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Fellini vive na agenda para 2003

20/01/2003

Giulietta Masina e Anthony Quinn em ‘Na estrada da vida’: cópia nova

 

Ely Azeredo
Especial para o JB

   Os fellinéfilos estão com uma agenda cada vez melhor. Os palhaços (I clowns), 1970, que circulou nos anos 80 em vídeo e foi lançado nas telonas brasileiras no final de 2002, pode ser visto e revisto com as legítimas cores e sons a que tem direito. Novas cópias das obras-primas Na estrada da vida (La strada), 1954, e Amarcord, 1973, serão lançadas em breve no circuito. E graças ao DVD, filmes sumidos há décadas, como Mulheres e luzes (Luci del varietà), 1950, agora podem ser revisitados na tela doméstica.

   Federico Fellini (1920-1993) faria 83 anos este mês. Sua obra está mais viva que nunca. Sua mulher, Giulietta Masina (1920-1994), estrela de sete de seus filmes, morreu menos de cinco meses depois de sua morte.

   O excêntrico Os palhaços, que os produtores aguardavam como documentário e, na verdade, é um filme autoral, autobiográfico à sua maneira, nunca fez sucesso entre os não-fellinistas. Inclusive quando reapresentado na Europa, em 1977, em conjunto com a ficção curta Toby Dammit, sob o título 2 Fellini 2. Na melhor biografia de Fellini (L&PM editores), Tullio Kezich diz que Os palhaços ''é o auto-retrato mais explícito, cândido e confidencial que ele ofereceu ao público. É também um filme-chave, a matriz poética do que veremos nos filmes seguintes: de Roma, onde foi retomada a idéia da pesquisa imaginária, a Amarcord, que continua a exploração da infância, iniciada exatamente às margens do picadeiro de I clowns''.

(© JB Online)

Closes da alma italiana
 

   Federico Fellini somou em sua obra as duas mais importantes correntes que impulsionaram a arte do filme no pós-guerra. O neo-realismo italiano, detonado por Roberto Rossellini, e o cinema de temática existencial, privilegiando os dramas da incomunicação entre os homens e do ''silêncio de Deus'', aprofundados pelo sueco Ingmar Bergman. Como Bergman, constituiu um elo entre a metafísica e a magia a partir do fascínio comum pela lanterna mágica, antecessora do cinematógrafo.

   Mentiroso, provinciano, preguiçoso, antiintelectual. Pode-se ''acusar'' Fellini disso tudo, sem ofensa. Mentia para testar a receptividade de idéias para filmes, como fez com Rossellini, fazendo passar por conto russo uma das duas histórias de Amore: il miracolo. Despreocupado com a cultura erudita, confessava-se leitor preguiçoso, que nunca folheou o romance Ulisses, de James Joyce, preferindo os jornais, a Bíblia, um ou outro filósofo. E assumia a condição de provinciano. Nascido em Rimini, balneário italiano do Adriático norte, adicionou a curiosidade ao senso de maravilha dos forasteiros ao vislumbrar uma metrópole - e logo a Cidade Eterna, Roma. Filmou, documentou, polemizou e escandalizou Roma. E adotou-a para sempre.

   Fellini nasceu em 20 de janeiro de 1920. O pai era um modesto comerciante. Estudou inicialmente em colégio religioso, onde sofreu dois anos de internato - marcas que levaria para a tela. Aos 7 anos fugiu de casa, na trilha de um pequeno circo. Aos 19, sonhando com Roma, parou em Florença, onde se empregou como revisor e desenhista, e criou histórias em quadrinhos. Continuando a percorrer caminhos que reconstituiria poeticamente no cinema, foi vendedor de diamantes fajutos, colaborador do ''correio sentimental'' de uma revista e, depois, de um semanário humorístico.

   Em 1940, desembarcou em Roma, onde continuou a desenhar quadrinhos, escreveu   esquetes radiofônicos, letras de canções para teatro de revista. Depois rodou a Itália na pequena companhia teatral de Aldo Fabrizi (que interpretaria o padre de Roma, cidade aberta). Escreveu para a série de rádio Cico e Pallina - esta, personagem interpretada pela principiante Giulietta Masina, com quem se casou em 1943. Quando termina a ocupação alemã de Roma, Fellini ganha dinheiro inventando uma Funny Face Shop, onde faz desenhos e caricaturas de soldados americanos recém-chegados.

   No cinema, a partir de 1942, trabalhou como roteirista de filmes despretensiosos. A hora decisiva chegou no final da guerra, quando Rossellini, ainda um diretor secundário, soube da morte do padre Morosini, fuzilado pelos alemães por sua atuação na Resistência. Inicialmente, Rossellini quis fazer um documentário. O projeto cresceu como longa-metragem semi-ficcional, com Fellini participando da criação do argumento e do roteiro. Nesse momento de caos na Itália, Rossellini conseguiu do comando militar americano licença para filmar um short. Rodando quase às escondidas, com recursos ínfimos, criou Roma, cidade aberta, a explosão neo-realista que sacudiu o mundo e de cujo script Fellini participou.

   Fellini exaltava Rossellini como seu mestre. Mas ele foi importantíssimo para o sucesso rosseliniano, participando das equipes de (entre outros) Paisà, Francisco, Arauto de Deus e Europa 51.

   Em 1950, Fellini escreve a história original, participa da criação do roteiro e aparece como co-diretor de Mulheres e luzes, do expressivo cineasta Alberto Lattuada. Raízes importantes do universo feliniano já se encontram neste retrato melancólico-humorístico de uma trupe de teatro de revista em desafortunada excursão.

   O Fellini desenhista de humor, chargista, passa a assinar ''solo'' como diretor de O abismo de um sonho (Lo Sceicco Bianco), 1952, comédia satírica, com o cômico Alberto Sordi no papel de um canastrão que posa como herói de fotonovela. No ano seguinte, brotando com vital lirismo da juventude de Fellini em Rimini, surge Os boas-vidas (I Vitelloni), que permanece uma das obras-primas do autor. A ''vida provisória'' de garotões acomodados e amedrontados com o que os espera como adultos, originou um quadro clássico e universal da existência provinciana.

   Cristão, crítico acerbo do dogmatismo católico, buscou a graça divina freqüentemente pelos ''desvios'' da magia e do misticismo sem igrejas. Este é o Fellini que marca mais profundamente os três longas-metragens seguintes: Na estrada da vida, A trapaça (Il bidone) e As noites de Cabíria - todos com Giulietta Masina no elenco. Como a pobre Gelsomina, companheira do artista ambulante Zampanò (Anthony Quinn) - ambos de intensa ressonância humana - a atriz vive uma personagem quase carlitiana, que reforçou o êxito de Na estrada da vida - primeira consagração mundial do cineasta, balizada pelo Leão de Ouro de Veneza e o Oscar de melhor filme em língua estrangeira.

   A doce vida, 1959, painel de falência moral e desamparo existencial, é mais do que a ''soma'' dos filmes anteriores e o início da colaboração com o ator Marcelo Mastroianni, justo ganhador de cadeira cativa como personagem feliniano por excelência - o alter ego do cineasta. A doce vida é um prenúncio da liberação de costumes e de formas narrativas dos anos 60, além de testemunha de uma crise espiritual para a qual Fellini não vê remissão. Também inaugura o barroco em seu estilo - traço que vai sobressair ainda mais no libérrimo Fellini oito e meio (retrato autocrítico) e no ousado e mal-amado Casanova de Fellini. Destacam-se, ainda, nessa filmografia, Julieta dos espíritos (artisticamente menor), Fellini-Satyricon e Amarcord - este, uma retomada genial do quadro provinciano de Os boas-vidas. Roma de Fellini é um misto de memória, lirismo e documentarismo. E la nave va, de 1983 - alegoria sobre o declínio da criação artística em seu tempo -, encontra expressivo êxito. O cineasta sofre algumas falhas de inspiração em Ginger e Fred, 1985, e Entrevista, 1987. A voz da lua, seu último filme (1990), é um Fellini sem o clima feliniano.

(© JB Online)

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