A BMG lança no Brasil o
histórico 'Per un Pugno di Samba', que o compositor gravou durante o período em que
viveu exilado na Itália, entre 1969 e 70. O disco, que traz arranjos de Ennio Morricone,
reúne canções retiradas de discos que Chico lançou no Brasil entre 1966 e 1968
A Itália dos
sonhos, de início, se revelava uma angústia. Havia a saudade da família, os homens que
não sabiam fazer samba, as mulheres que não sabiam sambar e o dinheiro sempre no lápis
para as contas de casa. A mulher Marieta Severo, em seus 20 anos, se via nas funções da
empregada doméstica que dispensara para conter custos. E Chico Buarque, nos quatro dias
da semana em que não trabalhava, ficava ali sentado lendo revistas e jornais brasileiros.
Se sofrimento foi sua lenha, Chico nunca
falou. Mas é do período conturbado do auto exílio italiano, vivido entre janeiro de
1969 e março de 1970, que desponta um álbum histórico. 'Per un Pugno Di Samba',
produzido pelo papa de estúdios italianos Sérgio Bardotti e arranjado pelo maestro Ennio
Morricone, nunca havia pisado terras brasileiras. Foi um mistério guardado tão bem que,
mesmo em 1970, pouca gente ficou sabendo de seu lançamento.
As canções foram retiradas de discos
gravados entre 1966 e 68. Em todas, Chico canta em italiano - e há quem diga que esteja
melhor do que o que fala português. Somente três das doze faixas, 'Nicanor', 'Não Fala
de Maria' e Samba e Amor', eram inéditas até então e seriam lançadas no Brasil em um
álbum paralelo, concluído no mesmo 1970.
As tardes de Itália o faziam pensar na
rigidez política de seu país que o levara àquela condição e nos amigos músicos que
penavam em situações parecidas. O disco italiano flagra o moço cool de traço angelical
virando o homem incomodado e disposto a levar muros ao chão com poesia. Sua obra
posterior, não por acaso, seria 'Construção', de 1971.
'Per un Pugno di Samba', que literalmente
significa "por um punhado de samba", abre com 'Rotativa' - a 'Roda Viva' que o
selaria como "cantor de protesto" no pós-AI-5. Os arranjos da orquestra de
Morricone para esta canção tentam alternativas mas não descolam das idéias originais
escritas por Chiquinho Moraes para sua primeira gravação, em 1968. 'Samba e Amore' vem
com um violão em bossa cortado por violinos e violoncelos. E 'Sogno di un Carnevale'
('Sonho de Carnaval') é, embora belo, um samba visivelmente tocado por músicos
italianos. De brilho ainda há 'Finerale di un Contadino' ('Funeral de um Lavrador'),
fúnebre e cortante como seria em breve o autor de 'Construção'.
Em março de 1970, 15 meses depois de
mudar-se para a Itália, Chico Buarque recebia jornalistas em seu apartamento, no Rio de
Janeiro, ao lado da ex-mulher Marieta e da filhinha italiana de um ano Sílvia. Mais gordo
e pálido pela falta de sol das praias cariocas, falava por horas. "Havia dias em que
eu não fazia absolutamente nada e podia ficar em casa o dia inteiro.
Ou semanas em que eu trabalhava três dias e
descansava os outros quatro", contava.
Sobre músicos italianos, deixava escapar em
raro momento de indelicadeza.
"No início eu cantava com músicos
italianos e ficava muito nervoso. Tinha medo de errar e. também, não gosto mesmo de me
apresentar em público... O problema é que faltava bossa (dos italianos)".
O fenômeno da popularidade de sua voz
pequenina na terra de Luciano Pavarotti era, segundo sua modéstia, um equívoco. Chico,
dizia, não era um popstar nas ruas de Roma ou Turim. Deixava sua assinatura em um papel
aqui, outro ali, sem perder a postura de gente comum. "Não tive tanta sorte.
Nenhum paparazzi me perseguiu nas ruas."
Os italianos declararam-se a um jovem brasileiro que chegava com versos pensados para o
idioma local - exigência indispensável do público dos "cantautores". Mesmo o
francês Charles Aznavour, em suas passagens pelo país, fazia se via pressionado a
interpretar em italiano.
O saldo da saga italiana do "ragazzo
brasiliano" foi positivo. "Deu para viver, mesmo sem ganhar muito. Se fizermos
uma comparação com o sucesso que faço no Brasil e a onda que sou na Itália, acho que
por lá ainda saio ganhando." Ainda assim, prometeu: "Serei, daqui para frente,
um mero cantor e compositor que vive no Rio de Janeiro e trabalha de vez em quando na
Europa." E cumpriu. JÚLIO MARIA