| Federico Fellini somou em sua obra as duas mais
importantes correntes que impulsionaram a arte do filme no pós-guerra. O neo-realismo
italiano, detonado por Roberto Rossellini, e o cinema de temática existencial,
privilegiando os dramas da incomunicação entre os homens e do ''silêncio de Deus'',
aprofundados pelo sueco Ingmar Bergman. Como Bergman, constituiu um elo entre a
metafísica e a magia a partir do fascínio comum pela lanterna mágica, antecessora do
cinematógrafo.
Mentiroso, provinciano,
preguiçoso, antiintelectual. Pode-se ''acusar'' Fellini disso tudo, sem ofensa. Mentia
para testar a receptividade de idéias para filmes, como fez com Rossellini, fazendo
passar por conto russo uma das duas histórias de Amore: il miracolo. Despreocupado
com a cultura erudita, confessava-se leitor preguiçoso, que nunca folheou o romance Ulisses,
de James Joyce, preferindo os jornais, a Bíblia, um ou outro filósofo. E assumia a
condição de provinciano. Nascido em Rimini, balneário italiano do Adriático norte,
adicionou a curiosidade ao senso de maravilha dos forasteiros ao vislumbrar uma metrópole
- e logo a Cidade Eterna, Roma. Filmou, documentou, polemizou e escandalizou Roma. E
adotou-a para sempre.
Fellini nasceu em 20 de
janeiro de 1920. O pai era um modesto comerciante. Estudou inicialmente em colégio
religioso, onde sofreu dois anos de internato - marcas que levaria para a tela. Aos 7 anos
fugiu de casa, na trilha de um pequeno circo. Aos 19, sonhando com Roma, parou em
Florença, onde se empregou como revisor e desenhista, e criou histórias em quadrinhos.
Continuando a percorrer caminhos que reconstituiria poeticamente no cinema, foi vendedor
de diamantes fajutos, colaborador do ''correio sentimental'' de uma revista e, depois, de
um semanário humorístico.
Em 1940, desembarcou em Roma,
onde continuou a desenhar quadrinhos, escreveu esquetes radiofônicos, letras
de canções para teatro de revista. Depois rodou a Itália na pequena companhia teatral
de Aldo Fabrizi (que interpretaria o padre de Roma, cidade aberta). Escreveu para a
série de rádio Cico e Pallina - esta, personagem interpretada pela principiante
Giulietta Masina, com quem se casou em 1943. Quando termina a ocupação alemã de Roma,
Fellini ganha dinheiro inventando uma Funny Face Shop, onde faz desenhos e caricaturas de
soldados americanos recém-chegados.
No cinema, a partir de 1942,
trabalhou como roteirista de filmes despretensiosos. A hora decisiva chegou no final da
guerra, quando Rossellini, ainda um diretor secundário, soube da morte do padre Morosini,
fuzilado pelos alemães por sua atuação na Resistência. Inicialmente, Rossellini quis
fazer um documentário. O projeto cresceu como longa-metragem semi-ficcional, com Fellini
participando da criação do argumento e do roteiro. Nesse momento de caos na Itália,
Rossellini conseguiu do comando militar americano licença para filmar um short.
Rodando quase às escondidas, com recursos ínfimos, criou Roma, cidade aberta, a
explosão neo-realista que sacudiu o mundo e de cujo script Fellini participou.
Fellini exaltava Rossellini
como seu mestre. Mas ele foi importantíssimo para o sucesso rosseliniano, participando
das equipes de (entre outros) Paisà, Francisco, Arauto de Deus e Europa
51.
Em 1950, Fellini escreve a
história original, participa da criação do roteiro e aparece como co-diretor de Mulheres
e luzes, do expressivo cineasta Alberto Lattuada. Raízes importantes do universo
feliniano já se encontram neste retrato melancólico-humorístico de uma trupe de teatro
de revista em desafortunada excursão.
O Fellini desenhista de humor,
chargista, passa a assinar ''solo'' como diretor de O abismo de um sonho (Lo
Sceicco Bianco), 1952, comédia satírica, com o cômico Alberto Sordi no papel de um
canastrão que posa como herói de fotonovela. No ano seguinte, brotando com vital lirismo
da juventude de Fellini em Rimini, surge Os boas-vidas (I Vitelloni), que permanece
uma das obras-primas do autor. A ''vida provisória'' de garotões acomodados e
amedrontados com o que os espera como adultos, originou um quadro clássico e universal da
existência provinciana.
Cristão, crítico acerbo do
dogmatismo católico, buscou a graça divina freqüentemente pelos ''desvios'' da magia e
do misticismo sem igrejas. Este é o Fellini que marca mais profundamente os três
longas-metragens seguintes: Na estrada da vida, A trapaça (Il bidone) e As
noites de Cabíria - todos com Giulietta Masina no elenco. Como a pobre Gelsomina,
companheira do artista ambulante Zampanò (Anthony Quinn) - ambos de intensa ressonância
humana - a atriz vive uma personagem quase carlitiana, que reforçou o êxito de Na
estrada da vida - primeira consagração mundial do cineasta, balizada pelo Leão de
Ouro de Veneza e o Oscar de melhor filme em língua estrangeira.
A doce vida, 1959, painel de
falência moral e desamparo existencial, é mais do que a ''soma'' dos filmes anteriores e
o início da colaboração com o ator Marcelo Mastroianni, justo ganhador de cadeira
cativa como personagem feliniano por excelência - o alter ego do cineasta. A doce vida
é um prenúncio da liberação de costumes e de formas narrativas dos anos 60, além de
testemunha de uma crise espiritual para a qual Fellini não vê remissão. Também
inaugura o barroco em seu estilo - traço que vai sobressair ainda mais no libérrimo Fellini
oito e meio (retrato autocrítico) e no ousado e mal-amado Casanova de Fellini.
Destacam-se, ainda, nessa filmografia, Julieta dos espíritos (artisticamente
menor), Fellini-Satyricon e Amarcord - este, uma retomada genial do quadro
provinciano de Os boas-vidas. Roma de Fellini é um misto de memória,
lirismo e documentarismo. E la nave va, de 1983 - alegoria sobre o declínio da
criação artística em seu tempo -, encontra expressivo êxito. O cineasta sofre algumas
falhas de inspiração em Ginger e Fred, 1985, e Entrevista, 1987. A voz
da lua, seu último filme (1990), é um Fellini sem o clima feliniano.
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