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Cantori di Malavita: canções sobre a máfia da Calábria

25/01/2003

O grupo Cantori di Malavita, que lança no Brasil "Omertà, Onuri e Sangu", álbum com canções sobre a máfia da Calábria

 

Canções do La Musica della Mafia viram fenômeno pop; disco tem lançamento no Brasil em março

THIAGO NEY
DA REDAÇÃO

   "Um homem que não dedica tempo à sua família nunca será um homem de verdade." Bem, o poderoso chefão Don Corleone já tem trilha sonora para as horas que passa em casa.

   No ano passado, envolto em muita polêmica, chegou às lojas alemãs, francesas, americanas e inglesas (mas não italianas) o segundo disco do projeto La Musica della Mafia, "Omertà, Onuri e Sangu" (ou lei do silêncio, honra e sangue). O CD terá lançamento brasileiro em março, via Sum. (A estréia do grupo em álbum aconteceu em 2000, com "Il Canto di Malavita".)

   O projeto é uma tentativa de resgatar centenárias canções que retratam o modo de vida da Ndrangheta, organização mafiosa sediada na Calábria, sul da Itália, e acusada de cometer violentos crimes em seu país e no exterior, envolvendo, entre outros, tráfico de drogas, prostituição e sequestros.

   Com quase 100 mil cópias vendidas e tema de reportagens de jornais e revistas internacionais como "New York Times" (EUA), "Guardian" (Inglaterra) e "Bild" (Alemanha), o disco não foi lançado e nem é tocado nas rádios italianas. "As gravadoras e as rádios têm medo de sofrer represálias. Uma vez, íamos tocar em Reggio di Calábria e, um dia antes, o organizador nos avisou que o show havia sido cancelado. Mas não nos contou por quê", disse à Folha Mimmo Siclari, 52, vocalista do grupo Cantori di Malavita, a banda que dá voz e cara ao projeto. Mimmo conversou por e-mail, com a ajuda de tradução do empresário e criador do La Musica della Mafia, Francesco Sbano.

   "Em 1970, um homem foi preso apenas por cantar uma música antiga que falava sobre a máfia. Desde então, ninguém se atreve a fazer isso em público", diz Mimmi, que afirma não ter nenhuma relação com a organização mafiosa. A solução foi assinar com o selo alemão Play It Again Sam.
Toda a polêmica reverbera menos pela música em si, que vai de canções faladas a alegres tarantelas, do que pelo conteúdo das letras. São composições que falam tanto sobre honra, respeito, quanto sobre derramamento de sangue.

   "Essas canções não glorificam a violência", afirma Mimmo, rebatendo a principal crítica ao projeto. "Elas são parte da cultura da minha região, a Calábria. Elas falam sobre os valores da antiga máfia, que não tem nada a ver com os negócios das atuais organizações mafiosas."
Mimmo conta que conheceu essas canções "malavita" (fora-da-lei), baseadas nos antigos códigos da Ndrangheta, quando tinha 18 anos. "Depois eu comecei a fazer compilações em fitas cassete e saía para vendê-las nos mercados dos vilarejos da Calábria com uma caminhonete. E são canções muito populares entre os presos do sul da Itália." (Inúmeras músicas foram escritas por detentos.)
A questão "velha máfia vs. nova máfia" é levantada pelo cantor em diversas perguntas feitas pela Folha, como uma forma de distanciar as canções antigas dos crimes cometidos pelas organizações mafiosas hoje. "O que nós cantamos faz referência a uma tradição popular da Calábria. Não existe nenhuma canção conhecida que faça referências à "nova máfia". Nos anos 60, o dinheiro passou a tomar conta dos negócios e aquela tradição foi esquecida."

   O romantismo é bastante criticado por organizações de ascendência italiana, como a Sons of Italy in America (Filhos da Itália na América). "O que eles estão querendo é que o público compre essa idéia do mito da máfia, de que eles são homens de honra protegendo os fracos, o que não corresponde à realidade. Os mafiosos são opressores", disse ao "NY Times" a presidente da organização, Dona De Sanctis.

(© Folha de S. Paulo)

Canções vão do folk à tarantela
DA REDAÇÃO

   De músicas apenas faladas, passando por tarantelas e folks tradicionais, os dois discos do projeto La Musica della Mafia se tornaram fenômeno independente para a gravadora Play It Again Sam (casa de bandas como Sigur Rós e Mogwai).

   São canções com temática por vezes tristes, por vezes até assustadora, quando toca nos valores e códigos da Ndrangheta.

   Sem edição na Itália, seu país de origem, os CDs -alavancados pela polêmica relação com a máfia- já venderam quase 100 mil cópias na Europa, em países como França, Alemanha e Inglaterra.

   O criador e empresário do projeto La Musica della Mafia, Francesco Sbano, negocia com alguns selos pequenos da Itália a viabilização da chegada dos CDs do grupo às lojas de seu país.

   "As gravadoras grandes já nos informaram que não têm interesse no projeto. Não há uma proibição oficial, mas eles têm medo de sofrer pressões de organizações antimáfia. Os membros da banda são os melhores músicos folk do sul da Itália. Não há razão para se envergonhar disso." (TN)

(© Folha de S. Paulo)

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