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A canção do exílio de Chico Buarque. Em italiano

15/02/2003

Chico Buarque: disco italiano flagra o moço cool de traço angelical virando o homem incomodado e disposto a levar muros ao chão com poesia    Tasso Marcelo/AE

 

A BMG lança no Brasil o histórico 'Per un Pugno di Samba', que o compositor gravou durante o período em que viveu exilado na Itália, entre 1969 e 70. O disco, que traz arranjos de Ennio Morricone, reúne canções retiradas de discos que Chico lançou no Brasil entre 1966 e 1968

   A Itália dos sonhos, de início, se revelava uma angústia. Havia a saudade da família, os homens que não sabiam fazer samba, as mulheres que não sabiam sambar e o dinheiro sempre no lápis para as contas de casa. A mulher Marieta Severo, em seus 20 anos, se via nas funções da empregada doméstica que dispensara para conter custos. E Chico Buarque, nos quatro dias da semana em que não trabalhava, ficava ali sentado lendo revistas e jornais brasileiros.

   Se sofrimento foi sua lenha, Chico nunca falou. Mas é do período conturbado do auto exílio italiano, vivido entre janeiro de 1969 e março de 1970, que desponta um álbum histórico. 'Per un Pugno Di Samba', produzido pelo papa de estúdios italianos Sérgio Bardotti e arranjado pelo maestro Ennio Morricone, nunca havia pisado terras brasileiras. Foi um mistério guardado tão bem que, mesmo em 1970, pouca gente ficou sabendo de seu lançamento.

   As canções foram retiradas de discos gravados entre 1966 e 68. Em todas, Chico canta em italiano - e há quem diga que esteja melhor do que o que fala português. Somente três das doze faixas, 'Nicanor', 'Não Fala de Maria' e Samba e Amor', eram inéditas até então e seriam lançadas no Brasil em um álbum paralelo, concluído no mesmo 1970.

   As tardes de Itália o faziam pensar na rigidez política de seu país que o levara àquela condição e nos amigos músicos que penavam em situações parecidas. O disco italiano flagra o moço cool de traço angelical virando o homem incomodado e disposto a levar muros ao chão com poesia. Sua obra posterior, não por acaso, seria 'Construção', de 1971.

   'Per un Pugno di Samba', que literalmente significa "por um punhado de samba", abre com 'Rotativa' - a 'Roda Viva' que o selaria como "cantor de protesto" no pós-AI-5. Os arranjos da orquestra de Morricone para esta canção tentam alternativas mas não descolam das idéias originais escritas por Chiquinho Moraes para sua primeira gravação, em 1968. 'Samba e Amore' vem com um violão em bossa cortado por violinos e violoncelos. E 'Sogno di un Carnevale' ('Sonho de Carnaval') é, embora belo, um samba visivelmente tocado por músicos italianos. De brilho ainda há 'Finerale di un Contadino' ('Funeral de um Lavrador'), fúnebre e cortante como seria em breve o autor de 'Construção'.

    Em março de 1970, 15 meses depois de mudar-se para a Itália, Chico Buarque recebia jornalistas em seu apartamento, no Rio de Janeiro, ao lado da ex-mulher Marieta e da filhinha italiana de um ano Sílvia. Mais gordo e pálido pela falta de sol das praias cariocas, falava por horas. "Havia dias em que eu não fazia absolutamente nada e podia ficar em casa o dia inteiro.

   Ou semanas em que eu trabalhava três dias e descansava os outros quatro", contava.

   Sobre músicos italianos, deixava escapar em raro momento de indelicadeza.

   "No início eu cantava com músicos italianos e ficava muito nervoso. Tinha medo de errar e. também, não gosto mesmo de me apresentar em público... O problema é que faltava bossa (dos italianos)".

   O fenômeno da popularidade de sua voz pequenina na terra de Luciano Pavarotti era, segundo sua modéstia, um equívoco. Chico, dizia, não era um popstar nas ruas de Roma ou Turim. Deixava sua assinatura em um papel aqui, outro ali, sem perder a postura de gente comum. "Não tive tanta sorte.

   Nenhum paparazzi me perseguiu nas ruas." Os italianos declararam-se a um jovem brasileiro que chegava com versos pensados para o idioma local - exigência indispensável do público dos "cantautores". Mesmo o francês Charles Aznavour, em suas passagens pelo país, fazia se via pressionado a interpretar em italiano.

   O saldo da saga italiana do "ragazzo brasiliano" foi positivo. "Deu para viver, mesmo sem ganhar muito. Se fizermos uma comparação com o sucesso que faço no Brasil e a onda que sou na Itália, acho que por lá ainda saio ganhando." Ainda assim, prometeu: "Serei, daqui para frente, um mero cantor e compositor que vive no Rio de Janeiro e trabalha de vez em quando na Europa." E cumpriu. JÚLIO MARIA

(© Jornal da Tarde)

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