão de
Ouro''. Um sucesso premeditado em termos de público.
- Sobre a série de filmes
históricos produzidos para a TV: ''A verdade, sob o ponto de vista de hoje, sobre o
passado''. Nisso, Rossellini foi influenciado pelo enfoque dos livros contemporâneos
sobre a vida cotidiana em outras épocas.
- Para ele não havia
distância entre o ato de filmar e o de viver. Fazia interrupções (não obrigatoriamente
por circunstâncias intransponíveis) de horas ou dias no processo de filmagem. Paisà (somente
a fase de filmagem) levou seis meses para terminar.
- Fellini (a propósito de Paisà):
''Fazer um filme é como fazer um dejeuner sur l'herbe'' (uma refeição sobre a
relva). No sentido de prazer.
- Rossellini não tinha
formação cinematográfica prévia e nunca foi um rato de cinemateca. Entre as esparsas
referências a filmes que viu e apreciou especialmente, citava A turba (The crowd),
de King Vidor; dois filmes dirigidos por John Ford com Will Rogers no elenco; um filme de
Jean Rouch. Era muito interessado nos documentários do brasileiro Alberto Cavalcanti,
feitos na Inglaterra.
(© JB Online)
Para saber mais sobre Roberto Rossellini, visite o site
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