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Joe Lovano recria clássicos de Enrico Caruso em ritmo de jazz

13/01/2003

Joe Lovano, Viva Caruso

'Viva Caruso' já é apontado como um dos mais originais discos dos últimos anos


Há dois anos o sax-tenor Joe Lovano ganhou de presente de Dennis Irwin, contrabaixista de seu noneto de jazz, uma biografia do lendário tenor italiano Enrico Caruso (Caruso: His Life and Death, de Dorothy Caruso, sua última mulher, originalmente publicado em 1945). Absolutamente impressionado com a formidável história de vida e arte do tenor nascido pobre em agosto de 1873 em Nápoles e morto na mesma cidade em 1921, que construiu uma carreira notável, primeiro na Europa, depois no Metropolitan de Nova York, de 1903 a 1920, Lovano mergulhou nas gravações dele (Caruso foi um dos primeiros artistas a gravar, em 1902, nos EUA).

   Eram coincidências demais. Sua família havia emigrado para os Estados Unidos naquele início de século 20, justamente quando Caruso começava a conquistar fama planetária. E ele mesmo, antes de ser artisticamente Joe Lovano, tinha lá anotado em sua certidão de nascimento: Joseph Salvatore Lovano. Os sons da infância em Cleveland - o pai Tony Big T Lovano era saxofonista e amigo chegado de grandes músicos de jazz como Tadd Dameron, Benny Bailey e Bill Hardmann - compunham-se não só do caldeirão da música popular e do jazz norte-americano mas também das raízes italianas e, claro, a ópera.

   O resultado foi recentemente lançado em forma de um primoroso CD, a tempo de se incorporar aos tributos à passagem do centenário das primeiras gravações do tenor napolitano. Viva Caruso é um dos mais originais projetos jazzísticos dos últimos anos, pois não se limita ao exercício muitas vezes estéril de um crossover em busca só das vendagens mais altas de discos sacrificando a qualidade. Pelo contrário, Lovano amadureceu por mais de dois anos a idéia - e foi incrivelmente inventivo quando a transformou em sons.

   Ex-aluno notável de Berklee, parceiro de escola e depois de música de guitarristas como John Scofield e Bill Frisell, Lovano construiu, nos anos 90, uma carreira admirável e multifacetada no universo do jazz. Depois de gravações convencionais no início de carreira, começou a alargar os limites do jazz em CDs como Trio Fascination, no qual atuou ao lado de do contrabaixista Dave Holland e do baterista Elvin Jones, simplesmente os dois melhores em seus instrumentos. Se cedeu às tentações das efemérides, como em Celebrating Sinatra, de 1997, foi igualmente criativo ao contrapor seu sax-tenor a quartetos de cordas e quintetos de sopros nos clássicos do old blue eyes.

   De tenor para tenor - No excelente texto interno do CD Viva Caruso (Blue Note, importado), Will Friedwald, um especialista na canção norte-americana, faz um retrato completo da personalidade artística de Lovano, vinculando-a ao universo de Caruso. A gravação é, de fato, a saudação de um grande tenor italiano para outro, diz Friedwald, já que se de um lado temos uma galeria iniciada por Caruso e complementada por, entre outros, Luciano Pavarotti, Mario Lanza, Beniamino Gigli, de outro existe uma tradição de saxofonistas-tenores ítalo-americanos como Charlie Ventura, Flip Phillips, Vido Musso, Sal Nestico, Frank Tiberi no passado; hoje, contemporâneos atuantes são Pat LaBarbera, Ralph Lalama, George Garzone e o notável Jerry Bergonzi. Pouco conhecidos do grande público, são sidemen que constroem o som dos músicos de jazz líderes, mais famosos.

   Mas, inteligentemente, em vez de parafrasear as árias nas quais Caruso foi inexcedível, sobretudo as do verismo, Lovano e o parceiro Byron Olson, responsável pelos arranjos e regência, optaram por reproduzir a própria postura estética do tenor napolitano, que misturava em seus recitais tanto a chamada grande música como as cançonetas populares e folclóricas. Friedwald escreve que "reza a lenda que os gondoleiros de Veneza cantarolavam 'La donna è mobile' do Rigoletto semanas antes da estréia da ópera em 1851". Se non è vero, è bem trovato. Assim, ambos remeteram-se ao CD da Nimbus inglesa intitulado Caruso in Song e acrescentaram ao repertório apenas uma ária - a mais conhecida, a mais célebre, "Vesti la Giubba", de I Pagliacci, de Leoncavallo.

   Em termos de orquestração, duas formações básicas foram adotadas: de um lado, sua banda normal, que Lovano chama de street band, mais jazzística, porém nunca convencional (basta atentar para a faixa inicial, "Vesti la Giubba", em que o tenor é acompanhado por dois contrabaixistas, escovas e marimba); de outro, o Opera House Ensemble, que busca reproduzir as formações que normalmente acompanhavam Caruso em suas gravações canções populares, preenchidas somente por sopros. Em seis das faixas, o conjunto compõe-se de duas flautas, duas clarinetas, clarineta baixo, oboé e corne-inglês, trompa, dois fagotes, voz (Judi Silvano) e Gil Goldstein no acordeon, contrabaixo e bateria.

   Os arranjos são muito refinados, e não se limitam ao repertório habitual de Caruso. Abrangem até prováveis canções que o tenor ainda menino ouvia pelas ruas de Nápoles (como The Streets of Napoles). E também uma das raras ocasiões em que Caruso gravou em inglês. Trata-se da canção For You Alone, de Ernst Henry Geehl, com letra de P.J. O'Reilly, registrada originalmente pelo tenor em 1910.

   As mais difíceis de encarar, confessa Lovano, foram aquelas mais famosas e populares, como O Sole Mio e Santa Lucia. Mas o refinamento sempre está presente. Em "Vesti la Giubba", por exemplo, os dois contrabaixistas tocam como se fossem a mão esquerda do piano; em O Sole Mio, os seis minutos são divididos em duas partes: na primeira, Lovano expõe a melodia e improvisa acompanhado apenas por contrabaixo e bateria; lá pelos três minutos e pico invade o recinto um swing, com o mesmo acompanhamento. Mudam, porém, os parceiros. Primeiro, Scott Lee e Bob Mneyer; depois, Ed Schuller e Carmen Castaldi.

   Na faixa-título, Viva Caruso, Lovano propõe outra instrumentação original (acordeon, dois contrabaixos e três baterias), com um resultado excepcionalmente limpo e transparente. Santa Lucia, a célebre canção que homanageia a padroeira de Nápoles, Lovano lembra nitidamente - e conscientemente, creio - o som volumoso e o gosto pelo calipso de outro gigante do tenor, Sonny Rollins.

   Il Carnevale di Pulcinella é a mais pretensiosa e bem-sucedida composição de Lovano incluída no CD. Construída como uma suíte de danças em quatro breves movimentos - Joyous Dance, Romance, The Bite e Wild Tarantella -- apresenta a orquestração mais encorpada, com voz, flauta, clarineta, trombone, trompete, guitarra, dois contrabaixos e três baterias. (J.M.C.)

(© O Estado de S. Paulo)

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