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Desenhos de um mestre obcecado

14/02/2003

Cabeça da Virgem em Três-Quartos Olhando Para Direita , de Leonardo da Vinci.

 

Da Vinci teve o hábito, por toda a vida, de preencher papéis com esboços e rabiscos, diagramas e algumas vezes desenhos completos. Uma curadora do Metropolitan Museum of Art percorreu o mundo, persuadindo museus e coleções privadas a emprestar desenhos raros, na maioria das vezes frágeis, para uma grande exposição. Por Carol Vogel, de The New York Times

   Quando soube que Leonardo da Vinci continuava ocupando-se de receitas de vernizes em vez de pintar, o Papa Leão X, irmão de Giuliano de´ Medici, um dos patronos do artista, exclamou: "Céus! Este homem nunca fará nada, porque ele já pensa no final antes de iniciar sua obra."

   Outros tinha reclamações parecidas sobre o artista que tornara-se a epítome do gênio da renascença: "Ele faz pequenos começos para coisas muito grandes", dizia o chefe do governo oficial da República Florentina, em 1506, sobre a tentativa fracassada de Leonardo de criar um mural retratando a Batalha de Anghiari.

   A despeito da incapacidade de Leonardo de terminar projetos, poucos artistas conquistaram tanta fama por obras eternas, como Mona Lisa e A Última Ceia. Menos conhecido, entretanto, é Leonardo, o desenhista compulsivo. Durante toda sua vida, preencheu qualquer pedaço de papel que encontrasse com esboços e rabiscos, diagramas e algumas vezes desenhos completos.

Desde 1996, Carmen C. Bambach, curadora do departamento de desenhos e gravuras do Metropolitan Museum of Art, tem percorrido o mundo, persuadindo museus e coleções privadas a emprestar desenhos raros, na maioria das vezes frágeis, para uma exposição abrangente de seus desenhos (e uma pintura), Leonardo da Vinci, Mestre do Desenho, aberta em Nova York até 30 de março.

   "Pedir a um museu seus Leonardos é como pedir a uma família aristocrática do século 19 seu primeiro filho", diz Carmen, que organizou a mostra com George R. Goldner, chefe do departamento de desenhos e gravuras do Met. "É um grande ato de generosidade." Montar uma exposição como esta também significa tempo e persistência, apesar do poder de fogo de uma instituição como o Met, que tem seus próprios tesouros para emprestar. Por causa da raridade e da delicadeza dos desenhos de Leonardo, Carmen fez repetidas visitas a alguns museus para pressionar por sua causa. Acabou conseguindo recolher cerca de 120 desenhos do artista, de cerca de 25 coleções públicas e privadas, tantos nos Estados Unidos como no exterior.

   Há empréstimos da Royal Library, do Castelo de Windsor; do Louvre; da Galleria dell´Academia, de Veneza; do British Museum; e do Hamburger Kunsthalle, da Alemanha. Enquanto os desenhos do Castelo de Windsor estão constantemente em exposição, obras de muitas outras coleções jamais foram mostradas nos Estados Unidos. Nunca houve uma concentração de desenhos de Leonardo desse porte no país.

   Dada sua sensibilidade à luz e mudanças de temperatura, desenhos dessa idade raramente são exibidos. Mesmo o Met, que tem seis desenhos na coleção permanente, não os expõe há vários anos. E quando são mostrados, nunca ficam mais de 10 semanas à vista. Na maior parte do tempo, estão selados em caixas pretas impermeáveis, em salas de temperatura controlada.

   Alguns especialistas dizem que os desenhos de Leonardo são tão delicados que não se deveria permitir que viajassem, mas outros acreditam que devem andar para serem vistos. "Muitos são coisas antigas, resistentes, em papel forte, assim o risco não é tão grande", diz Martin Kemp, um professor de história da arte da Oxford University e especializado em Leonardo, sobre quem fez um ensaio. "Os maiores riscos são a exposição à luz. Esses desenhos são maravilhosos e queremos que as pessoas os vejam, mas como toda herança cultural, quanto mais são consumidos, mais são literariamente consumidos."

   Carmen defende a exposição dizendo que é uma oportunidade para novas pesquisas. Oitos estudiosos contribuíram com ensaios de suas últimas pesquisas para o catálogo de 786 páginas e 3,8 kg de peso. Estes incluem observações sobre seus bem-feitores durante os anos iniciais florentinos, particularmente seu pai, que o ajudou a procurar encomendas; uma análise literária dos escritos de Leonardo; e um estudo sobre seus discípulos tal como eles relataram seu legado de mestre. No correr dos anos, ela diz, os especialistas tenderam a concentrar-se nas questões de atribuição mais que no exame dos desenhos como um insight do processo criativo.

   No século 19 havia menos preocupação com o processo: o exame, o descarte, a correção – os erros. Apenas recentemente começou-se a olhar para os 99% de transpiração e 1% de inspiração de gênio que fazem parte da obra dos artistas da renascença italiana, como Leonardo.

   Para Carmen e muitos outros estudiosos da renascença italiana, este é o único significado de criar um retrato unificado de Leonardo, o artista, o escritor, o cientista, o inventor, o teórico e o professor. Embora tenham havido incontáveis mostras de desenhos através dos anos, a maioria focou-se em temas específicos, como seus desenhos anatômicos ou seus esboços de cavalos.

   Funcionários do Met dizem que esta exposição é a primeira, na América, a apresentar uma visão cronológica de suas obras em papel, permitindo aos visitantes ver que, num mesmo ano, ele criou projetos militares, trabalhou em estudos anatômicos do crânio humano, produziu mapas e simplesmente desenhos, assim como esboçou cabeças grotescas, alegorias e estudos para uma estátua eqüestre monumental.

A única pintura da exposição é São Jerônimo na Selva. Carmen escolheu mostrar essa, entre as cerca de 15 ainda existentes, porque não foi finalizada e permite ver o esboço preliminar.

A exposição serve também para acabar com muitos mitos sobre Leonardo. Entre os 30 desenhos da mostra de artistas relevantes para sua formação, há 9 dos 12 desenhos ainda sobreviventes atribuídos a Andrea del Verrochio, o escultor e pintor em cujo ateliê Leonardo foi aprendiz em meados do século 15. Verrochio foi um dos primeiros artistas a usar o sfumato, uma técnica de fundir traços ou pinceladas num tom sem emendas, que tornou Leonardo famoso e, até recentemente, de quem se pensava tivesse sido o inventor.

   Há três anos, o Met, com a ajuda de Leon Black, um de seus comissários, comprou um desenho dupla-face da Sotheby´s, de Londres, por US$ 670.000. Um lado mostra Hércules de frente, segurando uma clava horizontalmente, assim como a vista em três-quartos de uma corrente sob uma ponte e o esboço de um esbelto homem nu desembainhando uma espada. O outro lado mostra Hércules de costas. Quando olhados através da luz, frente e verso combinam exatamente. O desenho faz par com duas folhas de figuras hercúleas da Biblioteca Reale de Turim, que são tidas como esboços para um guerreiro da Batalha de Anghiari.

   A técnica e o conteúdo do desenho do Met são considerados de uma data entre 1506 e 1510. As folhas de Turim, executadas mais ou menos na mesma época, mostram Hércules com um leão. "Há uma possibilidade atormentadora de que ele as tenha feito para competir com o Davi, de Michelangelo", diz Carmen. "Durante os anos de Leonardo em Florença, entre 1503 e 1508, os dois artistas competiram em vários projetos.

   Auto-didata, Leonardo é famoso por nunca Ter dominado o latim e por fiar-se mais em seu poder de observação do que aprender dos livros. Em um desenho de dupla-face do Castelo de Windsor, o crânio humano em escala natural foi cortado em seções. Há também uma vista do que o artista chamava de sensus comunis, ou confluência da faculdades mentais e imaginativas do homem. "A semente da alma", ele dizia, segundo Carmen.

   Leonardo gostava de mistério. Era famoso por ser canhoto e, em muitas de suas obras, sua escrita fina era feita de trás para frente porque ele adorava truques óticos e escrevia da direita para esquerda usando um espelho, aparentemente para ajudar a esconder suas teorias. Na exposição, sua condição de canhoto é ilustrada de muitas formas.

   Cabeça da Virgem, que o Met possui desde 1951, foi recentemente objeto de novos exames tecnológicos não-invasivos porque alguns especialistas duvidavam de sua autenticidade.

   Usando um microscópio sofisticado, Carmen foi capaz de ver esboços em giz vermelho em camadas abaixo da superfície. Indo mais fundo, ela também observou os traços de canhoto do artista movendo-se da direita ao alto para a esquerda abaixo. Freqüentemente, diz a curadora, esses traços canhotos não são notados, porque os desenhos são, na maioria das vezes, estudados de fotografias e não do original. Carmen acredita que este tipo de informação ajudaria os estudiosos a identificar mais facilmente sua obra, no futuro.

A pesquisa mudou sua opinião sobre a data de muitos dos desenhos. Pensava-se que um estudo detalhado, de diferentes ângulos, da parte superior do corpo de uma mulher, pertencente a National Gallery, de Washington, tivesse sido executado entre 1508 e 1510. Mas uma vez comparado com a análise de esboços de figuras similares, da coleção do Castelo de Windsor, ela agora acredita que foi feito entre 1475 e 1480.

Tudo está aberto ao debate", diz Carmen. "Concordância é rara. É o grande prazer disto. Eu olho para esta exposição como o primeiro passo. Leonardo é infinitamente fascinante. Ele não gostaria de ser restringido. Ele foi, acima de tudo, o inventor de fumaça e espelhos."

(© maga.zine estadao.com.br)

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