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'Viva Caruso' já é apontado como um dos
mais originais discos dos últimos anos |
Há dois anos o sax-tenor Joe Lovano
ganhou de presente de Dennis Irwin, contrabaixista de seu noneto de
jazz, uma biografia do lendário tenor italiano Enrico Caruso (Caruso:
His Life and Death, de Dorothy Caruso, sua última mulher, originalmente
publicado em 1945). Absolutamente impressionado com a formidável
história de vida e arte do tenor nascido pobre em agosto de 1873 em
Nápoles e morto na mesma cidade em 1921, que construiu uma carreira
notável, primeiro na Europa, depois no Metropolitan de Nova York, de
1903 a 1920, Lovano mergulhou nas gravações dele (Caruso foi um dos
primeiros artistas a gravar, em 1902, nos EUA).
Eram coincidências demais. Sua família havia
emigrado para os Estados Unidos naquele início de século 20, justamente quando Caruso
começava a conquistar fama planetária. E ele mesmo, antes de ser artisticamente Joe
Lovano, tinha lá anotado em sua certidão de nascimento: Joseph Salvatore Lovano. Os sons
da infância em Cleveland - o pai Tony Big T Lovano era saxofonista e amigo chegado de
grandes músicos de jazz como Tadd Dameron, Benny Bailey e Bill Hardmann - compunham-se
não só do caldeirão da música popular e do jazz norte-americano mas também das
raízes italianas e, claro, a ópera.
O resultado foi recentemente lançado em forma
de um primoroso CD, a tempo de se incorporar aos tributos à passagem do centenário das
primeiras gravações do tenor napolitano. Viva Caruso é um dos mais originais projetos
jazzísticos dos últimos anos, pois não se limita ao exercício muitas vezes estéril de
um crossover em busca só das vendagens mais altas de discos sacrificando a qualidade.
Pelo contrário, Lovano amadureceu por mais de dois anos a idéia - e foi incrivelmente
inventivo quando a transformou em sons.
Ex-aluno notável de Berklee, parceiro de
escola e depois de música de guitarristas como John Scofield e Bill Frisell, Lovano
construiu, nos anos 90, uma carreira admirável e multifacetada no universo do jazz.
Depois de gravações convencionais no início de carreira, começou a alargar os limites
do jazz em CDs como Trio Fascination, no qual atuou ao lado de do contrabaixista Dave
Holland e do baterista Elvin Jones, simplesmente os dois melhores em seus instrumentos. Se
cedeu às tentações das efemérides, como em Celebrating Sinatra, de 1997, foi
igualmente criativo ao contrapor seu sax-tenor a quartetos de cordas e quintetos de sopros
nos clássicos do old blue eyes.
De tenor para tenor - No excelente texto
interno do CD Viva Caruso (Blue Note, importado), Will Friedwald, um especialista na
canção norte-americana, faz um retrato completo da personalidade artística de Lovano,
vinculando-a ao universo de Caruso. A gravação é, de fato, a saudação de um grande
tenor italiano para outro, diz Friedwald, já que se de um lado temos uma galeria iniciada
por Caruso e complementada por, entre outros, Luciano Pavarotti, Mario Lanza, Beniamino
Gigli, de outro existe uma tradição de saxofonistas-tenores ítalo-americanos como
Charlie Ventura, Flip Phillips, Vido Musso, Sal Nestico, Frank Tiberi no passado; hoje,
contemporâneos atuantes são Pat LaBarbera, Ralph Lalama, George Garzone e o notável
Jerry Bergonzi. Pouco conhecidos do grande público, são sidemen que constroem o som dos
músicos de jazz líderes, mais famosos.
Mas, inteligentemente, em vez de parafrasear
as árias nas quais Caruso foi inexcedível, sobretudo as do verismo, Lovano e o parceiro
Byron Olson, responsável pelos arranjos e regência, optaram por reproduzir a própria
postura estética do tenor napolitano, que misturava em seus recitais tanto a chamada
grande música como as cançonetas populares e folclóricas. Friedwald escreve que
"reza a lenda que os gondoleiros de Veneza cantarolavam 'La donna è mobile' do
Rigoletto semanas antes da estréia da ópera em 1851". Se non è vero, è bem
trovato. Assim, ambos remeteram-se ao CD da Nimbus inglesa intitulado Caruso in Song e
acrescentaram ao repertório apenas uma ária - a mais conhecida, a mais célebre,
"Vesti la Giubba", de I Pagliacci, de Leoncavallo.
Em termos de orquestração, duas formações
básicas foram adotadas: de um lado, sua banda normal, que Lovano chama de street band,
mais jazzística, porém nunca convencional (basta atentar para a faixa inicial,
"Vesti la Giubba", em que o tenor é acompanhado por dois contrabaixistas,
escovas e marimba); de outro, o Opera House Ensemble, que busca reproduzir as formações
que normalmente acompanhavam Caruso em suas gravações canções populares, preenchidas
somente por sopros. Em seis das faixas, o conjunto compõe-se de duas flautas, duas
clarinetas, clarineta baixo, oboé e corne-inglês, trompa, dois fagotes, voz (Judi
Silvano) e Gil Goldstein no acordeon, contrabaixo e bateria.
Os arranjos são muito refinados, e não se
limitam ao repertório habitual de Caruso. Abrangem até prováveis canções que o tenor
ainda menino ouvia pelas ruas de Nápoles (como The Streets of Napoles). E também uma das
raras ocasiões em que Caruso gravou em inglês. Trata-se da canção For You Alone, de
Ernst Henry Geehl, com letra de P.J. O'Reilly, registrada originalmente pelo tenor em
1910.
As mais difíceis de encarar, confessa Lovano,
foram aquelas mais famosas e populares, como O Sole Mio e Santa Lucia. Mas o refinamento
sempre está presente. Em "Vesti la Giubba", por exemplo, os dois
contrabaixistas tocam como se fossem a mão esquerda do piano; em O Sole Mio, os seis
minutos são divididos em duas partes: na primeira, Lovano expõe a melodia e improvisa
acompanhado apenas por contrabaixo e bateria; lá pelos três minutos e pico invade o
recinto um swing, com o mesmo acompanhamento. Mudam, porém, os parceiros. Primeiro, Scott
Lee e Bob Mneyer; depois, Ed Schuller e Carmen Castaldi.
Na faixa-título, Viva Caruso, Lovano propõe
outra instrumentação original (acordeon, dois contrabaixos e três baterias), com um
resultado excepcionalmente limpo e transparente. Santa Lucia, a célebre canção que
homanageia a padroeira de Nápoles, Lovano lembra nitidamente - e conscientemente, creio -
o som volumoso e o gosto pelo calipso de outro gigante do tenor, Sonny Rollins.
Il Carnevale di Pulcinella é a mais
pretensiosa e bem-sucedida composição de Lovano incluída no CD. Construída como uma
suíte de danças em quatro breves movimentos - Joyous Dance, Romance, The Bite e Wild
Tarantella -- apresenta a orquestração mais encorpada, com voz, flauta, clarineta,
trombone, trompete, guitarra, dois contrabaixos e três baterias. (J.M.C.)
(© O Estado de S. Paulo) |