Por Rodrigo Leite, especial para a Reuters PORTO ALEGRE (Reuters) - Um grupo de ativistas italianos planeja invadir
embaixadas norte-americanas e bases da Otan assim que os Estados Unidos lançarem a
prometida ofensiva contra o Iraque, anunciaram ativistas do Desobbedienti, um movimento de
desobediência civil que participa do 3 Fórum Social Mundial em Porto Alegre.
"A guerra no Iraque será uma oportunidade para lançar uma mensagem
contra as ações norte-americanas. Podemos ser milhões em todo o mundo", disse Luca
Casarini, ativista do Desobbedienti, que, segundo ele, reúne 20 mil militantes.
Casarini acrescentou, no painel Insurgência Cidadã Contra a Ordem
Estabelecida, que o grupo está articulando protestos semelhantes com outros países,
especialmente na Europa, e também prepara campanhas para que as pessoas boicotem empresas
e bancos que financiem o conflito.
Segundo ele, o objetivo do protesto não é defender o regime de Saddam
Hussein, ameaçado por uma possível invasão americana e britânica.
"Não queremos bancar os ridículos na frente de um quartel, queremos
também mostrar que Saddam é um ditador e que o presidente George Bush apenas o usa, como
usava Osama bin Laden, para justificar seus atos."
Casarini afirmou ainda, divulgando antecipadamente a ação, que os
desobedientes sabem que irão encontrar segurança reforçada nas bases e embaixadas, mas
ainda assim prometem levar o protesto adiante.
"Estamos discutindo, sempre de forma pública, qual a melhor maneira
de garantir nossa segurança. Certamente haverá policiais e bombas, num esquema de guerra
contra os civis", afirmou.
Um dos alvos já definidos é a base americana de Camp Derby, na Toscana
(região central da Itália), um ponto estratégico para o envio de armas e equipamentos
ao Oriente Médio.
"Não basta apenas mobilizar milhões de pessoas nas praças. Temos
de entrar lá e sabotar para que não possa haver guerra", disse Francesco Caruso,
preso em novembro de 2002 na Itália sob acusação de subversão e hoje também
integrante do Desobbedienti.
No próximo dia 15, os desobedientes vão emitir por satélite um programa
de TV em solidariedade ao Iraque que poderá ser visto naquele país.
Uma semana depois, eles fazem em Roma uma reunião com representantes do
Exército Zapatista de Libertação Nacional, grupo mexicano que reivindica melhores
condições para os indígenas.
Os desobedientes dizem que estão aproveitando o encontro de Porto Alegre
para aprender com um grupo de argentinos conhecido como Piqueteiros a fazer bloqueios de
estradas.
"Os Piqueteiros integram um movimento pacífico, assim como nós, que
nunca recorremos às armas de fogo. Há mil maneiras de combater a guerra. Cada cidadão
é um veículo de marketing e deve se expressar contra a guerra", disse Casarini.
Na opinião dele, "a desobediência é a única forma de combater os
fundamentalismos".
"Somos contra qualquer tipo de fundamentalismo, seja o de Alá ou o
de Wall Street. Achamos que nesse processo surgirá uma outra legalidade, uma mudança
radical das leis nacionais e internacionais."
(© UOL Notícias)
| Anúncio de apoio italiano
aos EUA em possível guerra irrita oposição |
O primeiro-ministro, pressionado, não explica com clareza a
posição de seu governo
ASSIMINA VLAHOU
Especial para o Estado
ROMA - A declaração do porta voz
da Casa Branca, Ari Fleischer, de que a Itália estará ao lado dos EUA numa possível
guerra contra o Iraque, assim como Espanha, Polônia e Grã-Bretanha, desencadeou duras
reações na oposição ao governo de Silvio Berlusconi e até na coalizão governista de
centro-direita.
Pressionado pelas reações políticas e pela imprensa, Berlusconi não
conseguiu dar uma resposta convincente e segura sobre a posição de seu governo. O
ministro do Exterior italiano, Franco Frattini, confirmou na visita que fez a Washington
no começo da semana que a Itália estaria ao lado dos EUA mesmo sem a aprovação da ONU
- em contraposição à França e a Alemanha. Depois da declaração de Fleischer o
governo achou melhor adotar um discurso mais cauteloso.
"George Bush tem certeza de que os inspetores da ONU apresentarão
provas claras no dia 27", afirmou Berlusconi. O líder italiano disse também ter
conhecimento de outros fatos que demonstram a existência de armas de destruição em
massa nos arsenais de Saddam Hussein. "Não posso dizer mais, pois são informações
reservadas", concluiu.
Segundo Berlusconi, a Itália vai definir sua posição após consultar o
Parlamento e com base na resolução da ONU. Ele acredita também que depois das
declarações de Alemanha e França não há sentido numa reunião dos líderes europeus
sobre a crise.
As declarações de Berlusconi não foram suficientes para acalmar os
ânimos e eliminar a impressão de retorno à ambigüidade demonstrada pelos italianos em
outros momentos delicados de política internacional.
O Partido Verde pede que o governo esclareça sua posição no Parlamento
o mais depressa possível e deixe de ser "o Pôncio Pilatos da política
internacional".
Pacifistas, europeístas, boa parte dos católicos e esquerda italiana
são contra a guerra e concordam com a linha franco-alemã. Entre eles estão cerca de 60
parlamentares da coalizão de governo que assinaram um apelo contra a guerra. "O
mundo está tomando posição. E nós, de que lado estamos?" pergunta Massimo
D'Alema, ex-primeiro-ministro e líder do DS, maior partido da esqueda italiana.
(© O Estado de S. Paulo) |
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