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O Papa em campanha contra o ataque ao Iraque

02/02/2003

 

 

Araujo Netto
Correspondente

   ROMA. As duas únicas diferenças que se observam entre o Papa João Paulo II que foi um severo crítico da primeira guerra da família Bush contra Saddam Hussein e o de hoje, que vem se apresentando como o último paladino do pacifismo, são a voz mais trêmula, nem por isso menos enérgica, e a solidão com que vem conduzindo diariamente uma nova batalha contra guerras que na sua opinião representariam uma derrota da Humanidade.

   Nesta nova cruzada, o Papa não pode contar nem mesmo com o apoio de outra grande voz, como a do filósofo italiano Norberto Bobbio, guru da intelectualidade européia. E muito menos com a solidariedade de líderes políticos da esquerda democrática, que preferem assistir do alto do muro à nova pregação pacifista.

   Na última edição de “Civiltà Cattolica”, a mais antiga e importante revista cultural e doutrinária da Igreja, um editorial de dez páginas explica com argumentos irrefutáveis e linguagem clara as razões que levam o velho Papa polonês a assumir pública e diariamente uma posição antiamericana difícil de ser aceita até mesmo por muitos católicos.

   O Papa diz e repete com ênfase que a situação do Oriente Médio nos ensina que os conflitos armados não resolvem os problemas, só criam maiores incompreensões entre os povos e tornam a ordem internacional mais instável. João Paulo II tem afirmado que o perdão não se contrapõe à justiça porque não passa por cima das legítimas exigências de reparação da ordem ferida. E que a busca de composições ou compromissos é um direito que deve, como qualquer outro, corresponder a regras morais e jurídicas e se inspirar na vontade de um entendimento leal e construtivo, em harmonia com os princípios do direito internacional.

   Repudiando até mesmo o argumento da guerra preventiva, o Papa não desiste de exortar a busca de meios pacíficos de diálogo, confrontos e negociações diplomáticas como antídoto da guerra. A maior preocupação revelada em suas intervenções a favor da paz é que uma nova guerra contra o Iraque, que ele considera a Terra dos Profetas, possa abater-se sobre sua população, causando sacrifícios ainda maiores.

   A posição do Papa irritou o governo americano. Sexta-feira, o embaixador dos EUA no Vaticano, Jim Nicholson, criticou a oposição da Igreja à guerra, dizendo que o Vaticano parece não ter entendido que se Hitler tivesse sido derrubado nos anos 30 uma tragédia teria sido evitada.

(© O Globo On Line)

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