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O exílio de Chico Buarque, 32 anos depois

20/02/2003

 

 

Disco gravado na Itália pelo compositor com o maestro Ennio Morricone, hoje uma raridade, ganha edição nacional

Marco Antonio Barbosa

   Um dos mais bem-guardados segredos da história da MPB afinal ganha um inesperado esclarecimento, 32 anos após sua origem. Quando a gravadora Universal lançou, em 2001, a caixa Construção, contendo a (quase) totalidade da obra de Chico Buarque de 1966 a 1985, alguns fãs mais atentos se perguntaram: "E o disco com o Morricone?" Falava-se do álbum Per un Pugno di Samba, gravado em 1970 na Itália, unindo em uma parceria inusitada Chico e o compositor/arranjador Ennio Morricone. Lançado naquele mesmo ano apenas na Itália, o disco nunca tinha tido edição nacional... até agora. Na semana passada, a BMG Brasil - atual gravadora de Chico e detentora do catálogo da RCA, selo que lançou o disco em 1970 - pôs Per un Pugno di Samba nas prateleiras brasileiras pela primeira vez. Ao longo desses anos, o disco ganhou status lendário e se tornou um dos mais perseguidos itens de colecionador da música brasileira.

   Chico registrou Per un Pugno di Samba durante o período em que morou na Itália. O cantor viveu em Roma por 15 meses, entre 1969 e 1970, e lá participou de vários programas de TV, além de realizar uma turnê em conjunto com Toquinho e a cantora norte-americana Josephine Baker. Antes de se encontrar com Morricone, registrou em 1969 o álbum Chico Buarque de Hollanda na Itália, que seria seu quarto LP "não-oficial" - Chico Buarque de Hollanda Volume 4, gravado já na volta ao Brasil, em 1970, tomou o posto desse LP na sua discografia oficial.

   O contato de Chico com Ennio Morricone foi feito através do produtor Sergio Bardotti, grande nome do mercado fonográfico italiano da época. Morricone, àquela altura, era um dos mais renomados compositores do cinema europeu; sua associação com o cineasta Sergio Leone rendeu scores hoje clássicos, para filmes como Três Homens em Conflito (1966) e Era uma Vez no Oeste (69). (O título do disco, aliás, refere-se ao filme Por um Punhado de Dólares, ou Per un Pugno di Dollares, musicado por Morricone em 1964.) O estilo de Morricone como arranjador virou marca registrada do subgênero cinematográfico conhecido como western-spaghetti. Uma parceria inusitada para os sambas delicados e introspectivos que Chico fazia à época.

   O autor de A Banda partira para a Europa auto-exilado, para evitar problemas com o governo militar brasileiro. Depois da estréia do musical Roda Viva, em 1967, o compositor passou a ser visto como "subversivo em potencial"; a tumultuada trajetória da peça musicada por Chico, proibida pela censura, pesou e muito nisso. As coisas pioraram após dezembro de 68, quando o AI-5 (Ato Institucional nº5) foi decretado; Chico chegou mesmo a passar uma noite preso no Rio de Janeiro, prestando "esclarecimentos" sobre suas canções. Menos de um mês depois, o compositor partiu para a França; oficialmente, viajaria apenas para participar do Midem, a feira internacional do disco realizada todos anos em Cannes. De lá, estabeleceu-se em Roma.

   Para gravar o álbum com Morricone, Chico Buarque fez um apanhado das músicas que havia gravado até então, além de três faixas (Nicanor, Não Fala de Maria e Samba e Amor) que só apareceriam em Volume 4. O detalhe é que as canções ganharam letras em italiano, escritas pelo produtor Bardotti. As novas versões eram uma exigência de mercado; quase não se tocava nas rádios italianas músicas em outros idiomas. Roda Viva, que abria o disco, virou Rotativa; Sogno di un Carnevale era a antiga Sonho de um Carnaval; Funeral de um Lavrador tornou-se Funerale di un Contadino, e por aí foi. Os versos eram traduções praticamente literais das letras em português.

   A dramaticidade de Morricone e a musicalidade até então contida de Chico nem sempre casavam muito bem. Por vezes, o novo arranjo aproximava-se, sem arriscar muito, da versão original (como em Rotativa). Outros momentos, como no desajeitado sambinha Sogno di un Carnevale ou na bossa estilizada - carregada de cordas clássicas - de Samba e Amore, soavam menos espontâneos. O melhor do álbum está nas passagens menos grandiloqüentes, como In Te ou nas adequadamente solenes Funeral di um Contadino e In Memoria di um Conjurato.

   Talvez por não ter feito muito sucesso na época de seu lançamento, Per un Pugno di Samba ficou sem edição nacional. Havia também o problema do licenciamento; Chico, em sua volta ao Brasil, assinou com a Phillips (atual Universal) e a RCA teria de negociar com o selo holandês o lançamento do disco. Por aqui, pouca gente ficou sabendo do lançamento e mesmo Chico Buarque não fazia muita questão de trazer o assunto à baila. Possivelmente, para evitar as recordações do exílio, um período não muito agradável da vida do cantor, que trocou uma confortável vida de classe média alta no Rio de Janeiro por uma situação financeira bem mais apertada.

   Com o passar dos anos, o álbum ganhou um vulto legendário. Cópias em vinil do disco chegavam a valer pequenas fortunas, em sebos especializados em raridades. Em uma entrevista em 1988, o próprio Chico admitia ter dificuldades de lembrar dos detalhes que envolveram a gravação - e nem mesmo ele possuía, na época, uma cópia do disco. A versão que a BMG colocou nas lojas recria fielmente a edição original, incluindo arte de capa e créditos e ficha técnica completos.

(© CliqueMusic.com.br)

A inteligência que venceu a burrice
 

Hugo Sukman

   Embora o rondasse há tempos, a burrice assumiu integralmente o poder no Brasil no dia 13 de dezembro de 1968. E, como sempre que isso acontece, tratou logo de se livrar da inteligência, sua principal inimiga. A ponta mais sofisticada da inteligência nacional, a música popular, sofreu naturalmente muitas baixas. Pode-se dizer que, com raras exceções, a música brasileira exilou-se em 1969.

   “Per un pugno di samba”, inaudita colaboração de Chico Buarque e o mestre das trilhas sonoras italianas (e grande arranjador) Ennio Morricone gravada em Roma, e “The new face of Bonfá”, talvez o mais refinado disco do violonista Luiz Bonfá nos Estados Unidos, são exemplos dessa inteligência exilada, que a BMG lança pela primeira vez no Brasil.

Bonfá já era uma estrela, Chico ainda não

   Ambos os discos foram gravados e lançados em 1970. Não poderiam acontecer no Brasil. O de Chico pela ditadura política consumada, que fez uma alma lírica como a sua — mais afeita a beber cerveja dinamarquesa em lata no Antonio’s do que a derrubar governos (para usar uma expressão de Nelson Rodrigues da época) — tornar-se certo símbolo da contestação do regime. O de Bonfá pela ditadura mais sutil nascida a partir da (falsa, porém induzida) percepção de que seria impossível a existência no mercado brasileiro de uma música não massificada.

   Ao contrário de Chico, Bonfá não estava propriamente exilado quando gravou “The new face...”. Pelo contrário, cobriam-no os louros de quase dez anos de carreira internacional iniciada com o sucesso mundial de sua “Manhã de carnaval” (até hoje só comparável a “Garota de Ipanema”), de uma sólida carreira discográfica americana na qual brilharam tanto o compositor — como em “Luiz Bonfá plays bossa nova”, pela Verve e no sucesso de “Gentle rain”, standard com mais de 300 gravações — quanto o violonista em uma série de discos antológicos gravados nos EUA nos anos 60. Enquanto isso, no Brasil, o tipo de música que Bonfá fazia — a bossa nova, o instrumental moderno, o samba-jazz — diluía-se num mercado cada vez mais hostil.

   “The new face..” é a prova do que o Brasil perdeu nos tempos sombrios. Gravado entre o Rio e Nova York, traz Bonfá ao violão de nylon mas sobretudo na craviola tocando exclusivamente composições suas. Coisas como a levíssima “Window girl”, bem ao espírito da época, com influência de Burt Bacharach (e incrível suingue do baixo de Ron Carter), uma valsa-jazz em 6/8 de cair o queixo, “Sofisticada”, ou na etérea “Helicopter 274”, violão de bossa nova, cordas e vocal feminino fazendo o tema voar.

   Impecável, o disco conta com orquestrações de Marthy Manning, músicos americanos como Ron Carter mas também jovens brasileiros como Nelson Angelo (guitarra) e Novelli (baixo) que respiravam através do Clube da Esquina nas poucas frestas que restavam para a música brasileira.

   Para Chico o clima era irrespirável e a Europa foi o caminho natural. Em Roma, ainda não era o cartaz de hoje e vivia de, com Toquinho, abrir shows para Josephine Baker, entre outros expedientes. Num conluio de amigos italianos como o letrista Sergio Bardotti (versionista das canções de Chico para o italiano e seu futuro parceiro em “Os saltimbancos”), conseguiram que Ennio Morricone fizesse arranjos para um disco de Chico em italiano (o segundo, aliás).

   Não chega a ser como água e óleo, mas o fato é que o rico universo orquestral de Morricone não foi a melhor roupa que a música de Chico já teve. A base do repertório, do disco brasileiro “Chico Buarque volume 4”, está melhor nos arranjos de Magro e César Camargo Mariano, já então conhecidos. Hoje, contudo, a visão de Morricone da música de Chico é inestimável peça de colecionador. Basta ouvir “Ed ora dico sul serio” (“Agora falando sério”), cuja introdução à western-spaghetti confere inegável interesse histórico a esse encontro que só um grande desencontro histórico poderia proporcionar.

(© O Globo OnLine)

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